Em Caná da Galileia...


Domingo IV do Tempo Comum, ano C

Reflexão dominical, escrita pela Teresa, sobre as leituras do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

TODOS FOMOS SONHADOS POR DEUS

Hoje, a Palavra centra-nos no essencial da vocação cristã: somos amados por Deus desde antes de existirmos; e somos chamados a amar como Ele ama, totalmente e até ao fim. Escutemos!

“Antes de te formar no ventre materno, Eu te escolhi”, diz o Senhor a Jeremias “no tempo de Josias, rei de Judá.” “Antes de te formar no ventre materno, Eu te escolhi”, diz-nos o Senhor a nós, no nosso tempo. Porque a Palavra não se esgota num tempo nem numa pessoa, antes ressoa eternamente para lá dos limites do Universo. Deixemos que ressoe no nosso íntimo: “Antes de te formar no ventre materno, Eu te escolhi”… Nenhum de nós é um “acidente”! Ainda que não desejados, ainda que fruto do pecado de outros, todos fomos eternamente sonhados por Deus. Como é reconfortante sabê-lo! Rezemos esta Palavra muitas vezes, especialmente naqueles dias em que nos falta a coragem para continuar a viver.

Com esta certeza de que somos amados, podemos continuar a escutar o que Deus nos diz em Jeremias: “Eu te consagrei e te constituí profeta entre as nações”. Já nos demos conta de que o Senhor nos consagrou, isto é, nos separou do mundo e dos seus valores para nos confiar uma missão divina? “A minha boca proclamará a vossa salvação”, canta o salmista. Não só a boca, mas toda a nossa vida precisa de proclamar a salvação do Senhor. Não nos acomodemos: “Cinge os teus rins e levanta-te, para ires dizer tudo o que Eu te ordenar.”

Assim fez também Jesus. Em Nazaré, entrou na sinagoga e profetizou, anunciando as maravilhas de Deus. Mas nem todos se deixaram tocar. Alguns comentavam: “Não é este o filho de José?” Não estavam dispostos a acreditar na profecia de um dos seus sem antes verem milagres: “Faz também aqui na tua terra o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum.” Como é difícil aceitar o profetismo dos que nos são próximos! “Nenhum profeta é bem recebido na sua terra”, respondeu Jesus. Poderíamos acrescentar: nem na sua casa, nem na sua família, nem na sua paróquia… É muito, muito difícil para o nosso orgulho aceitar que um dos nossos possa receber uma missão profética mais visível que a nossa. Especialmente porque, sendo próximos, conhecemos bem os seus defeitos e os seus pecados (algo que os nazarenos não podiam conhecer sobre Jesus, naturalmente).

“Nunca dei conta de que vivia ao lado de uma santa”, comentou o viúvo de Santa Gianna Molla, quando lhe foi pedida autorização para se abrir o processo de canonização da sua esposa. “Gianna era uma mulher normal, amava a vida, era alegre e amava os seus filhos”, justificou. Como os nazarenos, também ele achava que só quem faz milagres é santo. Pouco a pouco, percebeu que a santidade é outra coisa, e essa outra coisa, Gianna tinha em abundância. Estaremos nós atentos às virtudes dos nossos familiares mais próximos, dos nossos amigos e dos paroquianos com quem convivemos? Precisamos de cultivar o olhar, para nos deixarmos maravilhar pela beleza interior daqueles que o Senhor colocou a nosso lado.

E donde vem essa beleza interior? Que “outra coisa” é essa que os santos têm e que Jesus veio ensinar? S. Paulo chama-lhe caridade, o amor em ação. Sem amor, diz Paulo, de nada valem os milagres. “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos”, “ainda que eu tenha o dom da profecia”, “ainda que eu conheça todos os mistérios…” A lista podia continuar: ainda que eu seja catequista, ainda que eu seja um ótimo profissional, ainda que eu seja famoso, ainda que a minha página do Facebook tenha milhares de “likes”… O que nos move na vida? Sejamos honestos connosco próprios: quantas vezes fazemos as coisas para que os outros aplaudam, por vaidade? “Se não tiver caridade, de nada me aproveita”. Duras, estas palavras! Podemos correr a vida inteira na direção errada. Pois só o amor é “um caminho de perfeição que ultrapassa tudo” e nos conduz ao Céu.

Mas saberemos nós o que é, realmente, o amor? Para lá do sentimento, para lá do instinto que une pais e filhos, para lá da paixão que une homem e mulher, existe outra coisa que se chama amor e que nunca acabará. O amor, diz Paulo, “tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.” Tudo? O amor “não se irrita, não guarda ressentimento, não procura o seu próprio interesse, não é orgulhoso…” Utopia? Realidade plena em Jesus Crucificado, que se reflete, como num espelho baço, em cada santo. Num mundo imperfeito, poucos alcançarão este grau de amor. Mas não desanimemos, porque Deus aperfeiçoa os nossos esforços e completa as nossas obras, levando-as à plenitude na eternidade: “Quando vier o que é perfeito, o que é imperfeito desaparecerá”.

Hora da missa. Nenhum de nós veio aqui por acaso. Viemos porque escutámos no mais profundo da nossa alma o chamamento primeiro que nos fez viver, que nos consagrou e nos constituiu profetas: “Levanta-te!” Viemos contemplar o maior dos milagres, ainda que nada entendamos do drama que se desenrola diante de nós. “Agora vemos como num espelho de maneira confusa”, mas sabemos que “depois veremos face a face”…

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