Em Caná da Galileia...


Domingo II do Tempo Comum, ano C

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

O MANDAMENTO DE MARIA

Continuamos a contemplar a epifania de Jesus, prostrando-nos em adoração diante do seu primeiro milagre. Aproximemo-nos com o coração nas mãos, sem calar as emoções, pois as leituras que estamos prestes a escutar falam de enamoramento e paixão.

Era uma festa de casamento, em Caná. Talvez os noivos fossem amigos de infância de Jesus, ou parentes de Maria. O certo é que ambos estavam lá.

É uma festa de casamento, toda a História Sagrada. Da primeira à última página da Bíblia, Deus declara o seu amor apaixonado a Israel, a Jerusalém, à Igreja, a cada um de nós. O seu povo, imagem da nossa alma, suscita da boca de Deus as mais belas expressões de amor. “Tal como o jovem desposa uma virgem, o teu Construtor te desposará”, diz-nos o Senhor em Isaías. “E como a esposa é a alegria do marido, tu serás a alegria do teu Deus.” Se queremos conhecer em profundidade o amor de Deus por nós, precisamos de nos demorar nestas imagens de enamoramento que percorrem o Génesis, os profetas, o Cântico dos Cânticos, o Apocalipse, e descobrirmo-nos como a alegria do nosso Deus, “coroa esplendorosa” e “diadema real” do seu amor. Se ainda não nos sentimos assim amados, se ainda não nos sentimos “prediletos do Senhor”, talvez seja por termos deixado acabar o vinho. Como em Caná.

Em religião, é fácil deixar acabar o vinho, esvaziando a linguagem de amor de Deus de toda a paixão para a reduzir a um conjunto de normas e ritos. As talhas de pedra da Lei ficam vazias. E sem vinho – sem alegria, sem emoção, sem enamoramento – não há festa, não há boda.

João, o único evangelista a contar-nos o que se passou em Caná, diz-nos que Jesus e os discípulos estavam lá, mas não nos diz quem eram os noivos. Esquecimento de João ou inspiração divina? Na verdade, os noivos de Caná não têm nome porque podem ser qualquer um de nós, aqueles que Deus ama loucamente e que quer desposar. E a família que, por feliz inspiração, convidou Maria e Jesus para a sua festa pode ser também a nossa família. Mas acima de tudo, o noivo é o próprio Jesus, que veio ao mundo para nos desposar, resgatando-nos dos bordéis onde o pecado nos aprisionara: “Não mais te chamarão Abandonada, nem à tua terra Deserta, mas hão-de chamar-te Predileta e à tua terra Desposada, porque serás a predileta do Senhor e a tua terra terá um esposo.” O seu amor, pleno, abundante, perfeito, é o mais doce e inebriante dos vinhos que podemos beber sobre a Terra e em toda a eternidade. Estendamos então a taça e brindemos!

Maria surge aqui como a “Mãe”. Ao dar-se conta de que o vinho acabou, dirige-se de imediato a Jesus: “Não têm vinho.” Jesus parece desafiá-la: “Que temos nós com isso?” Ficamos confusos. Será Maria mais misericordiosa que Jesus? Impossível! Jesus quis antes deixar claro que o seu milagre se ficou a dever à intercessão de sua Mãe. Que é vontade de Deus que todas as graças nos sejam concedidas por Maria. O Criador realiza a sua perfeita humildade obedecendo à criatura, o Filho sente perfeita alegria obedecendo à Mãe! Cristão que queira prescindir de Maria não conhece o seu Deus. No Céu, como fez na Terra, Maria intercede por nós, seus filhos, dia e noite. Por isso lhe chamamos Medianeira de Todas as Graças.

“Mulher”, diz Jesus. Mulher: Jesus eleva Maria à estatura da Nova Eva, a Mulher da Nova Criação. Maria é a mais perfeita imagem da Esposa, a Predileta do Senhor, a alegria do seu Deus, o diadema real, a coroa esplendorosa. Em Maria, o amor do Esposo encontrou perfeita correspondência.

“Ainda não chegou a minha Hora”, diz Jesus. Porque a “hora das bodas”, a hora em que Deus-esposo vai finalmente unir-se em matrimónio à Igreja-esposa, é a hora da Cruz. Aí, do lado aberto de Jesus morto, Deus fará nascer a Igreja, como do lado aberto de Adão adormecido fizera outrora nascer Eva. E como é bela, esta Igreja-esposa, una e diversa ao mesmo tempo, tomando os rostos de todos nós, adornada com os carismas que o Espírito distribui “conforme Lhe agrada”! Fomos desposados por Jesus na Cruz, e seremos tão mais belos quanto mais os dons com que Ele nos adornou forem, como Maria fez em Caná e S. Paulo defende, usados “para o bem comum”.

Com a mesma pressa da Visitação, Maria antecipa em Caná a hora de Jesus. O seu segredo é simples, e vai partilhá-lo com os que, como ela, gostam de servir: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. A Irmã Lúcia chamou-lhe “O Mandamento de Maria”, pois a Mãe nunca teve outro. E que poderoso mandamento!  Seguindo-o, teremos a certeza de que o “vinho bom” nunca acabará na nossa casa.

Hora da missa. É a hora das Bodas, é a hora de Caná, é a hora da Cruz. E sobre o altar, qual mesa do banquete nupcial, jorrará, abundante, o vinho melhor, misturado com Palavras de amor que Jesus, o Esposo, murmurará ao nosso coração. Apaixonados, deixemo-nos seduzir, estendendo as nossas talhas vazias para que Ele as encha e as faça transbordar… A nosso lado, intercedendo por nós incessantemente, está a Mãe. Que ela nos ensine a fazer o que o Senhor nos disser!

 

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