Em Caná da Galileia...


Domingo XXIV do Tempo Comum, ano B

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Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

E VÓS, QUEM DIZEIS QUE EU SOU?

“E tu, quem dizes que Eu sou?” Pergunta Jesus este domingo. Teremos já todos a resposta pronta, vivida, testada?

O Livro do Profeta Isaías é também conhecido pelo “Quinto Evangelho”, de tal forma aponta para a missão de Jesus. Lemos este livro entre lágrimas e risos, experimentando, ainda aqui no exílio – como o povo de Deus na Babilónia – a salvação que só Deus pode trazer. Deus consola-nos nas nossas dores, ampara-nos no desalento, derrama água viva nos nossos desertos e reconduz-nos a casa. Glória ao seu nome!

Mas no meio deste livro, intercalando-o como um refrão, surge uma Palavra diferente, incómoda e estranha. São os quatro cânticos do Servo Sofredor. A Primeira Leitura deste domingo é precisamente um trecho de um deles. “Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba”, diz este servo misterioso. À medida que lemos a descrição dos seus sofrimentos e a injustiça por que passou; e à medida que nos apercebemos da humildade, paciência, confiança e esperança com que tudo suportou, damo-nos conta de que estamos perante um relato da Paixão de Jesus. E porque se trata da Paixão de Jesus, assim oferecida em visão a Isaías tantos séculos antes, estes cânticos misteriosos são na verdade o mais belo refrão que podemos cantar para proclamar a libertação do povo e o regresso do exílio. É que a salvação não é um gesto de exaltação, mas de abaixamento; de força, mas de fraqueza; de sabedoria humana, mas de loucura. Não há, por isso, contradição entre a alegria, às vezes a roçar a euforia, deste Livro da Consolação de Isaías, e os cânticos dolorosos que o intercalam, mas antes uma relação de causa-efeito: é para que a libertação aconteça que o Servo sofre assim, e são os seus sofrimentos que nos conduzem a casa.

O povo de Deus não compreendeu esta profecia, e durante os séculos entre Isaías e Jesus, ignorou estes cânticos do Servo, preferindo esperar um Messias glorioso, guerreiro, triunfante, capaz de reunir as tropas de Israel e desferir golpes mortais contra os muitos inimigos. É pois esta a imagem que Pedro tem em mente quando responde a Jesus: “Tu és o Messias.” E por isso, Jesus apressa-se a corrigir tal visão, explicando a Pedro que o Messias irá sofrer muito, ser rejeitado, traído, abandonado, crucificado e morto.

Pedro nem quer acreditar no que ouve. Como pode o Messias salvar Israel se for rejeitado e morto? Também Pedro lia Isaías saltando por cima dos quatro cânticos do Servo Sofredor, achando que eles esborratavam a pintura bonita do Livro do Profeta… “Vai-te, Satanás”, grita Jesus. Palavras duras! Tenhamos cuidado, para que não nos sejam dirigidas a nós também. Não são agradáveis de ouvir! A verdade é que, cada vez que recusamos o Jesus inteiro, o Jesus crucificado, o Jesus cuspido e maltratado, humilhado e rejeitado, mas ficamos apenas com o Jesus milagreiro e triunfante, estamos a ser instrumentos de Satanás na nossa vida e no mundo.

Depois, Jesus explica a Pedro o essencial da nossa fé: “Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me.” O caminho de Jesus, por onde queremos seguir, foi aberto pela cruz, tal como o caminho entre o exílio e a Terra Prometida foi aberto pelos Cânticos do Servo Sofredor. O cântico novo da Salvação tem como refrão a Paixão do Salvador.

Jesus explica um bocadinho melhor o que é isto de levar a sua cruz: “Quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á, mas quem perder a vida por causa de Mim e do Evangelho, salvá-la-á.” Ainda hoje, mais de dois mil anos desde esta boa notícia, nós crescemos a ouvir o contrário: “Trata de ti e deixa lá o resto”, “luta pelos teus interesses”, “quero lá saber dos outros!” E assim vamos educando as novas gerações, ensinando os filhos a salvar as suas vidas, a não olhar a meios para atingir os fins, a procurar carreiras de sucesso. “Quando eu disse aos meus amigos que queria ser padre, eles disseram que os padres não ganham dinheiro”, desabafou um dos meus filhos aos nove anos de idade. Nove anos, e aquelas crianças já só pensam em dinheiro…

Mas o que é perder a vida pelo Evangelho? Na sua Carta, S. Tiago explica: é praticar as obras de misericórdia, renunciando ao nosso conforto, ao nosso lazer – à escravidão do tempo livre, como lhe tem chamado o Papa Francisco – ao nosso tempo e espaço pessoais, à tentação da riqueza, da privacidade, da autopromoção, para servir os irmãos. Como dizia Santa Teresa de Calcutá, é preciso “dar até doer”, porque só dá de verdade quem dá com dor. “A fé sem obras é morta”, diz S. Tiago.

Hora da missa. Diante de nós, sobre o altar, está o Messias. Não O vemos na glória, como O veem os anjos e os santos que acabámos de convidar para nos fazerem companhia nesta adoração. Vemo-l’O escondido no Pão e o Vinho, obras da misericórdia de um Deus que vem para dar de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede e que, para tal, entregou a vida numa cruz.

“E tu, quem dizes que Eu sou?” Da nossa resposta depende a nossa salvação…

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