Em Caná da Galileia...


Domingo V de Páscoa, ano C

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

QUAL O INGREDIENTE?

As leituras destes dias pascais lançam-nos nos tempos que hoje vivemos, entre o “já” da ressurreição e o “ainda não” da felicidade eterna, entre a omnipresença de Jesus na nossa vida e a sua aparente ausência de tantos momentos.

“Quando Judas saiu do Cenáculo…” O Evangelho começa com esta triste introdução. O desenvolvimento natural, que esperaríamos de um qualquer outro evento dramático que se iniciasse com uma traição, seria algo como “Jesus entristeceu-se”, ou “o medo instalou-se”. Em vez disso, “…disse Jesus aos seus discípulos: «Agora foi glorificado o Filho do homem.»” Que paradoxo! Mas na lógica divina, esta é a única conclusão possível. Porque a paixão de Jesus, que se inicia com a traição de Judas, é também a sua glorificação. Em Jesus, paixão e ressurreição, sofrimento e glória, são duas faces da mesma moeda. Não se chega à ressurreição sem se passar pela paixão, não se chega à glória sem se passar pelo sofrimento.

S. Paulo explica-o com muita simplicidade aos cristãos que vai fazendo nascer: “Temos de sofrer muitas tribulações para entrarmos no reino de Deus.” E ao longo de vinte séculos de História da Igreja, o que não faltam são modelos de cristãos, alcançando a glória da santidade na exata medida em que abraçaram a sua cruz. Que a felicidade autêntica possa brotar do sofrimento, provam-no estas palavras de Santa Teresinha, numa carta a um sacerdote: “Pergunto-me, às vezes, como me será possível ser feliz na eternidade sem sofrer. Jesus, sem dúvida, transformará a minha natureza, pois de outro modo eu sentiria saudades do sofrimento deste vale de lágrimas.”

Sim, certamente que Jesus “transformou a natureza” de Teresinha e de todos os que já alcançaram a Pátria, de acordo com o Apocalipse: “Deus enxugará todas as lágrimas dos seus olhos; nunca mais haverá morte nem luto, nem gemidos nem dor…” As últimas palavras de Santa Gianna Molla, que deu a vida aos 39 anos para que o seu quarto bebé pudesse nascer, são muito parecidas. Em plena agonia, alternando momentos de consciência e inconsciência, Gianna disse por fim: “Pietro, agora estou curada. Pietro, eu já estava do lado de lá, se tu soubesses o que vi! Um dia to direi. Mas, como nós éramos demasiado felizes, estávamos demasiado bem com os nossos meninos maravilhosos, cheios de saúde e de graça, com todas as bênçãos do Céu, mandaram-me cá para baixo para ainda sofrer, porque não é justo apresentar-se ao Senhor sem muitos sofrimentos.”

Assim, “com muitos sofrimentos”, se adorna “a noiva para o seu esposo”, a Jerusalém, a cidade santa – a Igreja, em cada um dos seus filhos, tu e eu também!

E qual o ingrediente que permite transformar a paixão em ressurreição, o sofrimento em glória? Depois da saída de Judas, e na tensão crescente do seu testamento espiritual, Jesus revela-o aos discípulos. E eles acolhem a revelação com a concentração de quem sabe que o tempo se está a esgotar – “é por pouco tempo que ainda estou convosco”, diz Jesus – e que o coração e a memória de cada um são tudo o que possuem para registar esta última vontade do seu Senhor. O ingrediente? O amor: “Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei.” E como ama Jesus? Dando a vida. Assim aprenderam os Apóstolos e todos os santos, até hoje. Para os cristãos, amor rima sempre com dor.

É este amor até ao fim que transforma os discípulos em missionários, numa ânsia incontida de conduzir a todos à felicidade da ressurreição. O testamento espiritual de Jesus tinha destinatários em todo o mundo, e os Apóstolos não pouparam esforços para o fazer chegar a quem o queria receber. Foram milhares de quilómetros palmilhados, por estradas perigosas, por mar e por terra, para que a Palavra de Jesus chegasse até nós. Os Atos dos Apóstolos são um autêntico livro de aventuras divinas, que vale a pena ler e contar lá em casa, para contagiar de alegria, coragem, confiança e fé cada geração de crentes!

Em cada comunidade, depois de rezarem e jejuarem (talvez não estejamos, hoje, a dar a devida atenção a este binómio…), Paulo e Barnabé escolhiam “anciãos”, que em grego se diz “presbíteros” e, impondo-lhes as mãos, comunicavam-lhes o Espírito Santo.  A nossa Igreja é Apostólica, porque o Espírito foi sempre transmitido pessoalmente, dos Apóstolos até ao mais humilde sacerdote dos nossos dias. Glória ao Senhor!

Hora da missa. Como é bela, a missa em tempo pascal! O incenso, as vestes brancas, os cantos solenes, a alegria, a luz, tudo nos faz mergulhar no Apocalipse, onde a Nova Jerusalém adora o Cordeiro Imolado, o Amor encarnado, crucificado, ressuscitado. Estaremos nós adornados, como “a noiva para o seu esposo”, prontos para celebrar as Bodas do Cordeiro? E estaremos nós a trabalhar a sério para que esta “noiva” seja cada vez mais bela? Se o Apocalipse é o livro da esperança, fazendo-nos desejar “já” o que “ainda não” chegou, os Atos dos Apóstolos são o nosso programa de missão, lançando-nos no mundo para a todos levar o Mandamento Novo de Jesus… Aleluia!

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