Em Caná da Galileia...


As bilhas de barro, as tochas de Gedeão e a atenção ao irmão

Tenho as mais belas recordações de todos os oito partos que vivi. Recordo a angústia inicial, o medo, a dor até ao limite suportável em alguns deles, quase inexistente noutros; recordo como foi difícil puxar nalguns partos, e como foi rápido e fácil noutros, incluindo o do Daniel. Mas recordo, acima de tudo e em todos eles, o momento sagrado e sublime em que o bebé deslizou para fora do meu corpo e me foi colocado junto ao meu coração. De todas as vezes, acolhi este primeiro abraço numa mistura de lágrimas e gargalhadas, enquanto me deliciava com o calor do encontro das nossas duas peles, dos nossos dois corpos, agora ligados de uma maneira nova.

Os dias que se seguem na maternidade são, geralmente, muito difíceis. Ou lutamos para aprender a dar de mamar, ou lutamos para tomar as decisões mais corretas, no contexto familiar que é o nosso, sobre este tema. Às vezes, surgem complicações que atrasam a saída da maternidade e nos deixam esgotadas, como quando é preciso o bebé fazer fototerapia – e no nosso caso, foi preciso com todos os nossos oito filhos – ou quando, bem mais difícil, o bebé sofre de facto de alguma doença e precisa de cuidados especiais.

Chegar a casa também não é fácil. As lágrimas e os risos misturam-se com demasiada rapidez, causando surpresa em quem nos rodeia, o cansaço acumula-se, as noites sem dormir vão somando e esgotando mãe e pai.

Tudo isto faz parte do processo de parto. Pois “parto” está ligado a parir, mas também a partir, bilhas de barro que somos e que, para poderem deixar brilhar a tocha luminosa que escondem – e assim “dar à luz” – precisam de se estilhaçar no chão (lembram-se da história de Gedeão, na Árvore de Jessé?…).

Num destes dias, dei os parabéns a uma mãe de um recém-nascido, que me falou de como o parto foi difícil. “Para a próxima vai ver que já é mais fácil”, assegurei-lhe, para obter como resposta: “Ah, não vai haver próxima vez, que isto custa mesmo muito!”

Abrir-se generosamente à vida que Deus quer fazer passar através de nós exige que nos abramos também generosamente à dor, física e psíquica, e aceitemos a nossa condição de fragilidade, sabendo, como diz S. Paulo:

Quando sou fraco, então é que sou forte. (2Cor 12, 16)

É por isso que o Senhor nos recomenda que estejamos atentos aos nossos irmãos, e lhes prestemos toda a nossa ajuda nestes momentos de fragilidade, para que não desanimem. Porque se, como eu escrevi antes, o parto é um momento de solidão existencial, é também um momento de intensa união de almas.

Durante todo o trabalho de parto tive a meu lado o Niall, assegurando-me a cada minuto de que sim, de que eu era capaz.

Uma hora depois do Daniel nascer, enquanto o Niall ia buscar os nossos filhos a casa, a minha mãe teve a honra de ser a primeira – depois do pai – a abraçar o menino, ali mesmo ao lado da sala de recobro, dada a sua insistência junto das enfermeiras que passavam. É assim mesmo, diziam-me elas, divertidas. Depois, durante os dias difíceis e muito compridos da maternidade, e enquanto o Niall cuidava dos nossos filhos, a minha mãe fazia-me companhia e inventava mil e um mimos novos para me trazer, desde a minha fruta preferida aos melhores pasteis de nata de Aveiro, que foi buscar debaixo de chuva torrencial, aparecendo junto de mim toda molhada. Quando, depois, me foi visitar em casa, mereceu ter o netinho só para si alguns minutos, “roubando-o” ao abraço dos irmãos:

Nas vésperas do dia do parto, antecipando-se a qualquer pedido que eu pudesse fazer, a Carla Mariz ofereceu-se para, no dia D, ir buscar os meninos à escola, fazer-lhes o jantar e cuidar deles até o Niall estar novamente livre. E assim fez. Foi buscar o António e a Sara à escola do primeiro ciclo e ainda os levou a lanchar fora, procurando distraí-los daquilo que parecia uma eternidade sem notícias do pai:

A Lúcia e o David regressaram a casa de bicicleta, como costume, e a Clarinha teve boleia de uma amiga. Quando, ao fim da tarde, o pai apareceu para os vir buscar a todos, a Carla continuou cá em casa a arrumar a cozinha e toda a confusão que deixaram para trás. À noite, ao regressar da maternidade, a minha família regalou-se com uma bela sopa e uma magnífica lasanha, que ela ali fez e deixou.

Ser cristão também passa por aqui. Estaremos atentos? Tantos mimos recebidos envergonham-me, pelas vezes em que me esqueci de mimar os outros. Que o Senhor me perdoe e que me ajude a estar, realmente, atenta, para poder responder sempre positivamente àquela pergunta que atravessa toda a Bíblia:

Onde está o teu irmão? (Gn 4, 9)

Ámen!

 

 

8 Comments

  1. João Miranda Santos

    Abrir-se à vida trás, de facto, muitas dores! Mesmo para quem não se deita na cama da maternidade. Não há dúvida que é uma excelente maneira de conhecermos a nossa grande fraqueza! E também por isso uma grande graça.
    Também a mim me envergonha bastante esta capacidade e perspicácia de quem se faz próximo sem os meus receios de ser exagerado ou intrometido!

  2. Catarina Ramos Tomás

    Os meus partos foram de facto momentos de solidão existencial. Tão longe daquilo que a Teresa descreve, foram experiências únicas de encontro com o sofrimento e com Deus. Acabaram todos com procedimentos cirúrgicos, tão longe da naturalidade que o momento exige. Foi Deus a dizer-me que não controlo tudo! E foram precisas três vezes!

    Precisamos dos outros, dos que estão atentos a nós e é preciso humildade para reconhecermos isso. Porque umas vezes somos o Samaritano e outras o homem que foi brutalmente espancado. Porque até esse precisou de reconhecer a sua situação de fragilidade.

    Parabéns e felicidades para todos!

  3. Tens 8 riquezas…
    Cada um de nós com a sua missão e somos todos chamados de forma diferente. Lá sabe quem nos guia onde nos deve levar.
    Bjs

  4. Estava a ler o teu texto e o comentário da Catarina e a pensar que também eu nunca senti essa alegria de ter o meu bebé nos braços junto a mim depois de nascer… 3 filhos e 3 “partos” terríveis, 3 provas dolorosas cada uma pior do que a última, escolher santificar-me através da família é de facto uma bela e dolorosa missão, vale-nos a fé a esperança e o amor!!!
    E pessoas como tu para nos inspirar!

    • É, de facto, a dor que acompanha a maternidade. Nuns casos, a dor de um parto que acontece de forma não desejada ou não sonhada, a dor de não poder amamentar, a própria dor do parto; noutros casos – e bem mais doloroso, pela minha experiência – a dor de perder um filho… Se eu pudesse escolher, preferiria ter partos por cesariana a ter perdido um filho. Todos temos as nossas dores, ainda bem que diferentes umas das outras, e Deus só nos dá de acordo com a nossa capacidade. Mas que dói, dói! Bj

      • Leitores que ainda não têm filhos, por favor não se assustem!!!
        O dom da maternidade quer biológica quer afectiva dói, mas é um dom maravilhoso que tantas alegrias nos oferece!

  5. Pilar Pereira

    A mãe a quem asseguraste que para a próxima seria mais fácil pode vir a mudar de ideias (se calhar tinha a dor muito presente e não conseguia imaginar-se a passar pelo mesmo), mas nem tu nem ninguém lhe pode garantir que seja mais fácil… A minha comadre que tem doze filhos (catorze contando os dois que perdeu ainda na gravidez), quando no hospital lhe diziam que “já sabia tudo o que ia acontecer”, respondia “Não, eu nunca tive ESTE filho!”… Cada parto é um parto, e ser o segundo (ou o quarto, ou o oitavo) não é garantia que seja mais fácil. Mas isto que estou a escrever, sabes tu melhor do que eu, e sei que o teu comentário era apenas para encorajar aquela mãe traumatizada, naquele momento.

  6. Sandra Lourenço

    Teresa, as tuas palavras são sempre de ânimo para quem lê. Transmites esperança e fé, sem a qual o parto é, de facto, uma experiência aterradora, em muitos casos. passei por 5 gravidezes, como sabes, duas que terminaram de forma triste, sendo as outras três verdadeiros milagres, assim como o são os meus filhos. Nunca desejei cesarianas, mesmo quando não conhecia o que era um trabalho de parto, porque a minha confiança estava no Criador de tudo, mesmo do parto! Sou daquelas pessoas que quase não tem dores, faz dilatação que dá para duas mães…mas tem gravidezes de altíssimo risco, porque o meu corpo quer expulsar os bebés cedo demais. Durante algum tempo vivi entristecida com isso, culpabilizada por circunstâncias que eu mesma não controlo. Até que percebi que devo lembrar-me das palavras do Apóstolo Paulo, quando relatando aquilo que o Senhor lhe disse, em tempos de aflição.” A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza.” Sou grata porque em cada parto senti claramente a presença de Deus a dirigir tudo. Não vou relata-lo aqui, porque nem 10 posts chegariam para tal, mas tendo vivido situações limite, tendo 2 filhos prematuros, um que nasceu com uma restrição de crescimento intrauterino, e olhando para eles hoje, não poso senão afirmar que cada parto, cada filho, é um tremendo milagre! Deixo um apalavra de conforto e esperança a quem possa estar a passar por gravidez de risco e/ou ter tido um bebé prematuro: tudo se compõe, porque Deus faz maravilhas! O Mateus, o meu segundo filho, nasceu às 33 semans e 5 dias. Pesava 2,030Kg e media 43,5 cm. Em junho fará 12 anos. Ninguém diria que nasceu nessas condições! Está perfeitamente desenvolvido fisicamente e, no que respeita a desenvolvimento intelectual, creio estar bem além do que esperava: é um miúdo inteligente, investigador, empreendedor, com avaliações quase sempre na ordem do “Muito Bom”. O quinto bebé, o Marcos, nasceu depois de dois abortos espontâneos. A gravidez foi muito atribulada, com pre-eclâmpsia, o que o fez nascer às 36 semanas e 5 dias, com o peso-pluma de 1,730 kg e pouco mais de 42 cm. Fará em Julho 6 anos. Está ao nível de qualquer menino que tenha nascido de termo e com bom peso. É até gordinho, diria eu! Cognitivamnete é um apressado: aprendeu a ler sozinho, há um ano, quando ainda não tinha completado os 5 anos! Mamãs e papás, tenham fé! Deus está no barco!

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