Em Caná da Galileia...


Domingo XVIII do Tempo Comum, ano B

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Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga. 

Esta reflexão regressa no final de agosto.

PEQUENOS E GRANDES MILAGRES DE CADA DIA

Neste domingo somos carinhosamente conduzidos ao deserto, esse lugar de desolação onde Deus Se revela na sua providência amorosa. Como Israel, deixemo-nos levar.

No deserto, falta tudo. Caminhando entre a areia escaldante e o céu azul, o homem que por ali passa é atraído irresistivelmente para cima, para um Deus Uno como una é a paisagem que o rodeia. Assim, o deserto é o lugar ideal para crescer na fé e aprender a amar o Senhor. Deus bem sabe o que faz!

Perante esta escassez de tudo, o povo de Deus, recentemente libertado do Egito, sentiu saudades da terra de escravidão. No Egito, ao menos, tinha carne e pão em abundância! Era preferível ser um escravo bem alimentado do que um homem livre com fome, concluiu. E assim concluímos nós também muitas vezes: preferimos servir o mundo, escravos dos seus esquemas de poder, da moda, da opinião dos outros, do dinheiro, dos horários que nos são impostos, escravos até do ódio, da inveja, do ciúme, da rivalidade, da vontade de vingança, do que servir o Senhor, assumindo por sua causa, quantas vezes, uma despromoção no emprego, o riso dos colegas, falta de dinheiro, de influências, de poder ou de glória.

Assim diz S. Paulo aos Efésios: “Não torneis a proceder como os pagãos, que vivem na futilidade dos seus pensamentos.” E ainda: “É necessário abandonar a vida de outrora e pôr de parte o homem velho, corrompido por desejos enganadores.” As “panelas de carne do Egito” são tão atraentes! Mas os cristãos são chamados a renunciar a elas, conscientemente, sabendo que um homem livre – o homem novo – vale mais do que um homem rico, poderoso ou bem alimentado – o homem velho.

Muitos de nós, contudo, continuamos a achar que é possível conciliar o homem velho e o homem novo, as panelas de carne do Egito e a fé do deserto. Não é isso que muitos cristãos procuram nas seitas que cada vez são mais abundantes? As promessas das seitas são de felicidade terrena, de riqueza, de negócios prósperos, de saúde constante, de milagres pomposos a troco de avultadas somas de dinheiro.

Nada que Jesus não tenha denunciado já no seu tempo, como nos diz hoje o Evangelho. Jesus multiplicou os pães e os peixes, num gesto que pretendia demonstrar a força da partilha, a grandeza dos pequeninos. Mas o povo não reparou em nada disso: para a maioria dos que assistiram ao milagre, o importante era a barriga cheia. Jesus era o homem do alimento fácil e, consequentemente, do dinheiro, do poder, da riqueza e da glória fáceis. Que desilusão para o Senhor, quando Se deu conta da interpretação errónea do seu milagre! Que desilusão para o Senhor hoje também, quando no deserto em que vivemos, murmuramos contra Ele, acusando-O de nos deixar morrer de fome!

Mas mesmo desiludido, o Senhor não nos abandona, como não abandonou os hebreus no deserto. No momento de maior desespero, sobre a areia caíram codornizes, e de madrugada o povo descobriu uma substância granulosa a que chamou “maná”. Ambos os fenómenos são conhecidos ainda hoje dos povos beduínos: as codornizes deixam-se facilmente apanhar em algumas alturas do ano, cansadas do seu voo migratório, e sobre a areia forma-se algo que se julga ser maná. Mas façamos justiça ao povo de Deus, que apesar de pecador, soube manter uma fé inabalável: os hebreus atribuíram imediatamente a Deus a origem de tal alimento. Aquele alimento era “pão do céu”. E como tudo o que é dom de Deus, não podia ser armazenado. O nosso Deus não gosta de celeiros cheios, querendo-nos antes dependentes da sua providência, confiantes que Ele mesmo nos dará, em cada momento, a saúde, o alimento e o tempo de que precisamos – e não mais do que o que precisamos, pois tudo o que é em excesso pertence aos irmãos.

E nós? Nos momentos difíceis, deixamo-nos afundar no medo do futuro, ou mantemos a fé? Quando a vida nos corre bem, quando o dinheiro chega até ao fim do mês, quando um amigo nos faz um favor, quando recebemos uma notícia alegremente inesperada, ficamos inchados de orgulho, ou atribuímos ao Senhor o milagre? Aprendamos com Israel a ler a História do mundo e da vida através da providência de Deus, e ficaremos surpreendidos com a quantidade de pequenos e grandes milagres em cada dia.

Domingo. Hora da missa. As histórias longínquas de um povo de fé chegam até nós pela Palavra que vamos escutar. “Nós ouvimos e aprendemos, os nossos pais nos contaram”, proclamaremos no salmo. É preciso ouvir para aprender, é preciso contar aos mais novos, anunciar de geração em geração os milagres que o Senhor fez na história do seu povo e na história da nossa família. É preciso escutar as testemunhas e tornarmo-nos nós mesmos testemunhas desta providência divina que nunca termina. Depois, chegará a hora em que nos iremos alimentar do Pão do Céu. Porque mais importante que o maná do deserto, mais importante que o pão e o peixe que Jesus nos oferece a cada dia, é o Pão em que Ele mesmo Se deixou amassar. E nenhum milagre na nossa vida poderá alguma vez comparar-se com este…

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