Em Caná da Galileia...


Domingo VI do Tempo Comum, ano C

ESCOLHAS

Neste domingo, o Senhor coloca diante de nossos olhos dois caminhos opostos. Teremos já feito a nossa escolha definitiva, ou ainda hesitamos?

Descendo do monte, Jesus reúne os Apóstolos e a multidão na planície. E é aí que propõe o seu caminho de felicidade, a que chamamos o Bilhete de Identidade dos cristãos: as Bem-aventuranças. Lucas fala-nos em quatro, e não nas oito de Mateus. E que quatro! “Bem-aventurados vós, os pobres… vós, que agora tendes fome… vós, que agora chorais… Bem-aventurados sereis, quando os homens vos odiarem…” Podemos entender as Bem-aventuranças segundo S. Mateus – bem-aventurados os mansos, os construtores da paz, os puros, os que têm fome e sede de justiça, os pobres em espírito. Mas Lucas não nos apresenta a fome ou a pobreza em sentido figurado. Lucas fala em pobreza real, em fome real! Acredito que seja intencional – da parte do Divino Autor – esta diferença entre os dois relatos evangélicos. Porque as bem-aventuranças não são só para os que se fazem solidários dos que choram, ou para os que escolhem livremente a pobreza, mas para os que de facto choram e são pobres. Como nos podemos sentir abençoados vivendo assim?

Escrevo este texto na festa de Santa Bakhita, essa magnífica santa negra, padroeira do Sudão e das vítimas de tráfico humano, que morreu em 1947, portanto, já próximo de nós. Raptada aos nove anos, Bakhita foi escrava até aos vinte, e sofreu torturas que arrepiam só de as lermos. Com vinte anos, Bakhita descobriu o Senhor através do testemunho das Irmãs Canossianas, em Itália, onde vivia com os seus novos donos. Para sua grande surpresa, o Deus que as Irmãs lhe apresentaram tinha sofrido maus-tratos muito semelhantes aos seus! E esse Deus amava-a, a ela, pobre escrava! Bakhita recebeu o batismo, tornou-se religiosa e viveu cinquenta anos numa intensa felicidade, servindo e amando. Quando, no fim da vida, lhe perguntaram como reagiria se encontrasse os seus raptores, respondeu: “Ajoelhar-me-ia para lhes beijar as mãos, pois se não me tivessem raptado, eu hoje não seria cristã e religiosa.”

A história de Bakhita e as Bem-aventuranças do Evangelho de Lucas dizem-nos que a felicidade não depende das nossas circunstâncias. A felicidade está no encontro com o Senhor. Se unirmos as nossas dores às do Crucificado, podemos chorar, passar fome, ser perseguidos e maltratados, que nada nos poderá magoar. Sabemos que Ele nos ama, e por isso, tudo o que permite na nossa vida está – misteriosamente – bem. Como diz Jeremias, somos “como a árvore plantada à beira da água, que estende as suas raízes para a corrente: nada tem a temer quando vem o calor.”

Nem sempre as nossas histórias terão o final feliz da história de Bakhita. Algumas histórias só serão transfiguradas na eternidade. Em Lurdes – que celebramos também este mês – Nossa Senhora disse a Bernardete: “Prometo fazer-te feliz, não nesta vida, mas na outra.” As bem-aventuranças contrastam o sofrimento presente – “agora” – com a felicidade futura, expressa no tempo verbal: “sereis saciados, haveis de rir…” É preciso acreditar profundamente no Amor, para aceitar algumas realidades! A felicidade completa pertence ao Céu.

Por isso, S. Paulo lamenta que haja cristãos sem fé na eternidade: “Se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé.” Cristãos que não acreditam na ressurreição? Se fizéssemos um curto inquérito no final das missas dominicais, teríamos certamente uma surpresa desagradável…

S. Paulo não tem dúvidas: “Se é só para a vida presente que temos posta em Cristo a nossa esperança, somos os mais miseráveis de todos os homens”. Jeremias compara tais pessoas a cardos que crescem na aridez do deserto. E Jesus avisa: “Ai de vós!” Porque se a nossa felicidade deixa de ter como horizonte a eternidade, ela passa a depender das nossas circunstâncias. Assim, seremos felizes se formos ricos, poderosos, famosos, influentes, se tivermos corpos perfeitos, vidas de sonho. Mas não é tudo isso “palha que o vento leva”, como diz o salmista?  Quantas pessoas, e infelizmente, quantos cristãos, fazem a sua felicidade depender do número de “likes” da sua página de Facebook? “Ai de vós, quando todos os homens vos elogiarem!” Se não agradam, logo se afogam na tristeza. E contudo, têm uma vida bem mais folgada que Bakhita.

Hora da missa. Estamos aqui, porque fizemos a nossa escolha entre dois caminhos: recusando seguir pelo beco sem saída que termina na morte, escolhemos o caminho do Crucificado, que conduz ao Céu. Trazemos ao altar a nossa vida tal qual ela é, com alegrias e tristezas. Às vezes trazemos um coração partido, ou um sonho desfeito.  Desde que façamos a vontade de Deus, que nos importa o resto? Mergulhamos a nossa vida no  Sangue do Salvador, qual gotinha de água que o sacerdote mistura no vinho do cálice. Sabemos que, se formos fiéis, o Crucificado nos fará ressuscitar com Ele para a felicidade eterna. Somos realmente bem-aventurados!

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