Em Caná da Galileia...


Domingo III de Páscoa, Ano B

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Reflexão semanal sobre as leituras do próximo domingo, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

COMO RECEBER A VISITA DO RESSUSCITADO

Ao longo do tempo pascal, somos conduzidos de aventura em aventura através dos Atos dos Apóstolos. Crianças ou adultos, deixemo-nos surpreender por estas magníficas aventuras espirituais, lendo a cada dia o trecho proposto para a missa. A leitura integral dos Atos dos Apóstolos é um belo desafio pascal, e vale a pena ser feita em família.

Que coragem a destes homens, os mesmos que abandonaram Jesus na Paixão e que depois se fecharam em casa com medo! O que lhes aconteceu, para agora não hesitarem em testemunhar a sua fé? Os “atos de Jesus”, narrados nos Evangelhos, chegam até nós por causa dos Atos dos Apóstolos. Pois são estes atos que atestam que a vida de Jesus não terminou na crucifixão, antes irrompeu, triunfante, da morte. Não há cristianismo sem testemunhas.

Na leitura de hoje, escutamos como um Pedro renovado interpreta publicamente as Escrituras. Agora sim, elas fazem sentido, e é preciso que Pedro, o Papa, no-las explique, de Abraão a Moisés e todos os profetas, até à oferta de Jesus. Como é importante a pregação, especialmente a do Santo Padre e dos sacerdotes! Pois cabe à Igreja interpretar as Escrituras para cada geração, a fim de que cada geração possa colher os frutos da morte e ressurreição de Jesus.

E diz-nos Pedro que a morte de Jesus fora prevista por Deus. Até o nosso pecado e a nossa ignorância fizeram parte do seu grandioso plano de salvação! Deus aproveita tudo, mesmo a nossa maldade, e nunca o pecado poderá destruir os seus desígnios de amor. Vivamos, pois, alegres e cheios de esperança!

Também João nos fala de pecado na sua belíssima Carta. “Meus filhos, escrevo-vos isto, para que não pequeis.” Somos chamados à conversão. Como Pedro, que negou Jesus três vezes e agora O testemunha sem medo; como os judeus que o escutavam naquela manhã. E João acrescenta: “Mas se alguém pecar, nós temos Jesus Cristo.” Só pode receber os frutos da paixão de Jesus aquele que se reconhece pecador. “Arrependei-vos, para que os vossos pecados sejam perdoados”, diz Pedro. Ele sabe do que fala, pois experimentou o poder do perdão de Jesus depois de O negar. No Evangelho, Jesus ressuscitado afirmará que é mesmo esta a grande notícia: “havia de ser pregado em seu nome o arrependimento e o perdão dos pecados a todas as nações.”

Hoje, estas palavras colocam-nos um grave problema. É que as comunidades cristãs perderam o sentido de pecado, e já pouca gente se sabe confessar. “Teresa, temos de nos confessar para a Páscoa? Mas já nos confessámos para o Natal! Que pecados vamos dizer agora?” Suspiram os meninos do sétimo ano da catequese. “É preciso fazer listas de pecados, para que as crianças possam vir confessar-se, porque assim não dá”, desabafa um sacerdote para a catequista, depois de ouvir em confissão os meninos do segundo ano. “É pecado faltar à missa? Viver com o namorado? Abortar uma criança deficiente? Fugir aos impostos? Comentar a vida do próximo? Consultar cartomantes? Atrasar o batismo dos filhos, não os levar à catequese ou à missa?” Os adultos surpreendem-se quando lhes falamos em pecado, e as crianças crescem sem pais que as ensinem a fazer um exame de consciência regular. Mas sem a convicção de que somos pecadores, a morte e a ressurreição de Jesus não têm qualquer efeito na nossa vida.

Dias de Páscoa. Jesus já apareceu aos discípulos de Emaús, a Pedro e às mulheres. Agora aparece à comunidade dos Apóstolos. Que alegria os invade! Jesus está vivo! E a sua presença é em si mesma sinal do seu perdão. Pois não fora Jesus abandonado por quase todos, na hora mais dura da sua vida? Que tinham eles feito para merecer o dom da sua visita?

Não é fácil acreditar na ressurreição. A comunidade cristã não é feita de gente acrítica ou pouco inteligente. Pelo contrário: em todos os relatos da visita do Ressuscitado, vemos a luta entre a dúvida e a fé. Por isso, Jesus pede algo para comer: Ele não é um espírito desencarnado, antes tem um corpo glorioso, diferente do corpo corruptível, mas sempre e ainda corpo.

É porque acreditamos na ressurreição da carne que às obras de misericórdia espirituais aliamos as obras de misericórdia corporais. E não há nenhum sacramento que chegue ao espírito sem passar pelo corpo. Tantas lições aquela posta de peixe assado nos dá!

Glorioso, Jesus mostrou aos discípulos as mãos e os pés. A ressurreição glorificou as suas feridas, mas não as cicatrizou. As chagas de Jesus ficaram para sempre abertas, fontes donde jorra, para nós, a salvação.

Chegou a nossa vez. Reunidos com a comunidade cristã na igreja, também nós recebemos a visita do Ressuscitado. Ei-l’O que nos sorri, nos mostra as feridas abertas, se senta à mesa e come connosco. Peçamos-Lhe que nos abra o entendimento para compreendermos as Escrituras e nos darmos conta da nossa condição de pecadores. Experimentaremos então o poder curativo das suas chagas, seremos capacitados para guardar os seus mandamentos e tornar-nos-emos suas testemunhas, transmitindo o cristianismo à próxima geração. Aleluia!

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