Em Caná da Galileia...


Domingo V da Quaresma, ano C

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

“VAI E NÃO TORNES A PECAR”

“Só penso numa coisa: esquecendo o que fica para trás, lançar-me para a frente, continuar a correr para a meta…” A meta está à porta! É preciso apressar o passo, como Paulo, e trabalhar a sério na nossa santificação. Domingo é um bom dia para o fazer!

O Evangelho fala-nos de uma mulher apanhada em flagrante adultério. Os escribas e os fariseus tinham aqui boa matéria para testarem Jesus. Se concordasse com a lapidação, estaria a faltar à misericórdia que tanto pregava; se absolvesse a adúltera, estaria a contradizer a Lei de Moisés. Assim, de pedras na mão, esperaram pela resposta do Mestre.

“Mas Jesus inclinou-Se e começou a escrever com o dedo no chão.” Estranho comportamento, que o evangelista não explica, mas que o impressionou a ponto de o registar aqui… Penso de imediato na passagem do Êxodo: “Depois de ter acabado de falar a Moisés no monte Sinai, Deus entregou-lhe as duas tábuas do testemunho, tábuas de pedra, escritas com o seu dedo.” (Ex 31, 18) O mesmo Deus que escreveu a Lei na pedra, para que nunca passe, escreve agora os nossos pecados no pó, para que com um só gesto os possa apagar para sempre.

“Quem de entre vós estiver sem pecado atire a primeira pedra”, diz por fim. Se aquela mulher era pecadora, os seus acusadores não o eram menos. Confrontados assim com o seu próprio pecado, todos acabaram por deixar cair as pedras com que queriam atingir a adúltera – e as pedras com que, interiormente, queriam atingir Jesus. Que belíssima lição para nós, que nunca deixamos cair por completo as pedras que temos nas mãos! Quantas vezes atingimos com elas os nossos irmãos, matando-os com palavras, com olhares, com a nossa incapacidade de perdoar!

Por fim, “ficou só Jesus e a mulher”, a misericórdia e a miséria, como tão bem exprimiu Santo Agostinho. Um em frente do outro, sem mais ninguém. É já a antecipação do confessionário, onde cada um é chamado a encontrar-se pessoalmente com a infinita misericórdia do Senhor. “Nem eu te condeno”, diz o Único que não tinha pecado. “Como torrentes no deserto”, uma onda gigantesca de misericórdia cobriu de imediato o pó onde o gravíssimo pecado daquela mulher estava escrito, e tudo ficou apagado. “Fui alcançado por Cristo Jesus”, diz Paulo, e terá pensado a adúltera.

Nunca o Senhor nos condenará ou apedrejará, antes nos alcançará com a sua infinita misericórdia para apagar o nosso pecado, como “rios na terra árida” que tudo lavam. “Não vos lembreis mais dos acontecimentos passados”, insiste, em Isaías. Quando Deus perdoa, ao contrário de nós, Deus esquece, e nunca mais nos recordará o pecado perdoado. Nunca!

Mas a Palavra de Jesus não termina aqui. Há ainda uma outra frase, a frase que repetia a todos a quem perdoava os pecados: “Vai e não tornes a pecar.” Jesus perdoa, sim, e perdoa tudo, mas é preciso, primeiro, que estejamos verdadeiramente arrependidos; e depois, que tenhamos o firme propósito de não voltar a pecar. Sem estas duas condições, diz-nos a doutrina, o sacramento da confissão é inválido. Quantas vezes nos aproximamos do confessionário, rotineiramente, para nomear pecados que não temos qualquer intenção de abandonar! Abusamos descaradamente da misericórdia do Senhor, que ama infinitamente o pecador mas, exatamente por isso, detesta o pecado, que nos fere e mata.

De um tempo em que tudo era pecado, passámos para um tempo em que nada é pecado. Paradoxalmente, ao contrário dos grandes santos, que tratavam os seus pecados pelos nomes, nós achamo-nos impecáveis, procurando na psicologia desculpas para qualquer comportamento menos correto. A catequese da maioria dos cristãos terminou quando terminou a infância, pelo que a sua noção de pecado é uma noção infantil, que precisa urgentemente de ser aprofundada. Só cresce em santidade quem cresce na consciência do seu ser pecador.

“Vai e não tornes a pecar.” Será possível, não tornar a pecar? “Não que eu tenha já chegado à meta, ou já tenha atingido a perfeição. Mas continuo a correr”, diz Paulo. O que conta, para Deus, é o propósito de emenda, a firme decisão de cortar com o pecado e de “alcançar a meta”, levantando-nos depois de cada queda e retomando a “corrida”. De confissão em confissão, de propósito em propósito, imitemos Paulo, que só pensava “numa coisa: esquecendo o que fica para trás, lançar-me para a frente, continuar a correr para a meta.” Ai do dia em que nos convencermos de que já chegámos! Ai do dia em que nos acomodarmos ao pecado, deixando de trabalhar pela nossa santificação! Enquanto não nos sentirmos miseráveis, não nos deixaremos alcançar pela misericórdia do Senhor…

Hora da missa. Aquele que nunca atirou uma pedra, foi atingido de morte pelas pedras dos nossos pecados… Estamos aqui porque fomos alcançados pelas torrentes de vida que brotam das suas feridas. Quando me decidirei definitivamente por Ele? Quando considerarei “tudo como lixo”, como Paulo, abandonando o apego que ainda tenho ao pecado, “para ganhar a Cristo e n’Ele me encontrar”?…

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