Em Caná da Galileia...


As tendas e a noite

No Acampamento de Caná, os nossos filhos descobriram que acampar é uma maravilha. Por coincidência – ou, como preferem alguns, por Deusciência – os textos bíblicos propostos ao longo do mês de agosto na Primeira Leitura da missa diária falavam de tendas e acampamentos. É muito bom viver ao ritmo da liturgia, e se acampar é a proposta da liturgia, então vamos a isso 🙂 (Leram o ensinamento mensal de agosto?)

“Podemos voltar a acampar, mãe? Vá lá!” Pediam, dia após dia. Mas as férias este ano foram na Irlanda, para visitar a família, e o pai já não tem mais dias. Além disso, a última semana de agosto trouxe com ela a visita intensamente aguardada dos três primitos que vivem em Barcelona.

“Já sei!” Lembrou-se então o David. “Podemos acampar com os primos no nosso jardim!”

Por que não? E assim se fez. Ao fim da tarde, os meninos montaram três tendas, para abrigar os quatro Power mais novos e os três primos Moreta.

A noite estava serena, o céu coberto de estrelas. No jardim, os grilos cantavam sem cessar e os gatinhos brincavam uns com os outros. Depois da Oração Familiar, os meninos entraram nas tendas: dois rapazes na primeira, outros dois na segunda, e as três meninas na terceira. Espreitámos lá para dentro… Ena, quantos brinquedos! Havia bonecos, peças de lego, cartas de jogar, livros e, claro, muitas lanternas de todos os tamanhos e feitios. “Mas vocês vão dormir ou brincar?” “As duas coisas, mãe, claro!” Pois… Nunca foi tão rápido deitar sete crianças!

O Francisco e a Clarinha estranharam primeiro: “Vou ter o quarto dos rapazes só para mim?” “Vou ter o quarto das meninas só para mim?” “Quer dizer que hoje posso ler na cama?” “E não preciso de levar o computador para a sala, ao serão?” “E podemos falar alto?” “E ter as luzes acesas até tarde?” À surpresa, seguiu-se um alegre “Uau!” E logo os dois se puseram a aproveitar o momento.

O Niall e eu fomos dar um passeio com os cães para desfrutar da brisa da noite. É tão bom passear na nossa rua! Quando regressámos, as conversas nas tendas estavam bem animadas. “Shiu!” Sussurrei no meio do jardim. Mas foi precisa mais meia-hora para as crianças adormecerem, felizes.

Todas, menos uma: um dos meus sobrinhos assustou-se com as sombras gigantes dos gatos na lona das tendas, e talvez por viver em Barcelona e de ter escutado as notícias dos atentados, ficou com medo que homens maus pudessem saltar o muro e entrar no nosso jardim. A meio da noite saiu da tenda, entrou em casa (deixámos a porta aberta) e enfiou-se na cama vazia do David. Como o Niall ainda estava acordado, aconchegou-o com carinho.

Acampar é também aceitar a nossa vulnerabilidade. Dormir numa tenda é ficar mais frágil, sujeito ao cantar dos grilos ou ao ataque das sombras gigantes dos gatos. E esta fragilidade é o que nos torna humanos. Bem dizia o Senhor através do profeta Ezequiel:

Tirarei do vosso peito o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne.” (Ez 11, 19)

O coração de pedra é mais seguro que o de carne, porque não se magoa nem pode ser morto por balas; mas também não pode amar… Quanto medo no nosso mundo de hoje, santo Deus! Tornámo-nos prisioneiros dos nossos pesadelos. Precisamos de ser capazes de derrubar os muros dos nossos castelos para habitar nas lonas macias das nossas tendas. Nem o terrorismo, nem os problemas de vizinhança, nem os perigos da rua ou da escola se vencem senão com um coração de carne, vulnerável, generoso, disponível, aberto. Diz S. João:

O amor expulsa todo o temor. (1Jo 4, 18)

Dentro de casa, protegidos por vidros duplos e duas filadas de tijolos, não se vêem as estrelas nem se ouvem os grilos cantar…

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