Em Caná da Galileia...


Cristãos perseguidos e a obrigação de ir à missa aos domingos

Share on FacebookTweet about this on TwitterEmail this to someonePrint this page

Hora de jantar. Hora das Bodas para as Famílias de Caná, que à imitação de Jesus, gostam de aproveitar as refeições para partilhar a vida e o alimento espiritual. Sentados à volta da mesa, conversamos sobre a escola, os amigos, o dia. Lembro-me então de ir buscar o jornal diocesano, acabado de chegar, para partilhar uma leitura.

“Ouçam isto”, digo, enquanto abro o Correio do Vouga. “Lembram-se outro dia, na missa, de ouvir dizer que nos dias de hoje há mais mártires cristãos que nos primeiros séculos de cristianismo? Vou ler-vos um pequeno exemplo desta verdade, um entre muitos. Todas as semanas vêm exemplos deste relatados aqui no jornal. Escutem:”

Pelo menos dezassete pessoas foram assassinadas a tiro quando regressavam da Missa em Omoku, no estado de Rivers, no sul da Nigéria, no Dia Mundial da Paz. Homens armados dispararam sobre um grupo de fiéis, a cerca de noventa quilómetros da capital.

“Morrer ao sair da missa? Isso deve ser terrível!”

“Mas no mesmo instante estão no céu. Não deve ser assim tão mau!” Explica o Niall, que suspira com frequência com ânsias de céu.

“O martírio é a forma mais rápida de chegar ao céu, não é, mãe?” Pergunta a Clarinha.

“Mas não é a mais agradável”, conclui o David. “Eu prefiro demorar mais a chegar e não morrer assim à porta da igreja.”

“Diz a verdade, mãe: se vivesses na Nigéria arriscavas ir à missa?” A Lúcia quer saber. É a Clarinha quem responde:

“Lúcia, faltar à missa ao domingo é pecado grave. Muito grave! Claro que íamos à missa mesmo vivendo na Nigéria.”

“Mas se é pecado grave, por que é que tantas pessoas faltam à missa? Coitadas, se calhar não sabem que é pecado! Os meus colegas de catequese faltam quase sempre.”

“E os meus também. Outros chegam atrasados. É pecado chegar atrasado à missa?”

“Sim, é. É pecado não participar na missa completa. Quando alguém chega à missa, por exemplo, na altura do Evangelho ou depois, o que deve fazer é voltar a sair e ir a outra missa mais tarde. Se, claro, ainda tiver outra. Se não tiver, não deve comungar sem antes se confessar.”

“Achas que toda a gente sabe isso? Porque se soubessem, talvez não faltassem.”

“Acho que muitos não sabem. Mas diante de Deus, têm poucas desculpas a dar pela sua ignorância! Não vivemos propriamente numa era sem acesso à informação, e desde que se publicou o Catecismo da Igreja Católica, não nos podemos queixar.”

De facto, o Catecismo da Igreja Católica diz expressamente:

2180 – O mandamento da Igreja determina e especifica a lei do Senhor: “Nos domingos e nos outros dias de festa de preceito aos fiéis têm a obrigação de participar da missa”. “Satisfaz o preceito de participar da missa quem assiste à missa celebrada segundo o rito católico no próprio dia de festa ou à tarde do dia anterior”.

2181 – A eucaristia do domingo fundamenta e sanciona toda a prática cristã. Por isso os fiéis são obrigados a participar da Eucaristia nos dias de preceito, a não ser por motivos muito sérios (por exemplo, uma doença, cuidado com bebés) ou dispensados pelo próprio pastor. Aqueles que deliberadamente faltam a esta obrigação cometem pecado grave.

O nosso jantar prossegue com tranquilidade. Mas a história do martírio daqueles dezassete cristãos continua a fazer-nos pensar.

“Nós aqui com todas as facilidades, com todos os confortos, com missas a toda a hora…”

“Ninguém nos mata a tiro se formos à missa, e mesmo assim, os cristãos ocidentais faltam à missa ou atrasam-se com tanta facilidade!”

Ir à missa é um privilégio, um dom, uma chuva de graças. Ir à missa é experimentar o céu sobre a terra, é participar, aqui e agora, na vida divina que Jesus nos ofereceu na Cruz. Faltar à missa por descuido ou desinteresse é recusar esta oferta que Deus nos faz. E recusando-a, pecamos contra o primeiro mandamento, que nos manda amar a Deus sobre todas as coisas.

Acólitos Power com o seu querido pároco

Não fica estranho falar em obrigação quando estamos perante um dom assim? Pensemos na maternidade: ser mãe é um dom, uma bênção, uma chuva de graças, um privilégio imenso que nos é concedido. Mas… e se uma mãe se recusar a escutar o seu instinto mais profundo e só quiser alimentar o seu bebé quando lhe apetecer, ou quando não houver nada mais interessante para fazer? Será preciso dizer a uma mãe que ela é “obrigada” a alimentar o seu filho e a dar-lhe amor? É triste chegarmos ao ponto de ter de o fazer, mas não hesitaremos se for preciso. Assim com a “obrigação” de ir à missa e de chegar a horas, que devia fazer parte do nosso “instinto” de batizados.

Que o exemplo dos mártires deste século, deste mês, deste dia, nos faça de uma vez por todas decidir pelo Senhor nas madrugadas de domingo! Ámen.

10 Comments

  1. Sem comentários! Mas ainda é cedo. Esperava cem comentários. Este é o mais importante post de todos, na minha opinião. E se eu me esqueci de ir a Missa? Ou se me sinto mal? Ou se estou em viagem? Vale a missa de segunda-feira?

    • Queridíssimo marido, muito já nós conversámos sobre isto em casa, não é verdade? Não, não vale a missa de segunda-feira. A missa de domingo é a missa de domingo, e nada a pode substituir. O domingo, relembremos, começa no pôr do sol de sábado, à boa maneira judaica, e por isso, a missa de sábado à tarde é já missa de domingo, no intuito de facilitar o cumprimento do preceito, não no intuito de deixar de viver a grandiosidade do domingo. Claro que ir à missa segunda-feira por se ter faltado ao domingo é um ato de amor muito bonito, mas não vamos para substituir nada, e não podemos comungar se antes não confessarmos a falha do domingo.
      Sobre a falta de comentários… Isso também já nós conversámos 🙂 Vamos ver se os nossos leitores se decidem a partilhar connosco um bocadinho mais!

      • Eu tinha ideia deste pecado, mas confesso que ainda não me tinha apercebido da dimensão dele!

        Queria só dizer-te que aqui estamos em risco de perder a missa aos domingos (alguns)… são muitas missas para um único padre. No primeiro fim de semana do mês, por exemplo, a missa já passou para o sábado logo depois do almoço porque é a única hora possível, mas fazemos como se fosse domingo! Viver no interior é assim. Poucas pessoas, poucas missas.

        • Em muitas paróquias do interior já se faz apenas a celebração da Palavra, que substitui a missa quando ela não é possível. Mas quem tem a possibilidade de se deslocar até uma terra próxima para participar na missa, quando não há missa na sua terra, não deixe de o fazer por comodidade. Pensemos nos milhões que vão a pé, quilómetros sem fim, pela selva, pelo mato, descalços, com sede! Não fiquemos na nossa celebração da Palavra se pudermos ir à missa a dez ou vinte quilómetros de carro, e melhor ainda, dando boleia a quem não o pode fazer. Isto não nos impede de participar na celebração da Palavra na nossa terra, por uma questão de fazer comunidade!
          E, claro, rezemos pelas vocações sacerdotais!

  2. Talvez este texto tenha poucos comentários porque é o género de reflexão que faz com que algumas pessoas como eu se sinta mal. Eu percebo que aquilo que está escrito é verdade. Mas só Deus vê o meu coração e só Ele sabe as razões pelas quais falto muitas missas de domingo. Ao ler este reflexão sinto me mal comigo mesma, não apenas pelo pecado em si, mas pelo julgamento das pessoas que sempre vão as missas todas.

    • Obrigada pelo comentário, em resposta tão rápida ao nosso pedido de partilha! Quanto ao julgamento das pessoas, não pense nele nem isso lhe faça perder o sono, Maria! O julgamento que fazemos dos outros é em si mesmo um pecado muito grave, e teremos de responder por ele. Fique apenas com a sua reflexão sobre si mesma, isso sim, é a única coisa que importa diante de Deus, e no fim da sua vida, a Maria só terá de dar contas de si própria. Um beijinho!

  3. Helena Atalaia

    Boa noite!
    Este post é belíssimo e com ele recordei o episódio de há 2 noites atrás. A minha filha de 7 anos, depois da oração da noite, chamou-me para me questionar: – Mãe, Maria e Jesus existem mesmo ou é invenção da nossa cabeça?
    Fui apanhada com surpresa pela sua dúvida genuína e exposta de forma tão clara nesta idade. E a minha resposta pareceu-me muito pobre… Ao refletir, é um tipo de dúvida que nos assola com questões mais ou menos similares a todos em algum(s) momentos. Talvez, por isso possamos faltar à Missa sem consciência clara do pecado. Mas para alimentar a nossa fé há um alimento eficaz, e está na Eucaristia. E os mártires mostram-nos como somos pessoas de pouca fé… Será que teria a fé de um mártir? Será que teria a coragem de ir à Missa na Nigéria? Bem, pelo menos que consiga ir no meu país a correr com alegria para o alimento que me dá forças para crescer na fé e no amor. Pois, é só isso que me é pedido. E em comparação é tão pouco! E a recompensa do nosso amor tão atabalhoado? É “estapafúrdiamente” exagerada!!! Porque Deus ama-nos desta forma tão incompreensível para a nossa capacidade. Lembra-me que outro dia a mesma filha perguntava-me: – Será que existe bolo de chocolate no céu?
    – Claro!! Todo o que quiseres comer!
    E certamente o mais delicioso 😏
    Resumindo:
    Senhor, eu creio mas aumenta a minha fé, esperança e caridade! É um bom pedido para o momento da Comunhão.

  4. E como explicar aos jovens da Catequese que a missa nao é uma seca? Principalmente quando acontece como no natal de 2017 que se deve ir missa dois dias seguidos…
    A minha filha de 8 anos perguntava-m se fazia sentido celebrar eucaristia se Jesus tinha morrido e tambem se fazia sentido set batizado e nao ir a missa….

  5. Helena Atalaia

    As crianças e os jovens são uma benção para nos desassossegar! Este Natal também tive alguns comentários. A maior dificuldade é com crianças e jovens de famílias que colocam os filhos na catequese (graças a Deus!) mas que os pais não agem com a devida coerência, ou seja, frequentar as celebrações. Nesses casos, acho muito compreensível que os filhos não entendam porque devemos ir à Missa. E dois dias seguidos então pode ser mesmo incompreensível! Ainda por cima, quando a experiência provavelmente mais significativa é a ceia recheada e as prendas.
    Com os meus filhos, e quando saem comentários assim, e conforme a circunstância que leva ao comentário, tanto posso lembrar que nem sempre me apetece ir à Missa mas não o faço porque me apetece mas faço-o por amor. Porque Jesus institui a Eucaristia na última ceia pedindo para o fazer. Ou se o meu jovem está num dia mais irreverente posso dizer que ainda bem que comparado com a Paixão e Morte de Jesus não temos nada para nos queixar, só para agradecer. Mas, quando estão habituados a fazer pequenos sacrifícios pelos outros que vão contra a sua vontade, a sua preguiça, o comodismo tudo se torna mais fácil. Educar para servir e não para ser servido ajuda que se compreenda melhor estas e muitas outras questões.

  6. Teresa

    Como sempre li… pensei … ainda me senti pior por ter faltado no domingo anterior e este prometi a mim mesma que ia dar um jeito… ainda pensei ir à Eucaristia a outro lugar porque era mais cedo mas não tendo acordado a tempo ficou logo decidido que os amigos iam ter de esperar para o almoço, afinal há prioridades!!

    Obrigada pelo “despertar de consciência” deste post

    Bjs

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *