Em Caná da Galileia...


A praia, os telemóveis e a contemplação

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O dia 25 de abril abriu para a nossa família, “oficialmente”, a época balnear. Já foi uma “abertura” tardia para nós, mas as chuvas de março não o permitiram antes. Assim, de manhã preparámos um belo piquenique, e logo nos aventurámos até à praia da Barra. Começámos pela patinagem no paredão, lugar ideal para as brincadeiras sobre rodas. Que alegria! Os pescadores que por ali se entretinham a pescar viravam a cabeça, espantados com a alta velocidade com que oito crianças e jovens deslizavam. Houve até um ciclista que, ultrapassando-os, os informou: “Estão a patinar a 18 Km /h contra o vento. Se o vento estivesse a favor, chegavam aos 20 Km/h!”

Quando nos cansámos dos patins, foi hora de correr para a praia. O sol, o céu azul, a brisa suave, a água fria do Atlântico, a areia entre os dedos dos pés, tudo nos falava de Deus e das maravilhas do seu ato criador. Há quanto tempo não experimentávamos a tranquilidade da beira-mar!

Poucas famílias se lembraram de ir à praia neste dia, pelo que tínhamos imenso espaço, o que nos agrada sempre muito. Perto de nós, contudo, estava uma mãe com dois filhos pequeninos: uma bebé de cerca de um ano e um menino do tamanho da Sara. Mas os meninos não estavam a brincar, pelo menos não estavam a brincar com a mesma intensidade dos nossos: a bebé estava muito atenta a ver qualquer coisa no telemóvel da mãe, e o rapazinho segurava um tablet entre as mãos. “Lá estás tu com essa porcaria!” Suspirava a mãe. Depois pegava no telemóvel da bebé para atender as chamadas que não paravam de chegar.

Há anos atrás, quando eu comecei a trabalhar, era normal a sala de professores estar cheia de fumo, bem como os cafés e restaurantes. Fumar em lugares públicos era um ato perfeitamente vulgar e socialmente aceite. Até ao dia em que deixou de o ser.

Eu já antevejo o dia em que consultar o telemóvel ou o tablet num lugar público será visto como um gesto de má-educação, de falta de respeito para com o outro que se senta a meu lado, à espera que eu levante os olhos do meu ecrã para interagir comigo.

Até lá, terei de ter paciência para com estas mães, que pressentem que algo não está certo, mas se inibem de tomar a atitude que só a elas cabe tomar: não levar o telemóvel nem o tablet para a praia. Melhor ainda, não oferecer nem um, nem outro a uma criança.

E quanto à nossa relação com Deus? A praia imensa, o céu azul, a água transparente… Imagino o Senhor a dizer: “Criei tudo isto para ti. Por que não levantas os olhos e contemplas a obra das minhas mãos?” Transportar no bolso o acesso instantâneo ao mundo virtual tem um impacto negativo enorme na nossa relação com Deus. Porque a oração contínua, aquela de que fala o Evangelho, acontece precisamente nos “momentos-mortos”, nas pausas entre duas atividades, naqueles cinco minutos de caminhada até à escola ou ao trabalho, naqueles dez minutos de espera na paragem do autocarro. Se eu me habituar a preencher todos esses minutos com o meu telemóvel, que tempo sobra para o Senhor?

Bendito sejas, Senhor, pelo mar, pela praia, pelas maravilhas da Criação, pelos instantes de silêncio e de contemplação gratuita que nos ofereces ao longo de cada dia. E ajuda-nos, Te pedimos, a educar os nossos filhos nesta mesma contemplação… Ámen!

One Comment

  1. Totalmente verdade!! Tenho 25 anos e tenho de me “autopoliciar” constantemente para que eu me sirva do telemóvel, e não o contrário…De manhã, no autocarro,facilmente seria capaz de passar os 30 minutos da viagem de olhos no ecran. Mas simplesmente proibi-me de fazer isso. Gosto de olhar lá para fora, e para as pessoas à minha volta. E a verdade é que quantas vezes, olhando a paisagem lá fora e sol, já surgiu naturalmente a oração ou uma prece, ou até um agradecimento simples pelo dia e pelo sol. Com o ecran….isso nunca aconteceria!!!!

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