Em Caná da Galileia...


Domingo II do Advento, ano C

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Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

DEIXA A TUA VESTE DE LUTO E AFLIÇÃO

As leituras deste domingo de Advento falam-nos de um amor divino capaz de transformar as lágrimas em risos, as sementes em espigas, os desertos em torrentes. Deixemo-nos conduzir pelos caminhos que este amor vai aplanando, à sombra das suas “árvores aromáticas” e “à luz da sua glória”!

“Jerusalém, deixa a tua veste de luto e aflição”, diz o Senhor em Baruc. “Cobre-te com o manto da justiça que vem de Deus e coloca sobre a cabeça o diadema da glória do Eterno.” Vêm-me à lembrança imagens que nunca presenciei, mas que a minha mãe e os meus avós evocavam. Imagens dos dias da chegada dos pescadores de bacalhau, que passavam cerca de meio ano no mar, às nossas praias. Que festa sobre os paredões, ao ver chegar os navios! As mulheres dos pescadores, que durante seis meses vestiram de preto, quais viúvas a chorar a ausência dos maridos, apareciam então esplendorosas, trajando roupas novas e perfumadas, cabelos arranjados e muita, muita alegria. Era o marido que regressava, e era preciso festejar!

A Bíblia está cheia de imagens de intenso amor conjugal. O nosso Deus é um Deus apaixonado, louco de amor, que continuamente vem ao encontro da sua esposa, Jerusalém, para a encher de carinhos e presentes. A esposa, contudo, nem sempre corresponde com o mesmo grau de amor e entrega, e por isso a relação entre ambos é marcada pelo sofrimento, pela traição da esposa, pelo resgate que o divino Esposo está continuamente disposto a pagar para a ter de volta. Nenhum romance de amor chega aos calcanhares deste magnífico romance entre Deus e Jerusalém, romance que culmina no Apocalipse, quando finalmente, Jerusalém se deixa transfigurar.

E que representa Jerusalém? Ao longo do Antigo Testamento, Jerusalém representa o povo escolhido. Na leitura deste domingo, o povo estava cativo na Babilónia, e o Senhor vem ao seu encontro para o desposar, curar, reunir. Mas Jerusalém é também a Igreja, Esposa de Cristo, por quem Ele deu a vida na Cruz e que, no Apocalipse, desposará para sempre. Como é reconfortante saber que a Igreja triunfará de todos os seus inimigos! “Levanta-te, Jerusalém (levanta-te, Igreja – e a Igreja precisa tanto de se levantar…), sobe ao alto e olha para o Oriente: vê os teus filhos reunidos desde o Poente ao Nascente, por ordem do Deus Santo, felizes por Deus Se ter lembrado deles. Tinham-te deixado (a apostasia generalizada que hoje se vive já aqui está predita…), caminhando a pé, levados pelos inimigos; mas agora é Deus que os reconduz a ti, trazidos em triunfo, como filhos de reis.” Quanta esperança para os nossos tempos, contida nesta Palavra!

Por fim, Jerusalém é cada um de nós, e vale a pena ler as leituras que continuamente nos apresentam esta história de amor substituindo o nome “Jerusalém” pelo nosso próprio nome. Já experimentaram? “Teresa, António, José, deixa a tua veste de luto e aflição e reveste para sempre a beleza da glória que vem de Deus…”

Fazer esta experiência é suficiente para transformar a nossa relação com Deus. Porque Deus deixa de ser uma abstração, para ser o nosso amor, Esposo da nossa alma (sempre tratada no feminino pelos grandes místicos), para lá de qualquer categoria sexual. Como é reconfortante descobrirmo-nos assim amados! “Deus vai mostrar o teu esplendor a toda a criatura que há debaixo do céu”, diz-nos o profeta. Somos assim tão belos, que valha a pena mostrar o nosso esplendor, escondido debaixo das roupagens do pecado? Sim, somos! Não fomos nós revestidos de uma veste branca no dia de festa do nosso Batismo, como noiva adornada para o seu noivo? E Deus não desistirá de nós, até completar a obra que nesse dia começou, como S. Paulo afirma: “Tenho plena confiança de que Aquele que começou em vós tão boa obra há de levá-la a bom termo até ao dia de Cristo Jesus.”

Lucas apresenta-nos João Batista, pregando no deserto. Ele vem com pressa, porque o Esposo está próximo, e é preciso que a Esposa se prepare para O receber (alguém precisa de anunciar às mulheres dos pescadores que os navios do bacalhau já se recortam na linha do horizonte…). Como podemos despir as vestes de luto e vestir as da alegria conjugal? João indica-nos o caminho: penitência e conversão, para obtermos a remissão dos pecados e recuperarmos a beleza da veste batismal. E S. Paulo incita-nos a “crescer cada vez mais em ciência e discernimento”, pois só distinguindo “o que é melhor” nos podemos tornar “puros e irrepreensíveis para o dia de Cristo”, vestindo o traje nupcial como Jerusalém que somos. É este o caminho a trilhar.

Hora da missa. Vimos vestidos com a veste nupcial do nosso Batismo, prontos para o encontro. Primeiro, precisamos de renunciar ao apego ao pecado, com verdadeiro arrependimento e ânsias de conversão. Depois, no deserto em que a nossa alma ainda habita, escutamos a Palavra, que nos fala ao coração e faz caminho em nós, “abatendo os montes e enchendo os vales”. Por fim, o Esposo virá, e sobre o altar da Cruz e do Pão, desposar-nos-á para sempre… Vem, Senhor Jesus!

One Comment

  1. Como sempre uma bela reflexão!!!

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