Em Caná da Galileia...


Domingo XXVII do Tempo Comum, ano B

Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

TODAS AS OPERAÇÕES ENVOLVEM SOFRIMENTO

Neste domingo, contemplemos a maravilha e o mistério do sacramento do matrimónio, santificador da união entre homem e mulher e berço de vida, essas crianças que Jesus abraçará no Evangelho.

O relato do Génesis sobre a origem da mulher é pitoresco, colorido e ternurento; mas sobretudo, é de uma profundidade como só um escritor inspirado por Deus pode alcançar. A mulher, diz-nos a parábola, foi criada durante o sono do homem, “um sono profundo”. É por isso que ela será para sempre um mistério, que o amor apaixonado irá sondar, mas nunca dominar. A mulher, diz-nos ainda a parábola, foi retirada do lado do homem, bem junto do coração. Ela é “osso dos meus ossos e carne da minha carne”, isto é, feita da mesma poeira e do mesmo sopro, com o mesmo valor e a mesma dignidade.

Mas há em tudo isto um pormenor cujo significado só centenas de anos depois entendemos: Adão adormecido, de lado aberto, é a primeira imagem bíblica de Jesus morto na cruz, com o Coração trespassado de onde jorra Sangue e Água, a Igreja (cf. Jo 19, 34). Adão e Eva, Jesus e a Igreja: eis a dignidade infinita do sacramento do matrimónio, tornado também ele, sacramento de salvação. Assim o explica o Papa Francisco em A Alegria do Amor: “Cada matrimónio é uma história de salvação” (nº 221)

As operações envolvem sempre sofrimento. Quando Deus tirou Eva do lado de Adão, tratou-se de uma operação delicada. E quando Jesus foi trespassado no Coração, abriu-se uma ferida que jamais cicatrizou, como nos diz o relato da aparição a Tomé (cf. Jo 20, 27). Na Carta aos Hebreus, Segunda Leitura deste domingo, o Senhor diz-nos que o verdadeiro amor se prova no sofrimento, e por isso, para nos salvar, “era necessário que (Jesus) experimentasse a morte em proveito de todos.” Assim terá de acontecer também no matrimónio, sinal deste amor até ao fim de Jesus pela Igreja: é preciso que cada esposo esteja pronto a dar a vida pelo outro, a deixar-se ferir de amor, essa lança que trespassa o coração e o faz deitar cá para fora o que de melhor ele tem para dar.

A parábola do Génesis termina com uma afirmação surpreendente: “Por isso, o homem deixará pai e mãe, para se unir à sua esposa, e os dois serão uma só carne.” Não estará o autor bíblico a levar longe demais a união entre esposos, afirmando que a sua relação deverá suplantar a relação instintiva, biológica, que liga pais e filhos? No mundo em que vivemos, nenhum legislador nem ninguém no seu perfeito juízo defenderia tal coisa. Aliás, as leis das sociedades modernas – como a lei de Moisés – protegem a relação entre pais e filhos, mas preveem o divórcio. Hoje considera-se que um homem não pode abandonar os filhos, porque isso é contra a natureza, mas pode trair a mulher, com quem tem apenas uma relação contratual. E agora vem-nos o Génesis, ali nas primeiríssimas páginas da Bíblia, dizer-nos que a relação entre homem e mulher faz dos dois uma só carne, ou seja, une-os como numa relação biológica!

A dificuldade – hoje e no tempo de Jesus – em entender o vínculo matrimonial deve-se, diz o Evangelho, à dureza do nosso coração. Um coração perturbado pelo pecado não consegue ver com clareza o que para um coração puro é óbvio: “Deste modo, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu.”

O sacramento do matrimónio não se perde nos inícios da história familiar, antes informa toda a vida da família que aí nasce, como uma fonte sempre a jorrar. Assim canta o salmo: “De Sião o Senhor te abençoe: vejas a prosperidade de Jerusalém todos os dias da tua vida!” É esta graça sempre a jorrar que confere ao matrimónio fecundidade, não apenas, nem sempre, biologicamente, mas de muitas outras formas.

Os filhos são, claramente, os frutos mais desejados desta árvore que nasce no dia do matrimónio. Quando a natureza não os permite, o sofrimento do casal é imenso, e as bênçãos deste belíssimo salmo quase soam a ofensa. É nessa altura que é preciso lembrar as tais feridas de amor no lado aberto de Jesus e de Adão, desafiando-nos a transformar a ferida dolorosa da infertilidade numa ferida gloriosa.

Para outros casais modernos, porém, as crianças são um estorvo. Estes casais precisam de escutar a indignação de Jesus perante a atitude dos discípulos, que afastavam d’Ele as crianças: “Deixai vir a Mim as criancinhas!” Há três semanas que o Evangelho insiste para acolhermos os pequeninos. Teremos nós a porta da nossa família aberta a mais uma criança, se Deus nos quiser conceder tal bênção?

Hora da missa. Tenhamos pressa neste encontro amoroso entre Jesus e a sua Igreja, entre Jesus e cada um de nós, como dois esposos que se amam. Estejamos atentos: ali, sobre o altar, Jesus deixará trespassar o seu Coração, e o Sangue e a Água que dele brotarem irão inundar de graça a nossa vida e a nossa família. No momento da comunhão, seremos finalmente “uma só carne” com Jesus… Possa este amor maior transformar também as nossas histórias familiares em histórias de salvação! Ámen.

One Comment

  1. Sónia Santos

    Acabados de sair da missa e que sentimento trago de nem sei o quê… Qualquer coisa entre o desânimo e o escândalo. Que medo, incapacidade, falta de entusiasmo, ou apenas falta de foco na imensa beleza e mistério deste sacramento, o matrimónio. O evangelho é tão, tão claro e todo o encadeamento da liturgia tão belo…E assim as ovelhas vão sendo levadas adiante sem a interpelação à profunda alegria do amor!
    Obrigada, Teresa, pelo teu serviço.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

  • Domingo VII do Tempo Comum, ano C

    Domingo VII do Tempo Comum, ano C

    SÓ A MISERICÓRDIA ROMPE O CICLO DA VIOLÊNCIA “O Senhor é clemente e compassivo, paciente e cheio de bondade”, cantamos no salmo deste domingo. Seremos nós assim também? Deixemos que a Palavra desça da mente ao coração, do coração à vida, para sermos realmente “filhos do Altíssimo”. As histórias do Rei David são como pequenos capítulos de um livro de aventuras juvenil, capazes de entreter, divertir, enternecer, fazer chorar e,...
    Ler mais...
    A margem da felicidade

    A margem da felicidade

    Estais dispostos a receber amorosamente os filhos como dom de Deus? Foi há mais de duas décadas, esta pergunta. Foi há mais de duas décadas que, diante do Senhor, respondemos "sim, estamos." E foi precisamente há duas décadas que a aventura da maternidade e da paternidade começou. Ao consultar o meu diário íntimo dos primeiros tempos de casada, encontrei a afirmação: “Dizem-me com frequência que não serei capaz de ter...
    Ler mais...
    O Plano Bíblico por excelência

    O Plano Bíblico por excelência

    "Mãe, nós lemos a Bíblia ou o missal? Não percebo bem a diferença. Podes explicar? É que nunca sei que palavra usar quando na catequese ou na aula de Moral quero explicar como fazemos a nossa oração!" O David estava confuso, e eu dei-me conta de que é preciso explicar e voltar a explicar, repetir e voltar a repetir os conceitos da nossa fé que nos parecem mais do que...
    Ler mais...
    Domingo VI do Tempo Comum, ano C

    Domingo VI do Tempo Comum, ano C

    ESCOLHAS Neste domingo, o Senhor coloca diante de nossos olhos dois caminhos opostos. Teremos já feito a nossa escolha definitiva, ou ainda hesitamos? Descendo do monte, Jesus reúne os Apóstolos e a multidão na planície. E é aí que propõe o seu caminho de felicidade, a que chamamos o Bilhete de Identidade dos cristãos: as Bem-aventuranças. Lucas fala-nos em quatro, e não nas oito de Mateus. E que quatro! “Bem-aventurados...
    Ler mais...
    O fogo e a luz em dia de S. Valentim

    O fogo e a luz em dia de S. Valentim

    Estou há uma semana a procurar encontrar uns minutos para me sentar aqui a escrever, mas o tempo - mesmo o meu - não estica o suficiente. Tenho aproveitado estes dias verdadeiramente primaveris para fazer uma grande limpeza à casa e, claro, para passear com o Daniel pelos campos em redor. Assim, vou tentar escrever agora... Bem, vou tentar daqui a uns minutos, que o Daniel está a chorar. Volto...
    Ler mais...
    Domingo V do Tempo Comum, ano C

    Domingo V do Tempo Comum, ano C

    Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga "SOU PECADOR" Depois do doce Tempo de Natal e antes do dramático Tempo de Quaresma, a Igreja vive no Tempo Comum. E é no Tempo Comum, na rotina diária da nossa vida, que somos desafiados a seguir o Senhor. Foi assim com Isaías, com Paulo, com os Apóstolos. Isaías era um judeu...
    Ler mais...
    Cantar a Palavra

    Cantar a Palavra

    No domingo passado, a segunda leitura da missa foi o magnífico Hino ao Amor, de S. Paulo, recordam-se? Certamente que sim. É daqueles hinos que, escutando uma vez, nunca mais se esquece, e é preciso voltar a escutar, outra e outra vez, a vida inteira, para nos irmos aproximando de mansinho e aos bocadinhos do ideal que S. Paulo apresenta. Há anos que procurava encontrar um cântico com a letra...
    Ler mais...
    A festa da Apresentação do Senhor, pela Lúcia

    A festa da Apresentação do Senhor, pela Lúcia

    Do diário da Lúcia, dez anos: 7h Sábado, dois de fevereiro. Estou contente, hoje não é dia de escola, é dia de descanso! Além disso, é a Festa da Apresentação do Senhor, e a mamã disse que vai ser um dia especial. Acordo bem cedo, como é costume aos sábados, e vou para a sala. Já lá está o António, ansioso por ir à padaria com a Sara e o...
    Ler mais...
    Apresentação do Senhor

    Apresentação do Senhor

    Os dias festivos da Igreja são sempre uma enorme animação aqui em casa. Quando os meninos eram todos pequenos, cabia-nos a nós inventar as tradições, imaginar os detalhes, preparar os momentos e os gestos. Agora, basta anunciar a festa, explicar o seu sentido - geralmente ao redor da mesa de jantar, como boas Famílias de Caná - e logo as ideias surgem, bem como mãos voluntárias para as pôr em...
    Ler mais...
    Domingo IV do Tempo Comum, ano C

    Domingo IV do Tempo Comum, ano C

    Reflexão dominical, escrita pela Teresa, sobre as leituras do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga TODOS FOMOS SONHADOS POR DEUS Hoje, a Palavra centra-nos no essencial da vocação cristã: somos amados por Deus desde antes de existirmos; e somos chamados a amar como Ele ama, totalmente e até ao fim. Escutemos! “Antes de te formar no ventre materno, Eu te escolhi”, diz o Senhor a Jeremias “no...
    Ler mais...

    Novidades

    Sofrimento e Graça

    Sofrimento e Graça

    Testemunho da Helena Atalaia: Transporei, então, esta força da minha natureza, subindo por degraus até Aquele que me criou. Chego aos campos e vastos palácios da memória, onde estão tesoiros de inumeráveis imagens trazidas por perceções de toda a espécie. - em Confissões de Santo Agostinho. Há alguns dias, foi-nos proposto pelo pároco participar num encontro de preparação para o matrimónio em conjunto com outros casais. O objetivo era dar...
    Ler mais...
    “Se eu perder, ficas triste ao meu lado?”

    “Se eu perder, ficas triste ao meu lado?”

    Testemunho da Isabel Marantes: Há algum tempo, aqui no Canadá, houve um concurso literário, ao qual a Leonor e a sua amiga Maddy decidiram concorrer. Há poucos dias, a Leonor recebeu uma carta a dizer que o seu texto tinha sido um dos escolhidos. Cheia de alegria, a Leonor foi no dia seguinte perguntar à sua amiga se também já tinha recebido a carta, para juntas comemorarem. Mas a amiga...
    Ler mais...
    A luz do “velho tesouro” do Terço

    A luz do “velho tesouro” do Terço

    Testemunho da Isabel Marantes: No outro dia, a nossa filha mais velha, de 10 anos, disse mesmo antes de começarmos a rezar o Terço: “Sabes, mamã, às vezes rezar o terço é um bocadinho aborrecido”… Pensei logo no nosso pastorinho de Fátima São Francisco, cuja Festa litúrgica celebramos a 20 de Fevereiro (juntamente com Santa Jacinta). Também ele tinha dificuldade em rezar o terço, porque as brincadeiras eram muito menos “aborrecidas”! Depois lembrei-me...
    Ler mais...
    Teatro de figuras para celebrar a Festa da Apresentação do Senhor

    Teatro de figuras para celebrar a Festa da Apresentação do Senhor

    No próximo sábado, dia 2 de Fevereiro, a Igreja celebra a Festa da Apresentação do Senhor (ou o dia de Nossa Senhora das Candeias, como é mais conhecido em algumas zonas do país). Este acontecimento na vida da Sagrada Família foi tão importante e está associado a tal riqueza de catequeses e significados, que mereceu ser um dos Mistérios Gozosos do Rosário que Nossa Senhora nos ofereceu! O Ensinamento Mensal...
    Ler mais...
    A Palavra de Deus na minha vida

    A Palavra de Deus na minha vida

    Sugestão da Marisa Milhano: Eis-nos no Tempo Comum do Ano Litúrgico. O tempo do Advento e do Natal já passaram... A Quaresma e a Páscoa são um pouco mais tarde que o habitual este ano.... Deixaremos que a Palavra de Deus se torne menos viva na nossa vida? Que amorneça?  Claro que não! O Tempo Comum também é uma óptima altura para crescermos na Fé e no Amor a Deus...
    Ler mais...
    A Véspera de Natal com os Séniores

    A Véspera de Natal com os Séniores

    Testemunho da Isabel Marantes: A nossa família está no Canadá há já 3 anos, mas apenas no primeiro ano conseguimos ir a Portugal no Natal. As saudades são sempre muitas, mas as inúmeras chamadas telefónicas e videochamadas ajudam a estarmos o mais perto possível de todos os nossos familiares queridos que estão do outro lado do Atlântico. Assim, nós temos aproveitado esta “liberdade” na agenda para fazer algo que sempre...
    Ler mais...
    Celebrar o Batismo do Senhor … com bolachas!

    Celebrar o Batismo do Senhor … com bolachas!

    Naqueles dias, Jesus veio de Nazaré da Galileia e foi baptizado por João no Jordão. Quando saía da água, viu serem rasgados os céus e o Espírito Santo descer sobre Ele como uma pomba. E do Céu veio uma voz: «Tu és o meu Filho muito amado, em Ti pus todo o Meu agrado.» (Mc 1,9-11)   No próximo domingo, dia 13 de Janeiro, celebraremos a Festa do Batismo do Senhor, tal...
    Ler mais...
    Cápsula do tempo familiar

    Cápsula do tempo familiar

    A Helena LeBlanc, mãe duma linda Família de Caná, enviou-nos uma atividade muito original (inspirada nesta ideia) para preparar o Novo Ano em família. Ficaram curiosos? Objetivos da atividade: Ajudar todos os elementos da família a preparar o Novo Ano, especialmente as crianças; Agradecer a Deus e identificar objetivos (resoluções) para o Novo Ano.   Materiais: uma caixa, canetas, papel, fita-cola, elementos para decorar a caixa objetos simbólicos e representativos...
    Ler mais...
    Árvore de Jessé feita na catequese

    Árvore de Jessé feita na catequese

    A Sara Grilo, catequista do 2ºvolume da Paróquia de Cordinhã (em Cantanhede), enviou-nos uma foto da magnífica Árvore de Jessé que foi feita na sua paróquia pelos grupos de catequese da infância. Para a estrutura da Árvore (re)utilizaram uma antiga árvore de natal feita com paletes de madeira que já possuíam. Os símbolos da Árvore foram desenhados e pintados pelos próprios meninos da catequese. Digam lá se não ficou bonita? Ao...
    Ler mais...
    Um auto de Natal especial

    Um auto de Natal especial

    Testemunho da Marisa Cortez: Graças aos materiais criados pelas Famílias de Caná, neste Advento sentimo-nos desafiados a fazer também em nossa casa a Árvore de Jessé. Optámos por colar as imagens em material EVA e depois plastificar para se tornarem mais resistentes e poderem ser usadas em anos futuros... 😊 Também nos sentimos animados a tornar mais festiva e sentida a nossa ceia de Natal com a realização de uma encenação...
    Ler mais...