Em Caná da Galileia...


Castelos na areia

Share on FacebookTweet about this on TwitterEmail this to someonePrint this page

Quando fiz uma experiência de missão com as Missionárias da Caridade em Lisboa, antes de casar, aprendi um cântico que julgo já ter partilhado. Cantámo-lo na missa do nosso casamento. Gostamos de o cantar em família na Oração Familiar. E eu gosto de meditar nele durante a minha oração pessoal. Um dos versos diz assim:

The dream I have today, my Lord,

is only a shadow of your dreams for me

If I but follow you!

(O sonho que hoje eu tenho, Senhor,

é só uma sombra dos teus sonhos para mim

se eu Te seguir!)

Quando casámos, ficámos a viver num apartamento na cidade, e nessa altura eu disse ao Niall que nunca iria sair da cidade. Ele ficou surpreendido com a minha estreiteza de vistas e discutimos algumas vezes por causa do assunto, até finalmente, num impulso, nos mudarmos para o campo, para uma linda casinha perto do mar. Aí ficámos alguns anos, e eu disse ao Niall que gostava tanto de ali viver, que tencionava morrer ali também. Ele voltou a ficar surpreendido com a obstinação e voltámos a discutir. Até que nos mudámos para a casinha cor-de-rosa onde agora vivemos, em Mogofores. Já não bato o pé, já não afirmo que quero morrer aqui, pois já aprendi a minha lição!

Outro dia, escutava uma simpática jovem dizer que ia passar um semestre no estrangeiro, através do programa Erasmus. Sorri sonhadora, recordando que foi através do Erasmus que o Niall e eu nos conhecemos. Disse-lhe que, quem sabe, iria ficar por lá a viver, ao que ela ripostou com ardor juvenil: “Nunca! De Portugal ninguém me tira!” E eu lembrei-me que, em tempos, também fui assim.

Agora que estou grávida, é frequente entrar em conversas sobre o número de filhos “certo”, ou o número de filhos que cada mulher quer ter. “Eu sempre quis ter um, e tenho um”, dizia-me uma colega. “Eu cá tenho os três que planeei ter”, dizia-me outra. E depois, alguém sempre pergunta: “E tu, é por opção que estás na oitava gravidez?”

Respondo que sim, sorrindo, que não foi falha da pílula porque nem sequer a tomo, que não foi falha dos métodos naturais porque há muito que não sigo nenhum método, aliás, só os segui nos primeiros meses depois de cada parto, para espaçar minimamente os filhos.

Mas apetece-me responder que não, que não é por opção minha, mas de Deus. Porque a vida já me ensinou que “o homem põe, e Deus dispõe”. Pois quantos casais há que sempre sonharam ter uma família numerosa e não conseguem ter sequer um filho? Num destes dias, escutávamos Jesus no Evangelho a perguntar:

Qual de vós, por mais que se preocupe, pode acrescentar um só côvado à duração da sua vida? (Mt 6, 27)

Somos como crianças na praia, construindo castelos de areia que o mar, em dois segundos, derruba…

Mas se eu estiver convencida de que a vontade de Deus é bem mais bela que a minha, e se eu quiser abrir mão dos meus sonhos para realizar os seus, então nunca ficarei desiludida, tenha dez filhos ou não tenha nenhum, sendo que nenhuma destas escolhas é “opcional”.

No planeamento familiar, como em tudo o resto na nossa vida, Deus pede-nos que vamos dando um passo de cada vez, evitando as palavras “nunca” e “sempre”, porque a vontade de Deus se descobre dia a dia em diálogo constante de oração. Assim, a resposta mais acertada sobre o número de filhos que se quer ter é simplesmente: “Não sei!”

No planeamento familiar, como em tudo o resto na nossa vida, Deus pede-nos bom senso e generosidade.

Bom senso, porque diz a doutrina católica que podem existir razões graves para um casal decidir não ter mais filhos, razões que não são explicitadas, nem podem ser, pois se nuns casos são razões de saúde, partos perigosos, cesarianas, doenças mentais ou outras da mãe, noutros casos podem ser problemas conjugais sérios. Deus não nos pede nunca algo contrário à nossa saúde ou à saúde mental da nossa família! É preciso pormo-nos à escuta da vontade de Deus, como em todas as áreas da vida, para discernir cuidadosamente o que nos é pedido, e depois agir em conformidade, embora sempre com a abertura básica à vida que os métodos naturais permitem, de acordo com a moral católica.

Generosidade, porque Deus é generoso e nos dá sempre mais do que merecemos ou pedimos. Como não havemos de nos abrir à possibilidade de mais filhos (desde que sem perigo) do que nos pareceria sensato? Conhecendo a generosidade do Senhor, pessoalmente prefiro, na escuta da sua vontade, enganar-me “por excesso” do que “por defeito”. Detestaria chegar ao céu e Deus dizer-me: “Que pena! Tinha um santo pensado para ti – ou tinha uma criança com deficiência sonhada para te fazer a ti santa – e tu, praticando a contraceção, não o quiseste aceitar!”

Sempre mais belos que os nossos, os sonhos de Deus têm contudo o condão de perturbar o desenrolar sensato da nossa vida, incomodando-nos. Assim nos diz toda a revelação bíblica, desde o chamamento do velho Abraão à anunciação à Virgem Maria, dos pesadelos de S. José à cegueira de Paulo, passando pela monotonia da vida dos pescadores da Galileia até ao momento inesperado em que Jesus por ali passou. Se nos fechamos por completo à vida, através da contraceção, estamos seguros que Deus não nos apanhará de surpresa nem nos trocará as voltas, o que é uma pena. Mas se nos abrirmos um bocadinho, ainda que cuidadosamente, Ele poderá dar-nos o que não ousamos pedir…

E se a nossa vida, em qualquer área, da fertilidade ao emprego, do lugar onde vivemos à saúde, se desenrolar de forma totalmente diferente da que planeámos, como um castelo na areia derrubado pelas ondas do mar, aproveitemos para mergulhar de vez na vontade de Deus e descobrir, então sim, a verdadeira felicidade.

Ámen!

4 Comments

  1. Catarina Silva

    Lindo!
    Comovem-me tanto estes textos da Teresa. É tão verdade este plano de Deus para nós, é tão preciso aceitar e confiar nele para crescer, para ser feliz. Tenho tanto medo de um dia Deus me dizer que tem pena de não se terem cumprido os planos que Ele tinha para mim, por causa da minha falta de confiança… Da minha falta de fé! E ainda tenho mais medo que o Senhor um dia me diga que não fui uma mãe capaz de transmitir essa confiança e essa fé aos meus filhos e àqueles que fazem parte da minha vida…

    • Catarina, perfeitos nunca seremos. Deus não olha ao resultado, esteja descansada! Ele olha ao nosso esforço, à nossa generosidade. Só isso. Se de facto dermos o nosso melhor – mesmo na capacidade de ter fé e confiar – e se formos realmente generosos, não precisamos de mais nada! Um grande beijinho!

  2. Catarina Silva

    Querida Teresa,
    Um grande beijinho. Sempre a tentar confortar todos! Muito obrigado!

  3. Sempre que leio os seus textos fico mais conforta. Há sempre uma frase que me toca ou que me faz refletir: “Mas se eu estiver convencida de que a vontade de Deus é bem mais bela que a minha, e se eu quiser abrir mão dos meus sonhos para realizar os seus, então nunca ficarei desiludida”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *