Em Caná da Galileia...


Domingo III de Páscoa

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

BOM ALMOÇO!

Peixe sobre as brasas, pão fresco, uma pergunta – “Tu amas-Me?” – e um desafio: “Segue-Me.”  Que belo programa para este domingo!

“Já vos proibimos formalmente de ensinar em nome de Jesus, e vós encheis Jerusalém com a vossa doutrina”, diz o sumo sacerdote aos apóstolos. Eles respondem sem hesitação: “Deve obedecer-se antes a Deus que aos homens.” Que entusiasmo o dos primeiros cristãos! Com que alegria davam testemunho e ensinavam a doutrina!

Ainda mais surpreendente, para nós cristãos ocidentais, é a sua reação ao castigo corporal que lhes é infligido. “Os Apóstolos saíram da presença do Sinédrio cheios de alegria por terem merecido serem ultrajados por causa do nome de Jesus.” Sabemos que nunca houve tantos mártires como hoje. O terceiro segredo de Fátima assim o predisse, e os últimos papas têm-no repetido. Mas  nós continuamos a debater – na teologia, no cinema, na literatura – se o martírio é mesmo necessário. Há poucos dias, um artigo do papa emérito Bento XVI concluía magistralmente:  Há valores que jamais devem ser abandonados por um valor mais alto e até mesmo superar a preservação da vida física. Há martírio. Deus é mais. Ele vale mais que a própria sobrevivência física. Uma vida comprada pela negação de Deus, uma vida baseada em uma mentira, ao final, não é vida.
O martírio é a categoria básica da existência cristã. O fato de que o mesmo já não seja moralmente necessário, como afirma a teoria defendida por Böckle e muitos outros, demonstra que a própria essência do cristianismo está em jogo aqui. (A Igreja e o escândalo do abuso sexual).

A força interior que permitiu aos Apóstolos exultar diante do martírio não lhes era inata. Foi recebida, como dom, depois da Ressurreição de Jesus. Assim nos conta João:

Jesus ressuscitara e já aparecera aos discípulos e a Madalena. Mas a pergunta ecoava nos corações: o que fazer agora? Por onde começar a grande tarefa da evangelização, sem a presença física do Mestre a seu lado? Os dias passavam, o Mestre não voltara a aparecer… O mais fácil mesmo era retomar a vida de antigamente, pegar de novo nas redes e ir pescar. Pedro e os amigos fizeram-se ao mar.

A madrugada despontava já quando, na praia, Alguém os saudou e, ouvindo dizer que não tinham apanhado nada, os enviou de novo para o mar. Só havia uma Pessoa que falava assim… Quando o peixe encheu a rede, João não teve dúvidas: “É o Senhor!” Pedro ficou tão feliz, que se lançou à água, a fim de chegar mais depressa. Mas antes, vestiu a túnica, pois se Jesus era o seu melhor amigo, Ele era também o seu Deus, Aquele que João irá descrever no Apocalipse com as imagens mais sublimes que encontrar. Às vezes, queremos tanto ver em Jesus um amigo, que nos esquecemos de ver n’Ele o Deus três vezes santo das Escrituras. Com a sua túnica encharcada, Pedro mostra-nos que podemos ser íntimos do Senhor sem perder o respeito e a veneração que Lhe devemos. Aprendamos, da próxima vez que nos vestirmos para a missa, que sentirmos a tentação de conversar na igreja, que passarmos diante do altar ou sacrário!

Já na margem, Jesus esperava os discípulos com uma refeição quente de peixe na brasa e pão. Quanta delicadeza! “Bom almoço”, diz o Papa Francisco no final do Ângelus, com a mesma simplicidade encantadora do seu Mestre. A nossa religião nasceu numa refeição entre amigos. É à volta da mesa do altar que Jesus Se torna presente, é à volta da mesa do jantar que as famílias precisam de se encontrar como famílias, sem televisões ou telemóveis, para partilhar a vida e a fé.

O nosso jantar bíblico

Os discípulos, com Pedro à cabeça, puxaram as redes para terra, e as redes não se romperam. Como é bela, forte e segura a nossa Igreja, esta rede cheia de peixes, que os discípulos de Jesus salvam do mal e da morte, simbolizados no mar! Mas como é difícil ser “Pedro”! “Estenderás a mão e outro te cingirá e te levará para onde não queres”, profetizou Jesus a Pedro, e nele, a todos os papas, que vivem um contínuo martírio de alma. Rezemos pelo Santo Padre hoje também!

 “Pedro, tu amas-Me?” Por três vezes, Jesus repetiu a pergunta. Tinham sido três, de facto, as negações de Pedro… Que alegria! Não há pecado que não possa ser reparado! Inspirada neste Evangelho, todos os dias peço ao Senhor que me permita realizar tantos atos de amor quantos os pecados que vou cometendo.  

Hora da missa. Trabalhámos a noite inteira sem nada alcançar, mas aqui, nesta bela praia, o Senhor vai fazer frutificar os nossos esforços. Sabemos, porque o Apocalipse o descreve e muitos santos o atestam, que à volta do altar, o “trono”, cantam miríades de anjos. Mas nós nada vemos de estranho ou maravilhoso… Uma fogueira acesa, a do seu Coração para sempre aberto. Uma refeição simples, quente, familiar, a deste Pão e deste Vinho que partilhamos. “Vinde comer!” Diz-nos Ele. Pensar que sob estes gestos singelos Se esconde o Senhor do Universo e da História, o Cordeiro imolado, “digno de receber o poder e a riqueza, a sabedoria e a força, a honra, a glória e o louvor…” 

Jantar hebraico na paróquia

One Comment

  1. Gosto tanto deste evangelho! É tão rico que há sempre mensagens novas a reter, como é a da túnica de Pedro que a Teresa aqui explica tão bem. Obrigada!
    Nota: também gosto muito do pormenor de ter sido João a reconhecer Jesus mas Pedro a atirar – se à água (que bela complementaridade!); do facto de João ser o discípulo preferido mas ter sido Pedro o escolhido para “apascentar as ovelhas” (que imparcialidade da parte de Jesus!) ; e do facto que a Teresa também refere de a rede estar tão carregada de peixe mas não se romper (a mim ajuda-me muitas vezes meditar nesta passagem, porque me leva a pensar que Deus não nos dá fardos maiores do que aquilo que conseguimos aguentar).
    Um beijinho para toda a família.

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