Em Caná da Galileia...


Domingo XV do Tempo Comum, ano B

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Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

HABITUADOS A COMPLICAR

O Hino de S. Paulo aos Efésios, que este domingo nos propõe para meditação e alimento, é das mais belas orações da Bíblia e merece ser rezado com tempo e tranquilidade.

“Bendito seja Deus, (…) que do alto dos Céus nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo.” Vivemos a maior parte das nossas vidas ignorantes em relação às bênçãos que a toda a hora recebemos do Senhor. São tempestades de graças, e nós de guarda-chuvas abertos… Acolhemos e agradecemos tão pouco!

“N’Ele nos escolheu, antes da criação do mundo”, continua S. Paulo. Será que acreditamos mesmo neste amor individualizado, absoluto e singular que Deus nos tem e que precede a própria criação do Universo? Acreditamos que fomos amados e predestinados a ser filhos antes que uma só estrela existisse?

S. Paulo assegura-nos que existimos porque fomos chamados por Deus “para sermos santos e irrepreensíveis”. Perante a grandeza do amor divino e a imensidade da Criação, que outra resposta podemos de facto dar senão a santidade? O Papa Francisco acaba de nos lembrar esta nossa vocação primordial com a sua Exortação sobre a santidade. Procuremos lê-la este verão, aspirando à beleza e harmonia da nossa alma enquanto contemplamos, gratos, a beleza e harmonia de cada flor, de cada praia, de cada onda, de cada estrela criadas por Deus! Porque se todo o universo, diz-nos o Apóstolo, deve louvar o Senhor, o homem que Ele criou deve fazê-lo com bem maior consciência e determinação, visto só ele ter sido salvo pelo sangue de Jesus. “N’Ele, pelo seu sangue, temos a redenção, a remissão dos pecados.”

Chamados pelo Senhor a sermos filhos, somos também chamados a profetizar, anunciando este amor eterno e denunciando os caminhos que conduzem à perdição. Assim fez o profeta Amós, contrariando o rei, que não gostou de ver denunciadas as suas injustiças. O próprio sacerdote oficial do reino instou Amós a profetizar coisas mais agradáveis, mas Amós não cedeu. Como podia ele falar outra coisa que não as Palavras do Senhor, se não foi pela vontade dos homens, mas de Deus, que se tornou profeta? “Foi o Senhor que me tirou da guarda do rebanho e me disse: «Vai profetizar ao meu povo de Israel»”, explica. O seu patrão não é o rei, mas o próprio Deus, que o convocou, e a Deus só deverá obedecer, custe o que custar e doa a quem doer. Faz lembrar Santa Bakhita, a escrava que, depois de uma vida de abusos, descobriu em Deus o único “patrão” verdadeiramente justo e amigo, de quem vale a pena tornar-se escravo. E numa contradição típica do Evangelho, ao tornar-se “escrava do Senhor”, Bakhita encontrou a liberdade. Assim Amós, libertado interiormente ao recusar alianças com o mundo.

Não faltam hoje também profetas da mesma têmpera de Amós, que têm no Senhor o seu único “patrão”. Mas a grande maioria dos crentes vive de cedências, procurando “agradar a Deus e ao diabo”, fazendo alianças com o mundo e evitando a radicalidade. Que o profeta Amós interceda por nós!

Também o Evangelho nos convoca para a missão, com uma frescura encantadora. Chamando os doze Apóstolos, Jesus envia-os dois a dois – em comunidade – revestidos de humildade e alegria. E é precisamente não levando nada de supérfluo consigo que os Apóstolos carregam o maior poder sobre a Terra: o poder do amor.

O nosso mundo atual está habituado a complicar. Na nossa ânsia de fazer as coisas bem feitas, multiplicamos protocolos, formulários, conferências e milhentas outras coisas. Projetando na Igreja o modo de proceder do mundo, quantas vezes complicamos a evangelização! E se de repente todos nós, cristãos, nos sentíssemos verdadeiramente enviados? E se de repente, todos nos libertássemos do supérfluo, da segunda túnica, do alforge, do dinheiro, dos títulos e dos protocolos e, com simplicidade, testemunhássemos o poder de Jesus na nossa vida? A revolução que seria!

“Os Apóstolos partiram e pregaram o arrependimento”. Como é difícil, hoje, pregar o arrependimento! Porque mesmo numa assembleia dominical, são poucos os que têm consciência do seu pecado. Vivemos num tempo em que falar em pecado é ser antiquado. Mas como pode alguém arrepender-se se não tomar consciência do seu pecado? Há um grande caminho a percorrer para os Apóstolos de hoje, que precisam da coragem de Amós para denunciar o erro e anunciar a verdade, permitindo assim a todos os que os escutam experimentar verdadeiramente a misericórdia de Deus, essa misericórdia que só experimenta quem se reconhece miserável.

Domingo. Vimos à missa porque queremos dar graças a Deus, como desafia S. Paulo. Melhor ainda, queremos ser “um hino de louvor da sua glória, nós que desde o começo esperávamos em Cristo.” Vimos porque fomos ungidos profetas no dia do nosso batismo e nos sentimos convocados para a missão, neste ano que aí vem e que os nossos bispos desejam que seja particularmente missionário. Depois iremos partir, dois a dois, família a família, vizinho a vizinho, revestidos do poder de Jesus para converter o mundo inteiro…

2 Comments

  1. Catarina Silva

    Tão lindo!
    Amen!

  2. Adoro esta música que está relacionada com as leituras de hoje!
    https://www.youtube.com/watch?v=iDFWvaTXm7Q

    Tenho a certeza de que também vão gostar!
    Beijinhos

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