Em Caná da Galileia...


Domingo XVI do Tempo Comum, ano B

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

UM LUGAR ISOLADO

“O Senhor é meu pastor: nada me faltará!” Assim cantamos neste domingo, rezando com David o belíssimo salmo 23, que muitos conhecemos de cor. São Palavras para repetir baixinho, no silêncio do coração, nos momentos de alegria como de dor, nos momentos de consolação como de desolação: “Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos, não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo.” Este verso é, de facto, o nosso Credo, nós que dizemos acreditar no Amor. Porque se Deus nos ama, que nos importa o resto? Se Deus nos ama, por que nos angustiamos, por que nos revoltamos com as circunstâncias da vida, esta “noite mal dormida numa hospedaria desconfortável”, como Teresa d’Ávila chamava à nossa breve passagem pela Terra? “Habitarei na casa do Senhor para todo o sempre.” Eis a nossa esperança, que nos deve encher de felicidade em todos os momentos.

O diálogo amoroso com Jesus, nosso Pastor, ensinando-nos a confiar e a esperar serenamente no seu Amor, prossegue no Evangelho, quando os Apóstolos voltam para junto de Jesus depois da missão a que Ele os enviara. Vieram e “contaram-Lhe tudo o que tinham feito e ensinado.” Não é isto, a oração? Contar a Jesus aquilo que Ele já sabe, mas que anseia escutar de nós? Deus tem os ouvidos colados à nossa boca, à espera da nossa partilha, do nosso desabafo, das nossas palavras de amor. Quantas vezes perdemos o mérito do nosso sofrimento e das nossas batalhas, ao falar deles a toda a gente, chamando a atenção sobre nós mesmos, em vez de os contar apenas a Jesus! Jesus costuma ser a última pessoa a escutar os nossos desabafos, quando devia ser a única. Não é isso que nos ensinam os santos?

“Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco”, responde o Senhor aos discípulos, tão cansados quanto entusiasmados. Há um lugar isolado onde podemos descansar diariamente: diante do sacrário. Aí estamos a sós com Jesus, que é todo ouvidos, que é todo para nós. Aí podemos descansar das batalhas da vida e recuperar forças. Bastam uns minutos por dia, e tudo fica transformado!

Algumas vezes por ano, este diálogo íntimo com o Senhor precisa de ser alongado. Façamo-lo nos tempos litúrgicos fortes, mas façamo-lo também agora no tempo de férias que nos é ou será concedido. “Um lugar isolado”, diz o Senhor. Não se refere certamente aos centros comerciais, às discotecas, aos grandes ajuntamentos de pessoas! Procuremos, em férias, ter algum tempo nalgum “lugar isolado”, em família. Porque o Senhor fala no silêncio, nas horas de contemplação da Criação exuberante que nos oferece, e podemos escutar a sua Palavra no som cavo do mar, nos gritos das gaivotas, no chilrear de milhares de passarinhos sobre os campos floridos, no cantarolar de um riacho, no eco de uma montanha.

Jesus e os Apóstolos partiram para o tal lugar isolado, mas o seu descanso durou o tempo da viagem, pois “ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão” que viera para O escutar e O tocar. E logo Se compadeceu.

Ser Apóstolo significa viver nesta tensão entre o descanso e o trabalho, entre oração e evangelização. Rezar transforma o coração, que se torna, como o de Jesus, compassivo. E um coração compassivo vive para os outros, sofre com os outros, dá-se aos outros. A oração no lugar isolado conduz-nos necessariamente ao trabalho no meio da multidão.

Neste domingo, portanto, não somos apenas chamados a confiar no Pastor, seguindo-O para o deserto e de novo para a cidade; somos também chamados a pastorear os nossos pequenos rebanhos, não deixando que morram de fome ou vivam “como ovelhas sem pastor”, sacrificando por eles o tempo, os bens, o descanso – e a vida.

Na Primeira Leitura, o profeta Jeremias fala-nos da repugnância que o Senhor sente diante dos pastores “que perdem e dispersam as ovelhas do (seu) rebanho”. Não tenhamos dúvidas: todos nós teremos de dar contas a Deus da forma como cuidámos das ovelhas que nos confiou. Muitas ou poucas, todos temos ovelhas que dependem de nós para encontrar pastagens verdejantes e serem protegidas dos animais selvagens. Estaremos a fazer o nosso trabalho? Ou deixamos as ovelhas dispersar?

S. Paulo explica aos Efésios que tipo de pastor foi Jesus: para reunir todas as ovelhas dispersas num só rebanho, fazendo “de judeus e gregos um só povo”, Jesus deu a vida: “Foi em Cristo Jesus que vós, outrora longe de Deus, vos aproximastes d’Ele, graças ao sangue de Cristo.” Ser pastor ao jeito de Jesus é amar até ao fim, procurar a ovelha perdida nos confins do mundo, dar por ela a vida se preciso for.

Naquele tempo, “vendo-os afastar-se, muitos perceberam para onde iam; e de todas as cidades, acorreram a pé para aquele lugar e chegaram lá primeiro que eles.” Domingo. Também nós já percebemos para onde Jesus vai. E das nossas casas acorremos à igreja, a pé ou de carro, e chegamos lá primeiro, porque não O queremos fazer esperar. Ele vai desembarcar e compadecer-Se de nós, que somos como ovelhas sem pastor. E há-de ensinar-nos muitas coisas…

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