Em Caná da Galileia...


Crescer sem telemóvel?

“Continua a fazer-me imensa confusão estar na cantina da universidade, a comer com os amigos, e a ser o único que não está simultaneamente a teclar no telemóvel”, confessa o Francisco, o nosso estudante de Engenharia Mecânica, quando nos sentamos para jantar. “Não consigo entender que se possa estar a conversar com amigos com os olhos fitos no telemóvel. É, no mínimo, uma enorme falta de educação!”

O Francisco recebeu o seu primeiro telemóvel nos últimos dias de aulas do 12º ano. No dia em que o levou para a escola pela primeira vez, os amigos fizeram-lhe uma alegre festa, que incluiu reportagem fotográfica do ato em que o Francisco inseria o seu primeiro cartão no telemóvel e registava os números dos amigos.

Hoje, um ano depois, o Francisco avalia a nossa decisão de adiar a oferta de um telemóvel  como excelente. O mesmo em relação ao Facebook, que também surgiu na vida do Francisco na mesma altura. E nós não só não nos arrependemos da nossa falta de pressa, como a vamos repetir com todos os nossos filhos. Aliás, vamos ser ainda mais radicais e atrasar também a oferta do computador, que no caso do Francisco foi muito precoce dada a política dos “Magalhães”, como se devem lembrar. Até chegarem ao ensino secundário, os nossos filhos mais novos irão servir-se de um dos vários computadores da casa – incluindo este em que escrevo – para os poucos trabalhos que tiverem de fazer ou para o acesso, com as devidas regras, ao Youtube.

Consolas, playstations, videojogos? Também não, obrigado. Brincar é lá fora, subindo às árvores e saltando à corda, ou quando faz frio, no chão da sala com os carrinhos e os legos, ou ainda à volta da mesa com cartas e plasticina. Também usamos a Internet, é verdade, mas da forma que nos parece importante ser usada com crianças e adolescentes: como manancial de tutoriais sobre as mais diversas artes, desde a forma de lançar um boomerang, à criação de origamis, a passos de ginástica, a truques de ilusionismo, à aprendizagem de um instrumento musical. A partir dos doze, treze anos, os tutoriais do Youtube são muito cobiçados cá em casa!

Com mais ou menos radicalismos, é importante refletir aqui sobre o tipo de crianças que estamos a educar, numa altura em que o virtual ganha pontos ao contacto real entre as pessoas. Isto porque tenho muitos, muitos alunos que me dizem, num exagero tipicamente adolescente, mas que deve ser tido em conta: “Professora, preferia morrer a ficar sem o telemóvel!”

Um destes dias, chegou-me às mãos um artigo interessantíssimo sobre os “gurus” das tecnologias. Sabiam que os altos executivos da Google, Apple, Yahoo, etc têm os seus filhos em escolas – por sinal, bastante caras – onde não existe um único computador? Onde se aprende com giz e quadro de lousa? Onde os instrumentos de trabalho são lápis nº 2, agulhas de tricotar e, ocasionalmente, lama e areia? Sabiam que Bill Gates, o fundador da Microsoft, nunca permitiu que se utilizasse o telemóvel durante as refeições familiares, e que os seus três filhos só tiveram telemóvel aos catorze anos? E que na casa de Steve Jobs, como diz este artigo, o uso de tecnologia era muito limitado? Que razões terão os criadores das altas tecnologias para impedir o seu uso excessivo nos seus próprios lares? Que perdas afetivas, sociais, morais, terão eles colecionado ao longo da sua carreira, e que não querem ver repetidas nos filhos? Não precisamos de pensar muito para chegarmos a algumas conclusões.

As férias estão aí. As longas horas do verão vão chegar, e as crianças vão dizer-nos: “Não tenho nada para fazer!” É tentador ligar-lhes a televisão ou deixá-las horas sem fim ao telemóvel ou ao computador, sem qualquer objetivo, num vazio ausente de sentido. As alternativas, claro, dão trabalho. Mas valem bem a pena!

Sabemos que nem sempre é fácil a negociação educativa com um adolescente, e só quem passa por ela pode avaliar. No outro dia, aqui em casa, tive uma conversa muito boa com uma mãe de Família de Caná. Dizia-me ela: “A minha filha, aos doze anos, pediu-me autorização para criar uma página de Facebook, por influência das amigas. Mas quando eu fui ver a página e o tipo de contactos que ela ali tinha, não gostei. Conversei com ela e expliquei-lhe: Filha, errei ao deixar-te criar a página. Desculpa. Vamos apagá-la, e quando cresceres um bocadinho, voltas a criá-la, sim?” Voltar atrás nas decisões que tomamos e retirar ao filho – sem ser por castigo – o telemóvel, a página do Facebook ou o acesso a qualquer outra rede social, não é um drama nem o fim do mundo. E é muito mais fácil do que pensamos. É que há uma idade para tudo na vida, e nós andamos muito distraídos quando permitimos aos doze anos comportamentos, reais ou virtuais, que exigem maturidade de dezoito.

Noutra ocasião, uma outra mãe dizia-me muito acertadamente: “O meu filho, com doze anos, tem telemóvel e vê televisão com frequência. Mas ele sabe bem que há uma regra básica lá em casa: quando alguém fala com ele, ele deve imediatamente levantar os olhos do ecrã e fixá-los no seu interlocutor. É uma questão de educação, mas sobretudo de respeito pelo ser humano diante de si, seja ele a mãe, o professor, o empregado no restaurante, o irmão. Se não proceder assim, sabe que a televisão é imediatamente desligada, ou o telemóvel retirado.” Esta mãe cumpre o que diz. Não fica ali eternamente a ralhar: “Desliga o telemóvel!”, sem qualquer consequência, como vejo acontecer tantas vezes. Isto sim, é educar.

Tenho de parar aqui este artigo. É que a Lúcia chegou agora junto de mim, muito contente, para me mostrar o seu novo telemóvel. Parece de muito boa qualidade e tem imensas funções. Até tem uma capinha de plástico para não se estragar! E como é de última geração, é fino como um pedaço de papel… Pedi licença à Lúcia para a fotografar com o seu criativo “telemóvel”. Ora vejam:

Que as férias nos lancem a todos ao encontro – real – uns dos outros, dos nossos filhos, dos nossos amigos, dos nossos pais, do nosso cônjuge, da vida inteira!

4 Comments

  1. Teresa,
    Como sempre subscrevo tudo o que disse!:)
    A minha questão/pedido de ajuda, é que e falo no meu caso, se eles não tiverem telemóvel, ou playstation, são banidos no grupo de amizade na escola pois aqui não temos como deixá-los ir brincar para a rua, claro que brincam em casa.Mas como fazer nesta situação?Obrigada. Um grande abraço.Marta

    • Marta, obrigada pelo comentário, que certamente está no pensamento de muitos leitores! Para ser sincera, nós nunca nos deparámos com nenhum tipo de rejeição por parte dos colegas de qualquer um dos nossos filhos. Mesmo quando, nos recreios, os amigos falam de programas de televisão que eles não conhecem, nunca os nossos filhos se sentiram excluídos, ridicularizados ou marginalizados de alguma forma. Como professora, muito habituada a lidar com adolescentes e jovens, creio que os problemas de rejeição se prendem muito mais a aspetos da personalidade da criança (não necessariamente negativos, atenção), sugestivos de alguma fragilidade social. Há crianças que facilmente são alvo de troça, e muitas vezes nem nós percebemos bem porquê… Assim, não associe a falta de tecnologias a marginalização! Bj

  2. jorge pires ferreira

    Concordo com o artigo e cá em casa seguimos “políticas” parecidas, só há uma televisão, há dois computadores partilhados pelos cinco, não há telemóveis nas mãos das crianças. Acontece que as influências dos amigos são muitas, pelo que o meu filho de sete anos – quase oito – quer muitos os aparelhos, mas sabe que não os terá nos próximos anos. E não é drama nenhum. Por isso, já fez um tablet e um computador, com torre, teclado, ecrã e rato, tudo em madeira (pediu a ajuda do pai para alguns cortes). Há dias, com uma caixa de cartão e mais madeira, fez uma televisão com box. Como a televisão não era de ecrã plano e mais parecia um microondas, julgo que foi a primeira televisão microondas do mundo.

    • Obrigada pelo comentário! É fantástico ver a criatividade de que eles são capazes, quando lhes damos tempo, liberdade, e “aborrecimento” suficiente para se lembrarem de a desenvolver!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *