Em Caná da Galileia...


Domingo XXXI do Tempo Comum, ano B

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Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras do domingo seguinte, publicadas no jornal diocesano Correio do Vouga

O MAIS IMPORTANTE VERBO DA BÍBLIA E DA VIDA

A Palavra deste domingo fala-nos do amor. Num mundo que brinca com o amor e o confunde com tantas outras coisas, vale a pena dedicarmo-nos a descobrir o seu profundo significado.

No Deuteronómio, capítulo 5, Moisés elenca os Dez Mandamentos, essas “Dez Palavras” que tornam possível a vida harmoniosa em comunidade, o “cosmos” humano a partir do “caos” do “vale tudo”. Agora, no capítulo 6, admoesta o povo a temer a Deus, pondo os Dez Mandamentos em prática.

Os Dez Mandamentos foram radicais no tempo das grandes civilizações antigas, como a egípcia, a grega ou a romana, onde se adoravam variados deuses e onde o aborto, o infanticídio, a pedofilia, o adultério, a poligamia e o abandono dos idosos eram comuns. Desejaríamos que os Dez Mandamentos se tivessem sobreposto a todos estes pecados civilizacionais, mas infelizmente, tal não aconteceu. As sociedades modernas vivem hoje tempos de um retrocesso civilizacional alarmante, aceitando com naturalidade e sob o signo da tolerância comportamentos que há muito deviam ter sido ultrapassados.

O que nos falta, para que tamanho retrocesso tenha sido possível? Falta o “temor a Deus”, que Moisés ordena ao povo: “Temerás o Senhor, teu Deus, todos os dias da tua vida, cumprindo todas as suas leis e preceitos que hoje te ordeno.” Hoje, a palavra “temor” caiu em desuso, e poucos falam nele, essencial para uma vida moralmente sã. É preciso desenvolver uma grande familiaridade com Deus, trata-l’O por “Tu”; mas é preciso não esquecer que Deus é Três-Vezes-Santo, que Deus é e será sempre o Outro, o Altíssimo, o Senhor. Temer a Deus é respeitar as suas leis sem as contestar, e sim, é também ter medo de O ofender, não por causa do castigo, mas porque não O queremos ver triste, como dizia S. Francisco Marto, pastorinho de Fátima. A chocante falta de temor a Deus, mesmo entre os crentes, permite-nos abrir brechas nas muralhas da ética, da bioética, da moral cristã, da família, que colocam em risco a sanidade mental do nosso mundo.

“Escuta, Israel”, continua Moisés. Escutamos? Meditamos na Palavra, com coração temente? E Moisés apresenta-nos o magnífico Shemá, essa oração que Jesus, como bom judeu, rezava três vezes ao dia, e que hoje os judeus continuam a rezar três vezes ao dia, e que muitas famílias cristãs – como as Famílias de Caná – rezam diariamente, quando se dispõem a escutar a Palavra de Deus. “Escuta…”

Deus é um, diz Moisés e repetirá Jesus. Desde o início que a Bíblia nos lembra que não somos deuses. Ser como Deus foi, na verdade, a primeira tentação de Adão, e continua a ser a tentação do nosso tempo, onde o homem se assume como senhor da vida e da morte.

E agora vem o mais importante verbo da Bíblia e da vida, um verbo que, segundo Moisés e Jesus, se conjuga no imperativo: “Amarás”. O amor, diz-nos a Bíblia, é um Mandamento. Como? Hoje, esta afirmação é chocante. Vivemos convencidos de que o amor é um sentimento, uma emoção, e como tal, pode mudar, pode acabar e começar. E agora vem-nos o Senhor dizer que o amor é uma ordem, que o verbo amar se conjuga no imperativo? “Amarás!”

Amar não é gostar. Gostar ou não gostar não pode ser um mandamento, pois como diz o povo, “gostos não se discutem”. Amar, diz-nos a Carta aos Hebreus este domingo, é oferecer-se a si mesmo em sacrifício, dar-se até ao fim, “de uma vez para sempre”, sem retorno. E este amor não se realiza apenas para com aqueles de quem gostamos, mas como repete Jesus, também para com os inimigos e para com os que nos incomodam.

“Já não amo a minha mulher”, “já não amo o meu marido”, ouvimos dizer hoje com terrível banalidade. Como responder a isto? “Então ama!” Como? “Ama! Se deixaste de amar, há que voltar a amar, agindo, fazendo gestos concretos de amor!” Todas as mães que o são de verdade sabem que é assim: quando a mãe se levanta durante a noite para dar de mamar a um recém-nascido, para acalmar um pesadelo de um filho pequeno, para limpar um vómito ou dar um xarope, não o faz “porque apetece”, deixando de o fazer quando “não apetece”: antes o faz por amor, apeteça ou não, quando “tem que ser” – e “o que tem que ser tem muita força”, dizemos.

O amor não é, portanto, um sentimento, mas um Mandamento, que implica dar a vida de uma vez para sempre. Sabemos, como Jesus nos diz hoje, completando o Shemá judaico, que o amor é só um, tendo duas faces: o amor a Deus e o amor ao próximo. E embora este próximo possa ser o desconhecido com quem nos cruzamos, como na parábola do Bom Samaritano, ele vive muitas vezes na nossa paróquia, na nossa rua, na nossa casa.

Hora da missa. Não vimos quando apetece, nem deixamos de vir quando não apetece: vimos porque tememos a Deus e, assim, cumprimos o seu primeiro Mandamento: “Amarás!” Contemplando a entrega até ao fim de Jesus, contemplamos o gesto de amor mais poderoso da História, o cumprimento perfeito do Mandamento maior, a entrega a Deus pelos irmãos, aos irmãos por Deus… De joelhos, aprendamos.

3 Comments

  1. Mais uma vez uma reflexão maravilhosa! É reconfortante saber que estamos em sintonia! Bjs

  2. Catarina Ramos Tomás

    Muito obrigada! Semanalmente anseio pelas reflexões da Teresa. Elas dão profundidade às homilias que escuto. Tomara os nossos padres terem esta frontalidade e clareza.
    Belíssimo texto! Parabéns!

  3. Também eu agradeço mais este texto!

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