Em Caná da Galileia...


Domingo VIII do Tempo Comum, ano C

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

COMO USAMOS AS PALAVRAS?

A Palavra deste domingo fala-nos da palavra – não a de Deus, mas a nossa. Que valiosa ela é! Como a temos usado?

“A boca fala do que transborda do coração”, diz-nos Jesus no Evangelho, confirmando a afirmação de Ben-Sirá: “As palavras do homem revelam os seus sentimentos.” As palavras são, portanto, frutos, não sementes. Se refletirmos um pouco sobre as palavras que usamos para tecer os nossos pensamentos, orações e conversas, descobriremos de que matéria é feito o nosso coração.

Comecemos então por analisar as palavras com que pensamos. Ao longo de todo o dia, vamos construindo pensamentos, revivendo acontecimentos, narrando a nossa própria história. Serão palavras de gratidão, as que nos povoam a mente? Construímos narrativas felizes, untadas de perdão? Ou pelo contrário, escrevemos mentalmente longos monólogos destrutivos, queixando-nos do nosso próximo, da vida, de Deus?

Quando, distraídos, nos deixamos levar por pensamentos vagos, que palavras se desenham na nossa mente: as do mais recente episódio da telenovela? A dos políticos? A das canções da moda e dos anúncios publicitários? Será que alguma vez nos sobe ao pensamento uma palavra da Escritura, do Evangelho escutado no domingo anterior?

Vejamos depois as palavras que usamos para conversar e o tom de voz que lhes emprestamos. Serão palavras sãs, sinceras, agradáveis? Ou habituámo-nos ao sarcasmo, à crítica destrutiva, à murmuração? E em casa? Falamo-las, ou gritamo-las? Usamo-las para acariciar, ou para atacar? Sabemos escutar as palavras do outro, ou interrompemos continuamente, para que a “última palavra” seja sempre nossa?

Por fim, analisemos as palavras que usamos na nossa oração. “É bom louvar-Vos, Senhor”, diz o salmista. Louvamos o Senhor? Proclamamos a sua bondade, o seu amor fiel? Cantamos-Lhe com alegria?

Analisando as palavras que saem de nós descobrimos, portanto, de que terra é feito o nosso coração: “O fruto da árvore manifesta a qualidade do campo.” De nada adianta, pois, concentrarmo-nos em mudar as palavras. Esforcemo-nos antes por trabalhar esta terra, por a encher de boa semente, por fazer crescer boas árvores, e os nossos pensamentos, orações e diálogos transbordarão com palavras inspiradas e inspiradoras.

Um dos problemas que nos impede de dedicar atenção ao “cultivo da terra” do nosso coração, é a tendência para nos concentrarmos nas falhas e fraquezas dos outros: “Porque vês o argueiro que o teu irmão tem na vista e não reparas na trave que está na tua?” Talvez o façamos com o nosso cônjuge, e essa tendência se tenha transformado num hábito destrutivo do nosso casamento. Ou talvez o façamos na paróquia, sem nos darmos conta de que aqueles que são criticados são-no, precisamente por serem os únicos a fazer alguma coisa e, por isso, a oferecer matéria para crítica. Talvez o façamos em termos latos, em relação à sociedade. Em qualquer dos casos, o tempo não chega para tudo! Assim que retiramos o foco do “argueiro” do outro, podemos então concentrarmo-nos em retirar a “trave” que nos cega e empenharmo-nos em “cultivar” o nosso interior.

Todos nós teremos de prestar contas um dia da forma como perdemos o nosso tempo com os “argueiros” dos outros ou realmente nos dedicámos a cultivar o nosso interior. É que todos somos chamados a guiar alguém no caminho da santidade, e para isso é preciso formação, oração, catequese. “Poderá um cego guiar outro cego?” Pergunta Jesus.

Infelizmente, a maior parte dos católicos não conhece suficientemente a doutrina para servir de guia aos que lhes foram confiados. Por qualquer razão, muitos pais não se sentem responsáveis pela educação religiosa dos filhos, delegando-a nos catequistas. E no entanto, tanto no dia do seu matrimónio, como no dia do batismo de cada filho, afirmaram perante Deus e a Igreja estarem decididos a educar os filhos na fé católica.

O que aconteceu entretanto, para ofuscar aos olhos dos pais a sacralidade de tal tarefa? Viveremos de tal modo embrenhados no mundo, preocupados em criar os nossos filhos para que tenham sucesso diante dos homens, que nos esquecemos de que a nossa pátria é o Céu? Santa Zélia Martin, mãe de Santa Teresinha, escrevia nas suas cartas que criava as suas filhas para o Céu, não para a Terra. Tal afirmação devia ser natural para qualquer pai ou mãe cristão. S. Paulo sabe-o, e por isso mesmo, na segunda leitura, continua a falar-nos da ressurreição dos mortos. É realmente preciso insistir nesta verdade, não só junto dos Coríntios de então, mas sobretudo junto dos cristãos de agora!

Hora da missa. As Palavras que vamos escutar, como todas as palavras, brotam de num coração. Mas não de um coração qualquer: brotam do Coração de Deus. Viemos aqui para nos alimentarmos delas, porque o Amor irá transformá-las em Pão. Então poderemos permanecer “firmes e inabaláveis, cada vez mais diligentes na obra do Senhor, sabendo que o nosso esforço não é inútil no Senhor”, porque tudo será recompensado no Céu…

3 Comments

  1. Catarina Silva

    Gostei tanto, mas tanto desta reflexão!
    Sinto tanto o peso desta responsabilidade: a de guiar uma família inteira no caminho da santidade… tenho tanto receio que se percam e das contas que terei de prestar a Deus se isso acontecer… Por favor rezem por nós!

  2. GOSTEI MUITO DESTA LEITURA.
    Creio que é muito oportuna e necessária junto das famílias.
    Continuem a “dar de graça o que de graça receberam” segundo o convite do Senhor.
    Votos dum bom e santo apostolado. Obrigada M. Rosa

  3. Célia de Jesus

    Gostei muito! Obrigada!

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