Em Caná da Galileia...


Creio na vida eterna?

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Grupo de crismandos. Sentados em círculo, conversam com o Niall sobre o tema de Os Mistérios da Fé proposto para a sessão de catequese. No meio da conversa, um comentário de um jovem faz o Niall hesitar, e acabar por perguntar: “Não acreditas na vida eterna?” Silêncio. O Niall pergunta de novo, desta vez de forma geral: “Há aqui alguém que não acredite na vida eterna? Se houver, por favor levante o braço.” Com duas ou três exceções, todos os braços se levantam.

O Niall fica sem saber o que fazer ou dizer a partir deste ponto. Ele está a preparar para o crisma jovens que frequentam a catequese desde os seis anos. Está, naturalmente, a contar com alguma resistência em certos pontos da vivência católica, os “temas quentes” que povoam a cabeça dos jovens. Mas não está a contar com isto… Dúvidas de fé que atingem a própria essência do que é ser cristão? Mas a que propósito querem estes jovens receber o sacramento do Crisma? Para não ofender as famílias? Para serem padrinhos? Porque se acomodaram – pobre juventude! – ao que a sociedade deles espera, e esqueceram o seu radical inconformismo de jovens, a honestidade intelectual que deveria levá-los a afirmar em casa: “Não vou receber este sacramento porque não tenho fé”? Como agir a partir de agora?

Em casa, debatemos o tema. Eu não fico surpreendida. De norte a sul do país, nos nossos testemunhos, não me tenho cansado de insistir num ponto absolutamente fundamental da educação cristã: pai e mãe cristãos que não expõem diariamente os seus filhos à Palavra de Deus e à doutrina da Igreja não estão a educar filhos cristãos.

Muitos pais cristãos que conheço educam os filhos para serem boas pessoas, para serem os melhores alunos possíveis, desenvolverem os seus talentos, conseguirem tirar um bom curso com boas saídas profissionais e, desta forma, perpetuar o nível social, moral e ético da família. É, naturalmente, de louvar uma educação assim.

Mas não lhe chamemos uma educação cristã. O Papa Francisco tem passado o tempo a lembrar-nos que a religião cristã não é um conjunto de normas morais ou éticas, mas uma fé. Educar uma criança na fé cristã é educar, não para que seja feliz e boa pessoa durante oitenta, noventa anos, mas para que seja – isso mesmo – santa, por toda a eternidade. Educar uma criança na fé cristã é ensinar-lhe, desde muito pequenina, a trabalhar na sua santificação, a agradar a Jesus, a praticar as virtudes, para um dia chegar ao Céu. Pais cristãos, como diziam os santos Martin, querem povoar o Céu de santos.

Falamos do Céu às nossas crianças? Enquanto pesquisava a vida de Santa Maria Goretti, para a contar à Lúcia, que se queria vestir desta criança santa no Holywins, descobri que a mãe, analfabeta, a educou a partir de duas frases básicas: “Isto não se faz, porque é pecado e desagrada a Jesus”, e “faz assim, para agradares a Jesus e alcançares o Céu.” Que razões oferecemos aos nossos filhos para fazerem ou deixarem de fazer determinada ação? Serão motivações terrenas, por muito que tenham de honestidade e ética? Ou serão motivações celestes, como  o temor de Deus e o desejo de alcançar o Céu?

Na nossa casa, fala-se do Céu com a maior das naturalidades. Aliás, eu não saberia educar de outra forma. Creio que não há dia nenhum em que não se fale do Céu, de agradar a Jesus, e não O magoar. Fala-se do Céu quando se fala no esforço enorme de alguns filhos para aprender Matemática, fala-se do Céu quando se procuram remediar as faltas de material da Lúcia ou contornar as respostas tortas do António, fala-se do Céu quando se ajudam a controlar birras e discussões violentas entre irmãos, fala-se do Céu quando se incentivam os meninos a sentar de costas direitas durante a oração familiar, fala-se do Céu como consolo diante de uma desilusão de qualquer tipo (“Deixa lá, o importante é chegar ao Céu”). Para que uma criança assim educada deixasse de acreditar na vida eterna, seria preciso que alguém lhe fizesse uma autêntica “lavagem cerebral”, de tal forma a noção de eternidade está intrincada na sua personalidade.

Quantas vezes terão os pais falado do Céu aos jovens que, na nossa paróquia, se preparam para o crisma? Não basta que o pai e a mãe sejam crentes, participem semanalmente na Eucaristia, exerçam algum ministério na Igreja; é preciso que eduquem diariamente os seus filhos para que também acreditem.

Estamos no mês dos santos (já leram o Ensinamento Mensal?), das almas do Purgatório, das leituras do missal que, todos os dias, nos pedem para estarmos vigilantes, não vá a morte encontrar-nos desprevenidos. Que tal aproveitar a deixa e perguntar lá em casa aos filhos: Acreditas na vida eterna? …

 

9 Comments

  1. Boa noite Teresa,
    boa noite a todos os que nos lêem!
    Um beijinho a todos com quem já falei pessoalmente,

    a Fé é Dom gratuito de Deus. Talvez o maior!
    Desde que soube que teria filhos que peço ao Senhor que eles nunca percam a Fé, que jamais duvidem. Mas educar cristãmente é também acolher a dúvida, para construir e consolidar a Fé.
    Eu vivo essencialmente por Amor, ainda que tropece muito mais do que o avisado… o Céu poderá ou não ser para mim. Não sei se alguma vez poderei ser digna de estar na presença de Deus, Nosso Senhor e Nosso Pai, e se calhar por isso, em casa, não falo tanto assim no Céu.
    Mas lembro diariamente o Mandamento do Amor… a Deus e ao próximo como a si mesmo… E em tudo procuro o sentido de Cristo e digo-o… não podemos educar sem convicção.
    E a convicção estrutura o comportamento, o nosso e o deles!

    • O Céu poderá não ser para si, Rita?! Ainda agora, no Evangelho diário, li cá em casa como o Senhor enviou os seus servos a chamar coxos e cegos, ricos e pobres, para encher a sala do Banquete! Nunca seremos dignos da presença de Deus, porque ela é, realmente, dom gratuito. Sim, o Céu é para nós! Para nele entrarmos, Jesus morreu na Cruz! Nâo duvidemos de que o Céu é para nós. Eu estou desejosa de lá chegar 🙂 Mas tem razão: não é preciso acreditar no Céu para se viver o mandamento do Amor, e isso é, de facto, a única coisa que importa. Mas é tão bom desejar o Céu e lutar por ele!

  2. Bons ensinamentos que agradeço. Quero entretanto referir a propósito que não é mal ter dúvidas de fé. Os santos tiveram dúvidas de fé que por vezes se prolongavam por muito tempo. Claro que vivemos da fé em Deus, em Jesus que nos ajuda a ultrapassar os os problemas de cada dia. Toda a gente tem fé, pelo menos a fé natural. Esta fé precisa de ser batizada para ser cristã, isto é aceitar Jesus como padrão de vida.

    • Sim, os santos tiveram terríveis tentações contra a fé. É a chamada “noite escura da alma.” Penso que todos temos, provavelmente não tão fortemente. Eu tenho muitas vezes: “E se estiver aqui a perder o meu tempo espalhando as Famílias de Caná, e afinal não houver Céu nem Deus?” Mas os santos estavam conscientes de que se tratava de uma terrível tentação, que os fazia rezar a dobrar, repetir atos de fé atrás de atos de fé. Santa Teresinha escreve apenas sobre o Céu – a História de uma Alma fala do Céu a cada duas linhas – no entanto, viveu anos de tentações contra a fé, tão terríveis que não ousava falar nelas… Outra coisa, diferente, é a falta de fé, instalada, sem sequer se tratar de uma tentação. De facto, só pode ser tentado contra a fé quem tem fé… E é desta falta de fé que tratamos aqui e que teremos de trabalhar nas nossas catequeses juvenis…

  3. Teresa, tenho muitas dúvidas quanto ao comentário que escrevo, quer por sentir que me exponho mais do que o que gostaria, quer por não ter a certeza de que o achará relevante.
    Não fui educada de forma cristã, nem o poderia ser, já que os meus pais não são cristãos. Cheguei à Igreja já adulta e, claro está, houve muita dúvida, confusão e falta de fé pelo caminho. Continuo a debater-me até com os pilares mais básicos da nossa fé. No entanto acabei por me aperceber de uma coisa, o meu eu com Jesus, de Jesus, aquele que faz parte do corpo de Cristo consegue acreditar em coisas que o meu sozinho, entregue a si próprio, acha não só inacreditáveis como também risíveis. Felizmente, o Senhor dá-nos está estranha graça de acreditar no que não acreditamos.
    Não sei se me soube explicar convenientemente, mas talvez sirva de alguma ajuda para abordar o assunto com os adolescentes que dizem não acreditar no Céu.

    • E precisamente essa a diferença entre a falta de fé e as tentações contra a fé, querida leitora! Na falta de fé, estagnamos e resignamo-nos. Nas tentações contra a fé, somos atingidos pela graça de Deus, que nos faz crer contra toda a esperança e ir em frente. Quando estamos neste patamar, podemos trabalhar! Não há ninguém que não seja tentado contra a sua fé, mas Deus oferece sempre a graça. Agora quando se encolhem os ombros… É desta atitude que falamos. E claro, precisa de ser trabalhada! Ninguém está a pensar em desistir destes jovens! Bem haja pelo comentário, tão claro e tão elucidativo. Bj

  4. Este é um tema realmente pertinente, na missa um destes domingos o nosso pároco perguntava exatamente o mesmo, querendo com isso “abanar” algumas estruturas, pois ele tem consciência que nas paróquias muitas pessoas ainda vão à missa ao domingo como quem vai a um evento social, muitas pessoas vão para assegurar um lugar no céu, outras vão porque se sentem sós… eu fui educada a ir à missa, estar com Jesus, levada pela minha mãe, era assim e pronto, a minha irmã foi educada na mesma fé. Durante a adolescência ela revoltou-se. Deixou de ir à missa (dando esse grande desgosto à minha mãe), nós sempre respeitámos as suas dúvidas e por mais que tentássemos nunca a conseguimos “trazer” de volta… então neste momento a nossa única alternativa é voltarmo-nos para Deus e pedir-lhe que a ilumine, que a faça regressar… não podemos desistir dos nossos jovens, porque a Deus nada é impossível!

  5. Catarina Ramos Tomás

    Sou catequistas e não acompanho o grupo do Crisma, mas caminho com o grupo que receberá a Eucaristia pela primeira vez.

    E por vezes dou por mim a pensar a longo prazo.

    Parece-me que esta pergunta tão elementar e estruturante deveria ser colocada aos pais desse e de todos os grupos de catequese.

    Quero acreditar que o Espírito Santo toca cada uma destas crianças e adolescentes, mas não chega.
    Na última reunião de pais uma mãe angustiada dizia que a missa é só senta, levanta, senta, levanta e que demora muito tempo…

    Parece anedota, mas estamos a este nível!
    Não imagino os filhos desta família a chegar ao Crisma. Mas os que chegam?

    Não vamos desistir, diz a Teresa, eu também não quero desistir, mas como chegar a estes pais?

    • Catequese de pais, cada vez mais, cada vez com maior profundidade, e não apenas como dicas para os pais catequisarem os filhos… Catequese dos pais, doutrinária, litúrgica, prática, completa, a partir do Catecismo da Igreja Católica. Em conversa com um sacerdote há uns dias, soube que a necessidade de se começar pelos pais – ao contrário do que é prática corrente entre nós – já tinha sido discutida nas cúpulas da Igreja em Portugal nos anos setenta do século passado 🙂 Quanto mais tempo iremos esperar?

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