Em Caná da Galileia...


Domingo XXIX do Tempo Comum, ano B

Share on FacebookTweet about this on TwitterEmail this to someonePrint this page

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

SERVIR É SER GRANDE

Mais um domingo, e Jesus continua a caminho de Jerusalém. Longa, esta viagem, que Jesus aproveita para evangelizar os seus discípulos! Longa para nós também, pois como para eles, também para nós passa domingo após domingo sem que aprendamos a lição…

“Concede-nos que, na tua glória, nos sentemos um à tua direita e outro à tua esquerda”, pedem a Jesus os manos Tiago e João. Já naquele tempo se subia na vida à custa dos famosos “jobs for the boys”, ou como por cá se diz, as famosas cunhas. Tiago e João não escaparam à tentação de poder que a companhia do futuro Rei de Israel, na sua imaginação, oferecia. Os outros ficaram furiosos, não porque já tivessem entendido um pouco mais da mensagem de Jesus, mas porque também se consideravam merecedores de tais honras. A competição entre os discípulos crescia à medida que se aproximavam de Jerusalém, onde finalmente Jesus iria triunfar – assim pensavam eles – sobre todos os inimigos e sobre Roma.

Jesus não os humilha nem os ridiculariza. Com ternura e paciência, desafia-os a participar do seu destino: “Podeis beber o cálice que Eu vou beber e receber o batismo com que Eu vou ser batizado?” Nisto, os dois irmãos são generosos: “Podemos”. Sabemos que sim, que puderam, que deram tudo e o deram até ao fim, a exemplo do Mestre. Também sabemos que sim, que aprenderam a lição da humildade que Jesus lhes irá ensinar de seguida, pois certamente foram eles mesmos, e não os restantes discípulos, que espalharam pela comunidade cristã este episódio humilhante. Só alguém purificado de toda a sua vaidade ultrapassa a vergonha que a repetição destes factos lhe causaria.

“Quem entre vós quiser tornar-se grande, será vosso servo”, explica então Jesus. Como já vinha a explicar, dia após dia, ao longo de todo o caminho… E porque os últimos serão os primeiros, os lugares à esquerda e à direita do trono de glória de Jesus – a Cruz – foram ocupados por dois ladrões, dois últimos de entre os últimos, a quem foi oferecida a oportunidade de se tornarem, pelo arrependimento, primeiros. Um deles assim o fez, tornando-se no primeiro santo “canonizado” da História, e “canonizado” pelo próprio Senhor: “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso.” (Lc. 23, 43)

A Cruz foi verdadeiramente o “trono de glória” do Senhor, ou como lhe chama o autor da Carta aos Hebreus, o “trono da graça”. E foi cravado nela que Jesus, “provado em tudo, à nossa semelhança, exceto no pecado”, nos abriu a fonte da misericórdia. Pois “o Filho do homem veio para servir e dar a vida pela redenção de todos”, diz Jesus aos discípulos.

Como Tiago e João, também nós procuramos subir na vida pela escada do sucesso, da fama e da glória, evitando as dificuldades e fugindo às humilhações. Quando nos surgem obstáculos pelo caminho, sejam eles uma doença, a murmuração de alguém contra nós, uma dificuldade financeira grave, a perda de emprego, etc, logo nos lastimamos, vendo nisso um empecilho à nossa felicidade. Mas “para o Céu, sobe-se descendo”, dizia S. João da Cruz, fazendo eco do Evangelho. Talvez o verdadeiro empecilho não esteja no sofrimento, mas no sucesso aparente da nossa vida…

O que torna então a nossa existência numa vida bem-sucedida e feliz? A força da nossa entrega, a generosidade do nosso serviço, a renúncia aos nossos projetos e sonhos em favor dos projetos e sonhos dos que nos rodeiam. Assim o explica Isaías: “Se oferecer a sua vida como sacrifício de expiação (…), verá a luz e ficará saciado.” Eis a boa nova! Eu posso, como o “Servo Sofredor” do Cântico de Isaías, ser esmagado pelo sofrimento, perder tudo o que conquistei, ser traído, roubado, humilhado e desprezado, nunca alcançar um lugar ao sol nesta vida, e mesmo assim, alcançar a glória da eternidade! É que foi precisamente essa a porta que Jesus nos abriu na Cruz.

Como Tiago e João, precisamos de muito mais que uma viagem a Jerusalém para entender isto. Precisamos de uma vida inteira… Mas porque não começar hoje mesmo a saborear a alegria que esta Palavra nos pode trazer? Quando hoje nos falarem mal, quando hoje nos sentirmos adoentados, frustrados ou humilhados, quando hoje experimentarmos uma pequena ou grande desilusão, levantemos a cabeça e esbocemos o nosso melhor sorriso. Depois, humildemente, ofereçamo-lo ao Senhor, “como sacrifício de expiação” pelos nossos pecados e os pecados do mundo inteiro. E saberemos que somos mais afortunados do que o mais poderoso dos homens.

Hora da missa. Diante de nós, sobre o altar, o Rei dos Reis vai humilhar-se até à morte, e morte de Cruz. Diante de nós, sobre o altar, “o justo tomará sobre Si as nossas iniquidades”. Misteriosamente, misticamente, o “véu do Templo” vai rasgar-se ao meio, e o nosso “sumo-sacerdote” vai penetrar nos céus, abrindo-nos, pela sua morte, as portas da eternidade. Ajoelhamo-nos, sabendo que só de joelhos O poderemos seguir nessa feliz viagem, onde os pequenos se tornam grandes, e os últimos são os primeiros…

 

 

 

One Comment

  1. Que reflexão tão bela, daquelas para imprimir e ler muitas e muitas vezes a ver se aprendemos antes de chegar a nossa hora!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *