Em Caná da Galileia...


Domingo da Ascensão, ano B

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Reflexão semanal publicada no jornal diocesano Correio do Vouga, escrita pela Teresa, sobre as leituras do domingo seguinte

A ASCENSÃO LANÇA-NOS NA TERRA, MAS NÃO PODEMOS SER MUNDANOS

O mistério da Ascensão do Senhor abre o Livro dos Atos dos Apóstolos. Na verdade, é a partir daqui que os Apóstolos descobrem a sua vocação missionária e se lançam na aventura que nos permite a nós, hoje, ser cristãos.

Lucas conta-nos como Jesus ressuscitado apareceu durante quarenta dias aos seus discípulos, instruindo-os e acompanhando-os. Mas mesmo assim, eles nada entendiam: “É agora que vais restaurar o reino de Israel?” Nem a dor da paixão, nem a glória da ressurreição tinham conseguido converter a sua mentalidade mundana, que a todo o momento procurava o sucesso terreno, a derrota dos inimigos políticos e a restauração da monarquia hebraica.  Como podia Jesus levar os seus amigos a trabalhar pelo Reino dos Céus, e não pelos reinos da Terra? Era preciso enviar sobre eles o Espírito Santo, o seu Espírito, para que lhes abrisse o entendimento e convertesse os seus corações.

Mas antes disso, era preciso fazer ainda outra coisa…

Quando o nosso filho está a aprender a andar de bicicleta, corremos atrás dele segurando o assento, para que se equilibre. Um dia, porém, fazendo pouco caso dos seus gritos aflitos, damos impulso e retiramos a mão. E ele dá-se conta de que sabe andar. Mais tarde, iremos “retirar a mão” para que ele aprenda a viver a sua vida, a construir a sua própria família. E ai de nós e dos nossos filhos se assim não fizermos!

Jesus fez precisamente o mesmo com os Apóstolos. Sem nunca os abandonar deixou, contudo, de fazer sentir a sua presença através de aparições constantes. Era preciso “retirar a mão” e “dar impulso”, para que os Apóstolos se dessem conta de que eram capazes de pôr em prática tudo o que Ele lhes ensinara. E assim aconteceu.

Lucas diz-nos que os Apóstolos ficaram a olhar para o Céu até serem interrompidos por um anjo, que os recordou da sua missão sobre a Terra. Viveremos nós esta tensão entre o desejo do Céu e a nossa missão na Terra?

Desejaremos nós suficientemente o Céu, “a esperança a que fomos chamados”? A solenidade da Ascensão lembra-nos que fomos criados para o Céu. Subindo, Jesus diz-nos que a Terra é passageira e que nada do que existe neste mundo nos pode saciar. Precisamos de subir com Jesus, de nos distanciarmos dos reinos terrenos, de abandonar a mundanidade. Olhando para o Céu, onde Jesus desaparecia ocultado pela nuvem de Deus, os Apóstolos perceberam finalmente o que nem a paixão, nem a ressurreição de Jesus lhes permitira perceber: não, Jesus não iria restaurar o reino de Israel. Jesus não iria restaurar nenhum reino terreno. Jesus – “como Cabeça da Igreja, que é o seu Corpo” – iria sentar-se à direita do Pai, aguardando a chegada a Casa de todos nós.

No final da sua longa vida, a Irmã Lúcia recordava-se da promessa de Nossa Senhora de a levar para o Céu “daqui a algum tempo”. E suspirando, repetia muitas vezes: “Querida Nossa Senhora, disseste que era só algum tempo… Já lá vai tanto!” Santa Teresinha de Lisieux referia-se sempre à vida terrena como “o exílio”, contrastando-a com a vida eterna, a que chamava “a pátria”. E Dom Bosco, quando aconselhado a descansar dos seus trabalhos, respondia: “Um pouco de Paraíso paga tudo!” Viveremos nós esta ânsia do Céu, esta saudade de Deus? Quantos cristãos vivem acumulando lixo, comprando e vendendo como se tudo dependesse dos negócios deste mundo! Quantos cristãos vivem procurando a fama, o dinheiro, a beleza e o poder terrenos, esquecidos do Céu! Quantos cristãos fazem a sua felicidade depender do mundo! Poderão os cristãos ser mundanos? O Papa Francisco – fazendo eco das palavras de Jesus – repete que não.

Mas a solenidade da Ascensão não nos faz simplesmente olhar para o Céu: ela lança-nos na Terra, como lançou os Apóstolos. Antes de desaparecer por detrás da nuvem de Deus, Jesus convocou-os para uma grandiosa missão. Todos os Evangelhos terminam com esta convocatória do Senhor, ordenando-nos que levemos o Evangelho até aos confins da Terra. Ninguém é cristão se não sentir em si esta vocação de missão, este desejo ardente de não chegar ao Céu sozinho, mas de levar consigo o maior número possível de irmãos.

“Eis os milagres que acompanharão os que acreditarem”, diz Jesus. E com imagens sugestivas, assegura-nos que os crentes serão capazes de expulsar o mal, construir a unidade, curar feridas e resistir a todo o veneno que o mundo destile sobre eles. Os cristãos vivem de cabeça bem erguida, sem medos nem lamúrias, sabendo desde já que são vencedores sobre o demónio e o mundo.

Domingo. Corremos para a missa como os Apóstolos ao encontro de Jesus ressuscitado, naquele dia da Ascensão. Vimos porque temos saudades do Céu, e pelo menos uma vez por semana precisamos de contemplar a glória do Senhor, sentado à direita de Deus, revelado e oculto pela “nuvem” do mistério eucarístico. Vimos porque Ele nos convocou para, de novo, nos enviar, nos reúne para, de novo, nos dispersar, e assim fará outra e outra vez, até ao dia feliz em que, por fim, deixarmos este mundo para entrar na eternidade. Aleluia!

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