Em Caná da Galileia...


Domingo IV de Páscoa, ano C

Reflexão semanal. escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

DE QUEM SOU? DE QUEM SOMOS?

“Nós somos o povo de Deus, somos as ovelhas do seu rebanho”, cantamos no salmo e meditamos ao longo de toda a Eucaristia. Hoje é dia do Bom Pastor! Que grande festa deve acontecer nas nossas assembleias e nas nossas casas!

O Evangelho deste domingo são apenas quatro versículos de S. João. Jesus apresenta-Se como um pastor de ovelhas. A imagem, natural no contexto da Galileia de então, é-nos estranha. No entanto, poucas imagens representam de forma mais perfeita a relação de Deus connosco. Já repararam como os pastores guiam as suas ovelhas? Depois de as chamarem do aprisco, começam simplesmente a caminhar na direção das pastagens escolhidas para o dia, e as ovelhas vão seguindo o seu pastor, às vezes mais à frente, às vezes mais atrás, sem se deixarem confundir com as vozes de outros pastores e sem dispersarem. Elas sabem que precisam de seguir o pastor se quiserem encontrar as melhores pastagens e as fontes de água fresca, pois já experimentaram a sabedoria do seu dono. O pastor mantém o olhar atento, mas deixa que as ovelhas se movimentem livremente, confiando que não se afastarão para lá do som da sua voz. Assim, não há gritos, chicotes ou cavalgadas, como acontece com os guardadores de vacas ou cowboys. Quando, no entanto, alguma ovelha se perde, o pastor procura-a até a encontrar. De dia ou de noite, o pastor está vigilante, pois as ovelhas são muito vulneráveis, presas fáceis para os predadores do campo. Um pastor atento não dorme em serviço e não deixa o lobo aproximar-se!

Jesus é este Pastor vigilante, que conduz as ovelhas sem gritos nem chicotes, permitindo que se movimentem, que se afastem e reaproximem, e mantendo longe os lobos e as hienas. Não sentimos já todos como Deus nos deixa os movimentos livres, e nos conduz apenas com a sua voz suave e calma, sem nunca usar a força para nos fazer obedecer?

“As minhas ovelhas conhecem a minha voz”, diz Jesus. Há por aí tantos outros pastores a chamar os seus rebanhos! Tomemos cuidado para não sermos confundidos. É triste ver a quantidade de cristãos que já não reconhecem a voz do Pastor, porque se desabituaram de a escutar na Eucaristia, nas Escrituras, no Catecismo. Ao ouvirem algumas afirmações que lhes parecem interessantes, logo imaginam serem do seu Pastor, incapazes de discernir de outra maneira.

“Eu dou-lhes a vida eterna e ninguém as arrebatará da minha mão”, continua Jesus. A vida eterna! Desejaremos nós verdadeiramente a vida eterna? No Apocalipse, João descreve a eternidade como o “pasto” ideal: “Nunca mais terão fome nem sede, nem o sol ou o vento ardente cairão sobre eles.” Talvez nos falte o desejo profundo! Talvez nos falte a saudade do Céu, que motiva os santos, os mártires, os confessores!

“Ninguém as arrebatará da minha mão”, continua Jesus. “Estes são os que lavaram as túnicas e as branquearam no Sangue do Cordeiro”, explica João no Apocalipse, lembrando que o Pastor deu a vida pelas suas ovelhas. Haverá maior amor, maior fidelidade ao seu rebanho, do que preferir a morte a deixar que alguém arrebate as ovelhas da sua mão?

A imagem do pastor e do seu rebanho não foi inventada por Jesus, antes pertence à mais antiga tradição de Israel. O salmo aprofunda esta imagem e faz uma afirmação fundamental: “Sabei que o Senhor é Deus, Ele nos fez, a Ele pertencemos.” Pertencemos a Deus! Hoje, nos mais variados ambientes, da escola aos movimentos da Igreja, passamos muito tempo com o tema “Quem sou eu”, e pouco tempo a descobrir “De quem sou eu”. Porque esta é, na verdade, a pergunta principal: de quem somos? Se respondermos “somos de Deus”, porque Ele nos fez, Ele nos salvou, estamos seguros na sua mão e nada nos arrebatará dela, então deixamos de viver preocupados, aflitos, abatidos, deixamos de procurar um lugar nos reinos de outros senhores, ou de seguir a voz de outros pastores. Somos de Deus! Que alegria! Somos de Deus!

Quando Paulo e Barnabé descobriram que eram de Jesus, dedicaram toda a sua vida e todas as suas forças a conduzir os povos ao rebanho do Senhor. Mas muitos judeus e “senhoras piedosas mais distintas” recusaram-se a acolher a sua mensagem. É surpreendente, como os mais acostumados à voz do Pastor nas Escrituras são, por vezes, incapazes de a reconhecer na novidade da mensagem de Jesus! “Eu e o Pai somos um só”, insiste Jesus no Evangelho. A voz do Pai, ao longo de todo o Antigo Testamento, é a voz do Filho que, na Cruz, morreu pelas suas ovelhas. Como não entendemos? Não será porque esta voz incomoda? E quando se é “distinto”, nas mais variadas áreas da vida, incluindo a religião, isso não vem mesmo nada a propósito?

Hora da missa. Viemos porque reconhecemos a voz do Pastor, e nos deixámos conduzir até aqui, “às fontes de água viva”. Viemos porque precisamos de entrar “na sua tenda”, para O servir e louvar. Viemos, porque o Pastor deu a vida para nos livrar das garras do mal, e estamos “destinados à vida eterna”, onde “Deus enxugará todas as lágrimas” e “nunca mais teremos fome nem sede…” Aleluia!

One Comment

  1. Catarina Silva

    Gostei tanto desta reflexão! Está belíssima e toca em pontos muito importantes que são tantas vezes, convenientemente, ignorados… Obrigada

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