Em Caná da Galileia...


Domingo IV da Quaresma, ano C

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

A HISTÓRIA DO PAI QUE TINHA DOIS FILHOS É A NOSSA HISTÓRIA

Domingo da alegria. Domingo da reconciliação e do encontro. Exultemos! A Páscoa está quase aí…

Nenhuma parábola de Jesus recebeu tantos comentários como a do Filho Pródigo. Sabemos a narrativa, conhecemos as personagens… A história do Pai que tinha dois filhos é a nossa história.

“Pai, dá-me a parte da herança que me toca”, pede o filho mais novo. Porque terá o Pai cedido a este pedido insensato? Seria assim tão difícil imaginar o que o filho faria? Penso muitas vezes nisto, ao olhar para este belo planeta, que o Senhor nos confiou logo ali no Génesis para que o cultivássemos… Mas  as imagens que nos chegam da Síria, onde não há pedra sobre pedra, são tudo menos imagens de um jardim florido. Penso nisto quando rezo pela Igreja, e pergunto-me que “Pai insensato” deposita nas mãos de homens pecadores o poder divino de dar a vida da graça, de perdoar, de consagrar… Penso nisto quando medito no poder que o Pai me deu a mim, ao confiar-me sete filhos para educar para o Céu… E penso nisto quando vejo esbanjar alimentos, água, conhecimentos, dons e talentos por todo o lado. Que Pai é este, afinal? Porque confia Deus tanto em nós? Porque nos permite pecar a ponto de quase, quase destruirmos a sua Criação? Mistério divino, que nunca abarcaremos, pois na nossa imperfeição, não conseguimos anular o desejo de dominar o outro, de lhe retirar a liberdade de não nos magoar.

“Quantos trabalhadores de meu pai têm pão em abundância, e eu aqui a morrer de fome!” Dar-se conta de que se tem fome é muito bom! Hoje, um dos grandes problemas é que as pessoas estão a morrer de fome – e não o sabem. A sociedade está cada vez mais moribunda, e em vez de repudiar as leis e ideologias que a fazem passar fome, continua a implementá-las, a seduzir com elas as crianças nas escolas, a afirmar a grandeza da sua tolerância, abertura e modernidade, bem visíveis – passe a ironia – na destruição das famílias, nos números crescentes de violência doméstica e nas multidões que enchem os consultórios de psicólogos e psiquiatras.

Será a fome que nos leva à Eucaristia? À confissão? À catequese? Temos fome… É o primeiro passo. A constatação do vazio espiritual que se vive longe da Igreja, a saudade da partilha comunitária, das gargalhadas felizes no grupo de jovens, do silêncio de uma igreja vazia, da luz do sacrário a iluminar a escuridão… Temos fome. Em teologia, chamamos a isto “contrição imperfeita”.

Porque ter fome não é o mesmo que amar. O filho mais novo não sabia amar. Se amasse, pensaria: “O pai deve estar tão triste comigo! Queria tanto que ele se orgulhasse de mim, e afinal, só o desiludi… Espero ainda ir a tempo de lhe dar alegria! Vou voltar, e vou dar tudo para que ele venha a orgulhar-se de mim.” É a  “contrição perfeita”, que não só alcança o perdão dos pecados, como faz de nós santos.

Como é grande, a misericórdia deste pai! No ímpeto de um amor mais forte que qualquer mágoa, o pai corre ao encontro do filho, “ainda ele estava longe”, e não o deixa sequer justificar-se. Logo ali mesmo o abraça e, cheio de pressa, organiza a mais bela das festas. Deus está sempre atento ao nosso mais pequeno sinal de arrependimento. Um suspiro, um lamento, um olhar lançado ao sacrário, uma palavra balbuciada, e o Pai abre os braços para nos acolher. Basta realmente uma contrição imperfeita para que tudo fique perdoado no confessionário e os anjos do céu façam festa. Que escândalo! Perdoar, ainda vá; mas matar o vitelo gordo, vestir de gala, colocar um anel no dedo?!

O filho mais velho não gostou. “Esse teu filho”, diz ele. O pai responde com “este teu irmão”. Do  “esse” distante para o “este” próximo, de “filho” para “irmão”. Sabemos que somos “filhos de Deus”, mas será que somos “irmãos”? Ser irmão – sabe-o quem tem a graça de os ter – significa que podemos discordar, zangarmo-nos… mas ai de quem tocar no irmão! Por isso nos choca a falta de sensibilidade deste filho. Não teria ele nem um pingo de saudade? E se não amava o irmão, também não amava o pai. Pois se o amasse, pensaria: “Graças a Deus que o meu irmão regressou, porque quase matava o pai de desgosto!” Só este duplo amor poderia ter feito o filho mais velho subir a colina para, com o pai, esperar o irmão. Só este duplo amor transforma um crente num missionário, como Paulo, a quem a urgência de ver o Pai feliz e o irmão salvo faz escrever: “Nós vos pedimos em nome de Cristo: reconciliai-vos com Deus!”

Perdoados e amados para além de qualquer merecimento, os cristãos de berço e os recém-convertidos precisam agora de crescer no amor pelo Pai, esforçando-se por Lhe dar alegria, vivendo unidos como irmãos.

Hora da missa. Ainda não chegámos a Casa, mas já nos alimentamos “com os frutos da terra de Canaã”. Ainda estamos longe, mas o Pai já corre ao nosso encontro. Ainda não sabemos amar, mas o banquete já foi servido. “Saboreai e vede como o Senhor é bom!” Como pode Deus amar-nos assim? Peçamos a graça de uma contrição perfeita, que nos permita retribuir amor com amor…

7 Comments

  1. Helena Atalaia

    Reflexão belíssima! A Palavra de Deus é de uma riqueza inesgotável. É incrível como uma única parábola pode ser refletida e rezada de tantas e tão belas maneiras. Que encontre eco em cada um de nós. Obrigada.

  2. Querida Teresa, esta parábola, quando a ouvia na missa quando era criança e adolescente, sempre me deixara intrigada…realmente eu percebia tão bem o irmão mais velho, e não conseguia perceber o pai…demorei muito tempo a perceber e a sentir a incrivel mensagem e o amor incondicional que ela encerrava. Obrigada

  3. Catarina Ramos Tomás

    Também eu caio sempre na tentação de ler esta Parábola da perspectiva do irmão mais velho e como o entendo! E sempre a li na perspectiva dos irmãos. Eu, cristã de berço (gostei!) há tantos anos a servi-lo sem nunca transgredir uma ordem e agora que chega esse seu filho…
    A perspectiva do amor pelo Pai, hoje foi um murro no estômago…

    • Catarina Ramos Tomás

      Este sábado cheguei a questionar-me se o Senhor Padre teria lido a reflexão da Teresa, pois a Homilia dele foi muito de encontro à ideia de fraternidade (relação com os irmãos) e à paternidade (relação com o Pai).
      Mas acabou a homilia de uma forma enigmática e provocatória.
      Nunca me tinha apercebido, mas a Parábola não está terminada…
      Jesus não nos diz se o irmão mais velho chega a entrar na Festa.
      Fica nas nossas mãos terminar esta Parábola…

  4. Catarina Silva

    Obrigada por mais uma maravilhosa reflexão, Teresa! Também eu demorei a entender esta parábola… Foi preciso ter filhos para entender a alegria do pai… E também a parábola do pastor que deixa todas as suas ovelhas para procurar a que se perdeu.
    É muito mais fácil entender o irmão, tal como a Catarina diz. Fico muito triste com esta minha constatação…
    A foto das duas manas está muito linda 🙂

  5. Muito bom! Para ler e reler.

  6. Isabel Marantes

    Querida Teresa, muito obrigada por esta reflexão tão prática, tão profunda e tão madura sobre a parábola mais longa que sabemos que Jesus contou e aquela que melhor mostra a imensidão do Amor de Deus e a sua misericórdia… que maravilhoso é saber que basta uma pequena intenção de mudarmos e Ele vê-nos ao longe e “vem a correr” ter connosco…

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