Em Caná da Galileia...


Coisas novas e coisas velhas

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Feliz solenidade de todos os Santos! Aleluia! Aleluia!

Hoje, nesta grande festa, permitam-me uma pequena reflexão sobre isto do Halloween e do Holywins, do Pão por Deus e da tradição.

Há dias, vi partilhada nas redes sociais, com origem numa paróquia, uma comparação entre o Halloween e a Festa de Todos os Santos, em que se contrastava tudo: o facto de o primeiro ser celebrado à noite e o segundo, de manhã; de as crianças, num, ameaçarem com “trick or treat”, e no outro pedirem humildemente o Pão por Deus; e finalmente, de as crianças, no primeiro, se disfarçarem do que não são, mantendo, no segundo, a sua própria identidade.

Acontece que as coisas não são bem assim. Por exemplo, a diferença entre a festa à noite ou a festa pela manhã não é relevante, pois nós, cristãos, temos a noite em grande apreço, e quer o Natal, quer a Páscoa, se celebram de noite. Porque não cristianizar esta grande noite de véspera de todos os santos, expurgando-a de tudo o que nela há de negativo e enchendo-a de luz?

Outra diferença pouco significativa é entre as cantilenas anglo-saxónicas e as portuguesas. Se repararmos bem na letra, o Pão por Deus também tem o seu quê de vingativo, pois quando alguém não abre a porta, a letra tradicional da cantilena diz assim: “Esta casa cheira a alho / Aqui mora um espantalho. / Esta casa cheira a unto / Aqui mora algum defunto.”

Os disfarces tradicionais do Halloween – e que o Niall recorda da sua infância irlandesa – não têm nada de ofensivo. Hoje, pelo contrário, estão claramente associados ao satanismo e ao ocultismo, o que torna impeditivo, para um católico, associar-se a esta festividade. O problema, portanto, reside no tipo de disfarce utilizado, e não no facto de as crianças se disfarçarem do que não são. Recordemos procissões como o Corpo de Deus, em que as crianças se vestem de anjos; ou a procissão da Rainha Santa Isabel e da Princesa Santa Joana, em que as meninas se vestem respetivamente de rainhas e princesas. Opor, portanto, o uso de um disfarce ao uso das roupas normais não faz sentido.

Por fim, teremos de ser sinceros e concluir que a grande maioria dos católicos se dedica, nestes dias, ao “culto dos cemitérios” com muito paganismo e pouco cristianismo. Aliás, as tradições relacionadas com estes dias não são propriamente alegres, como convém a quem celebra a multidão dos Bem-aventurados. No dia de Todos os Santos, as igrejas estão vazias e as missas, consequentemente, têm pouca alegria. Em compensação, os cemitérios estão cheios de pessoas que, colocando flores nas campas dos seus familiares, nem sempre manifestam a sua fé na ressurreição, antes cultivam um semblante de luto e desespero. Há que rezar pelas almas do Purgatório, com insistência e todos os dias – não apenas uma vez por ano. Mas também há que celebrar a santidade dos que já estão no Céu e contemplam o Senhor face a face. Há que distinguir entre o dia 1 e o dia 2, entre a celebração da santidade e a súplica pelos fiéis defuntos. E isso, muito poucos o fazem.

Assim, quando falamos do resgate da solenidade de Todos os Santos, não estamos a falar de um regresso a um passado que provavelmente nunca existiu. Estamos antes a apontar para o futuro, para uma purificação e um aprofundamento da nossa identidade cristã e do sentido desta festividade. Como cristãos, já devíamos estar acostumados a este tipo de resgate, não é mesmo? Pois ele acontece em relação a outras grandes festas, do Natal à Páscoa. Diz Jesus:

Todo o escriba instruído acerta do Reino do Céu é semelhante a um pai de família, que tira coisas novas e velhas do seu tesouro. (Mt 13, 52)

Deixem-me ainda citar o Papa Francisco:

A pastoral em chave missionária exige o abandono deste cómodo critério pastoral: «fez-se sempre assim». Convido todos a serem ousados e criativos nesta tarefa de repensar os objetivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores das respetivas comunidades. (EG nº 33)

Que coisas velhas podemos nós tirar do tesouro da tradição?

Podemos, por exemplo, manter o costume de pedir o Pão por Deus na manhã do dia 1.

Podemos manter os belos costumes anglo-saxónicos de acender fogueiras e de brincar a jogos divertidos em família, na Véspera de Todos os Santos (encontram alguns em Recursos, aqui no site).

E que coisas novas podemos nós tirar do tesouro da Ousadia e da Criatividade?

Podemos, por exemplo, modificar a cantilena tradicional do Pão por Deus, para não ter nenhum tom vingativo, e inventar novos refrães. Os nossos filhos gostam de cantarolar, enquanto pedem: “Bolinhos para os santinhos!”

Podemos festejar, não só de manhã, mas também na véspera à noite, para que esta grande noite não seja apenas habitada por bruxos e fantasmas, mas tenha a beleza da santidade.

Podemos inventar novos jogos. Já conhecem o “De cor(da) e salteado”, que nós inventámos e divulgámos aqui no site, em Recursos?

Podemos caracterizar as crianças de santos variados, fazendo previamente com elas o trabalho de descobrir quem foram esses santos.

Podemos organizar vigílias de oração na véspera, ensinamentos sobre santidade, bailes de “santos trajados”, festas de rua, festas de paróquia, cortejos e procissões em que desfilem os vários “santos”.

Podemos imprimir pagelas e pequenos cartões com curtas biografias dos santos ou as suas frases inspiradoras, para as crianças distribuírem durante o seu passeio de “Pão por Deus”.

Ena, tanto que podemos fazer, se ousarmos inovar a tradição! É por isso que nós somos totalmente a favor do Holywins ou Festa da Santidade, esta mistura do “tesouro de coisas novas e velhas”, e não apenas a favor de um regresso ao passado, porque “sempre se fez assim”. E se o Halloween chegou a Portugal através das aulas de línguas nas escolas, o Holywins bem pode chegar através da catequese, das escolas católicas e dos Movimentos.

Venham daí essas fotos e esses desafios!

One Comment

  1. Pilar Pereira

    Este ano partilhei a ideia do Hollywins (deixando o link para o post daqui que falava sobre os preparativos) com o meu pároco. Ele disse que apoiaria a iniciativa, se alguém a organizasse. E eu encolhi-me e não fiz mais nada… Achei que não tinha envergadura para liderar tal iniciativa aqui na paróquia, em pouco tempo. Mas fiquei a pensar em divulgar a ideia com algumas catequistas, já, para o ano que vem. Vamos ver se assim acontecerá…

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