Em Caná da Galileia...


Domingo VII do Tempo Comum, ano C

SÓ A MISERICÓRDIA ROMPE O CICLO DA VIOLÊNCIA

“O Senhor é clemente e compassivo, paciente e cheio de bondade”, cantamos no salmo deste domingo. Seremos nós assim também? Deixemos que a Palavra desça da mente ao coração, do coração à vida, para sermos realmente “filhos do Altíssimo”.

As histórias do Rei David são como pequenos capítulos de um livro de aventuras juvenil, capazes de entreter, divertir, enternecer, fazer chorar e, por fim, – porque é de Bíblia que falamos – fazer entrar em diálogo com o seu divino Autor. O episódio de hoje conta-nos mais uma aventura entre David, o jovem pastor, e Saul, o rei ciumento que governaria durante mais alguns anos. Saul perseguia David de morte, e David, como os grandes heróis de todos os tempos, fintava-o com astúcia e saía sempre vitorioso.

Rei David, no dia de Holywins

No capítulo de hoje, David tem a oportunidade de matar Saul, que encontra “deitado a dormir no acampamento, com a lança cravada na terra à sua cabeceira.” A tentação é grande. É interessante ver como o seu companheiro procura convencer David a matar Saul, fazendo-o acreditar que tal encontro era fruto da Providência: “Deus entregou-te hoje nas mãos o teu inimigo”, afirmou. Quantas vezes justificamos os nossos atos com desculpas parecidas? Gostamos de invocar Deus para fazer o bem, mas também para fazer o mal – o chamado “mal menor” – sem nos darmos conta de que, fazendo-o, estamos a violar o segundo mandamento da Lei de Deus: “Não invocarás o nome de Deus em vão!” Foi assim que, ao longo dos séculos, se justificaram “guerras santas”, penas de morte, caças às bruxas e muitas outras violações do mandamento “não matarás!” David é mais perspicaz do que o seu companheiro na contemplação do mistério divino, e vê nesta coincidência, não a oportunidade dada por Deus para matar alguém, mas a oportunidade dada por Deus para exercer a misericórdia: “Não o mates. Quem poderia estender a mão contra o ungido do Senhor e ficar impune?”

No Evangelho, Jesus substitui a expressão “ungido do Senhor” por “todos os homens”, amigos ou inimigos, familiares ou desconhecidos. E resume em curtos aforismos o que a atitude de David ilustrou e o que mais tarde, a Cruz levará à perfeição: “Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam; abençoai os que vos amaldiçoam, orai por aqueles que vos injuriam.” Só a misericórdia rompe o ciclo da violência, pois como dizia alguém, a lei do “olho por olho e dente por dente” faz apenas com que todos terminem zarolhos e desdentados. Por fidelidade ao Evangelho, o Papa Francisco ordenou recentemente a revisão do artigo do Catecismo que justificava a pena de morte em alguns casos, para a considerar sempre inaceitável.

“Ninguém viu, ninguém soube, ninguém acordou”. Se ninguém vir, podemos fazer? Cá em casa, quando converso com os meus filhos sobre o bem e o mal, para os ajudar a distinguir costumo aconselhar: se sentes vergonha (não pudor, porque o pudor é bom) de praticar tal ação diante dos outros, é melhor não a praticares de todo, pois o mais natural é ela ser pecaminosa. Ao contrário de Adão e Eva, convencidos de que se podiam esconder de Deus, David estava ciente de que “Deus te vê”, como o Papa Francisco costuma dizer, recordando as palavras da avó.

A magnanimidade de David e de todos os que agem como ele, praticada às escuras ou à luz do dia, não fica esquecida por Deus. “Será grande a vossa recompensa.” Mais: segundo a Palavra de Jesus, seremos julgados de acordo com a magnanimidade que demonstrámos para com o próximo. “Não julgueis e não sereis julgados. Não condeneis e não sereis condenados. Perdoai e sereis perdoados.” Tão simples, afinal! Queremos caminho mais fácil para o Céu? E no entanto, quão difícil, na prática, se torna esta misericórdia para com o próximo! De manhã à noite, condenamos, julgamo-nos melhores do que os outros, remoemos e relembramos com revolta as ofensas recebidas…

“A medida que usardes com os outros será usada também convosco.” Como é a medida que usamos? Damos também a túnica a quem nos pede a capa, ou somos mesquinhos no tempo que oferecemos ao irmão, na ajuda que prestamos? “Ao que levar o que é teu, não o reclames.” Mesmo que seja dinheiro? “Se emprestais àqueles de quem esperais receber…” Mas não é assim que funciona tudo na sociedade? Alarguemos a medida que usamos com os outros, sejamos capazes de deitar no regaço do irmão “uma boa medida, calcada, sacudida, a transbordar”, medida de perdão, de tempo, de escuta, de auxílio, de generosidade a toda a prova. E o Céu será nosso.

Hora da missa. Sobre o altar, está Aquele que nos ama até morrer por nós, e que nos ama apesar da quantidade de vezes que O magoamos. Eis o “homem celeste” de que fala S. Paulo! De comunhão em comunhão, aprendemos a imitá-l’O. “Traremos também em nós a imagem do homem celeste”… “Ele perdoa todos os teus pecados e cura as tuas enfermidades”, canta o salmo. E acrescenta: “Não nos tratou segundo os nossos pecados.” Como é magnânima, a medida que o Senhor usa para connosco! Bendiz, ó minha alma, o Senhor!

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2 Comments

  1. Pilar Pereira

    Gostei de ler, em particular a reflexão sobre a oportunidade dada por Deus para “matar o inimigo” ou para “exercer a magnanimidade”. De facto, cada momento da vida (ou quase) proporciona uma ocasião de escolha… “Dou a resposta que me está a queimar os lábios, e que é ‘certeira’ e ‘justa'”, ou “calo-me e aceito que me tenha sido feito um comentário injusto”?, por exemplo…

  2. Catarina Silva

    Esta é sempre uma das minha grandes lutas: Saber quando calar e quando falar.
    A escolha mais pacifica seria sempre calar a resposta “certeira e justa que me queima os lábios” (como bem diz a Pilar)… Mas, será que ao calar não estou a compactuar com a injustiça? Será que não estou a perder uma oportunidade de corrigir uma coisa errada? Será que o Senhor, não me pedirá contas por ter calado algo injusto? Sobretudo se foi algo dirigido a alguém que não a mim?
    Duvidas…as minhas eternas duvidas…Não imaginam o que me fazem pensar!

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