Em Caná da Galileia...


E se…? Algumas propostas para a catequese em Portugal

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Tenho vindo a escrever vários artigos criticando aquilo que hoje existe em termos de catequese paroquial. E conversando aqui em casa com o Niall, concluímos que não basta denunciar: é preciso propor. Porque o modelo de catequese que temos em Portugal não é imposto pelo Vaticano nem é dogma católico, variando e muito de país para país, o que nos permite testar novos modelos e procurar soluções criativas.

Eu sei que as nossas ideias não têm qualquer peso de decisão, mas se elas levarem outros a refletir e puderem provocar algum debate nas paróquias, já valeu a pena… Aqui vai:

E se a catequese deixasse de ser obrigatória e escolarizada, com catecismos definidos e grupos homogéneos?

E se houvesse uma grande variedade de catecismos disponíveis para serem adotados por paróquias diferentes, e dentro de cada paróquia, por famílias diferentes, de acordo com o grau de caminhada e de exigência de cada uma?

E se o pároco dissesse um dia no final da missa: “Quem desejar ter catequese ou aceder aos sacramentos, faça favor de vir conversar comigo”, e depois agendasse uma conversa com cada família interessada?

E se o primeiro ponto da conversa fosse assim: “Temos várias propostas de caminhada na fé. A única condição para a iniciar é sermos comunidade, isto é, preciso de vos conhecer, de vos ver na Eucaristia dominical, de conversar convosco no átrio da igreja no final da missa, de estabelecer amizade. Venham à missa, participem nas mais diversas atividades paroquiais, e daqui a uns tempos, quando formos família, proponho-vos uma caminhada mais específica para que os vossos filhos possam aceder aos sacramentos”?

E se cada família que deseja um percurso catequético tivesse um conjunto de alternativas possíveis de formação, como por exemplo participar nos encontros da Aldeia de Caná da sua paróquia, ou frequentar durante três meses um curso intensivo de iniciação cristã, ou integrar algum outro Movimento existente na área, participando nos retiros e encontros propostos?

E se todos os Movimentos sentissem esta responsabilidade de colaboração com a sua paróquia, oferecendo aos seus membros uma formação catequética, naturalmente segundo o seu carisma específico e, por isso mesmo, distinta entre si, capaz de substituir em parte a comum catequese paroquial?

E se cada paróquia oferecesse, para complementar a formação já oferecida pelos Movimentos, vários momentos formativos ao longo do ano em estilo modular, de curta duração? Por exemplo, uma formação intensiva de dois meses sobre o sacramento da Eucaristia ou do Batismo, que seria obrigatória antes da receção do respetivo sacramento para quem já cumprira um percurso catequético à sua escolha, definido em conjunto com o pároco?

E se uma família pudesse, assim, ter vários filhos a aceder ao sacramento da Eucaristia ao mesmo tempo, por terem feito uma catequese familiar intensiva em conjunto?

E se os catequistas de cada paróquia tivessem, para além de boa vontade, uma formação base obrigatória em doutrina cristã, essa sim, igual para todos e centralizada, porque feita a partir do Catecismo da Igreja Católica? E depois de assim formados, pudessem orientar as formações modulares pontuais a acontecer em cada paróquia, duas ou três por ano, ou algum grupo específico de famílias numa caminhada bem definida de um ou dois anos, e não em caminhadas sem fim à vista de doze anos escolares, com fraca adesão da família e quase nenhuma prática sacramental?

E se deixasse de ser obrigatório ter o crisma para se ser padrinho ou madrinha de batismo, visto todo sabermos que esta é uma razão de peso para desvirtuar totalmente o sacramento do crisma e, na prática, não alterar em nada a qualidade cristã dos padrinhos?

Atualmente, quem quer ir à catequese é quase obrigado a participar na missa, fazendo-o geralmente apenas durante o tempo de catequese e deixando a prática da Eucaristia assim que deixa de ter catequese e durante as férias. A nossa proposta parte do princípio contrário: quem frequenta a Eucaristia com regularidade é depois convidado pelo pároco a integrar um dos vários grupos catequéticos ou, em alternativa, participar num dos vários Movimentos da paróquia. A catequese deixa de ser obrigatória, contínua e durante os doze anos da escola, para ser modular, descontínua e durante toda a vida. Uma criança pode assim, por exemplo, fazer um mês de curso bíblico infantil, meio ano mais tarde dois meses de curso intensivo sobre a Eucaristia, dois anos depois uma formação sobre os valores cristãos, alguns anos mais tarde, já na adolescência, um curso intensivo de doutrina da Igreja sobre sexualidade. Como se tratam, sempre, de módulos curtos, a adesão é mais segura e empenhada do que tratando-se de um ano escolar inteiro. Os catequistas, com preparação mais ou menos especializada, também vão variando. A aprendizagem torna-se muito mais rica e, idealmente, será acompanhada de momentos intensos de retiro ou encontros, dois ou três por ano, bem como de várias propostas de serviço, como visita aos doentes, participação no coro ou no grupo de acólitos.

Na época dos hipermercados e das peças de roupa tamanho único, esta proposta é um regressar ao espírito de aldeia, à “mercearia da terra” e ao “fato de alfaiate feito à medida”. Pode haver erros de avaliação e injustiças? Claro que sim. A catequese igual para todos, escolarizada, obrigatória, corre muito menos riscos. Pode diminuir o número de crianças a frequentar a catequese? Drasticamente. Sem sombra de dúvida. E?

As crianças e os jovens, muitos ou poucos, que de facto desejassem caminhar, fariam um percurso personalizado de adesão a Jesus. E poderiam, no dia do seu crisma, dizer com verdade: “Presente!”

17 Comments

  1. Li, reli… gostei… Apenas se sublinha que nós não somos igreja, ou seja, nós não somos comunidade real e em relação e, até por isso, emerge a necessidade dos movimentos. Obrigada pela riqueza e variedade das propostas! Quanto à formação catequética, em função do Catecismo da Igreja Católica é urgente, e tão simples como, num primeiro passo, abrir o livro e ler! Na nossa diocese, Aveiro, temos disponível, da responsabilidade do ISCRA um resumo do catecismo, que sugiro como primeiro passo, ou então o YouCat, mais recente!

  2. Alguém mais sentiu o coração bater maia forte enquanto ia lendo os “e ses” ou fui só eu?

  3. Teresa, penso que as propostas são completamente contrárias ao que nos pede o Papa Francisco – chegar às periferias. A catequese disponibilizada mesmo àqueles que não têm prática cristã, essa sim, chega às periferias, àqueles que não vivem a fé mas querem que os filhos conheçam Deus e tenham a possibilidade de acreditar.

    Quanto à sua proposta (noutro post, mas relacionada) de acabar com as “missas da catequese” no atual modelo, penso que, para si, enquanto responsável de um movimento dedicado à santidade da família, ela faz sentido, mas tenha atenção que a função da catequese não é trabalhar pela santidade da família (para isso existe a Pastoral da Família, com as suas atividades próprias), mas pela santidade dos catequizandos, sobretudo crianças. Conheço muitas crianças e jovens que hoje têm uma vivência de facto cristã, não por influência da família, mas dos catequistas, que os levaram à missa. Assim, estas crianças e adolescentes integraram o grupo coral ou o grupo de acólitos, o grupo de jovens, etc, e começaram a levar mais a sério a missão de batizados – mas tudo começou com um catequista que os levava à missa regularmente.
    O modelo que a Teresa propõe deixa de fora a possibilidade de ser cristão sem apoio da família, e isso significa deixar de fora a possibilidade de muitos abraçarem a fé.

    Quanto aos padrinhos de batismo, o crisma é condição obrigatória, imposta pelo Código de Direito Canónico:
    «Cân. 874 § 1. Para que alguém seja admitido para assumir o encargo de padrinho, é necessário que: (…)
    3° – seja católico, confirmado, já tenha recebido o santíssimo sacramento da Eucaristia e leve uma vida de acordo com a fé e o encargo que vai assumir;»

    • Olá Maria! Obrigada pela partilha. Ainda bem que há gente menos desanimada do que eu em relação à catequese. Confesso que sou muito pessimista neste âmbito. Ora eu estava precisamente a ir ao encontro do “fato à medida” que nos pede o Papa Francisco cada vez mais, como na Alegria do Amor! Para ele, um sistema igual para todos não faz muito sentido, não é assim? Também foi o Papa Francisco quem falou, em A Alegria do Amor, em “pastoral familiar” como a base da educação na fé das crianças. Todos, com poucas e tristes exceções, vivemos em família. Por isso, a minha proposta só pode ser lida à luz desta proposta de uma pastoral que se quer, cada vez mais, segundo o atual papa, familiar. Ainda estamos muito, muito longe da visão do Papa, quando falamos numa pastoral familiar separada das outras pastorais, especialmente da catequese. A catequese presente pertence, portanto, a uma pastoral ultrapassada, se não for cada vez mais familiar.
      Quanto à questão dos padrinhos, há dioceses a resolver o assunto chamando-lhes “testemunhas”. É uma solução com sentido, para mim.
      E não, não estou a deixar de fora as periferias! Mas não considero que a catequese como ela está chegue às periferias. Se achasse que chegava, era a primeira a apostar nela! Acredita mesmo que é positivo um sistema que permite aos pais oferecer aos filhos o que não consideram bom para si mesmos?! Acho que para se chegar às periferias não funciona um modelo imposto e “obrigatório” de catequese às crianças, mas um contacto pessoa a pessoa, um partir missionário, uma entrega de vida de cada cristão, que deve chamar, pela palavra e pelo exemplo, o seu vizinho, o seu colega de trabalho, o seu familiar.
      Sou catequista há muitos anos e contam-se pelos dedos as crianças que se aproximaram unicamente por causa da catequese, sem o apoio da família ou da comunidade de uma forma bem mais personalizada. Fico feliz por estar enganada, pois se me diz que conhece muitas crianças e jovens que se aproximaram por meio dos catequistas, estou errada, e ainda bem. Talvez a Maria esteja numa comunidade particularmente rica em termos de catequistas e catequese, e eu numa mais pobre de formação, pois pessoalmente sinto-me completamente inútil como catequista. Eu conheço famílias, isso sim, que se aproximaram em bloco por causa da catequese. Algumas são Famílias de Caná. Bj!

  4. Ao ler estes textos sobre catequese, “Eucaristia para crianças”, diplomas… senti o mesmo que a Olívia. Também cada vez me sinto mais inútil como catequista e desde a minha adolescência que sou catequista, por isso acho que temos de levar estas propostas para as nossas paróquias, para serem reflectidas e debatidas, porque não nos podemos conformar é preciso evangelizar.

  5. Olá Teresa! Aproveito o texto para deixar mais uma proposta de formato de catequese: “A catequese do Bom Pastor”. Conhece?
    Depois de ver estes dois vídeos fiquei muito interessada, como mãe:
    https://youtu.be/-f133q20wdk
    https://youtu.be/QeipceNYhQI

    • Querida Célia, estive a ver os vídeos enquanto arrumava a casa 🙂 Gostei imenso da Catequese do Bom Pastor. Achei que vem reforçar, uma vez mais, o que escrevi no post: a catequese funciona quando a família funciona. Neste vídeo temos um pai a falar da experiência de catequese que ele mesmo proporcionou ao filho de três anos, tal como acontece em todas as Famílias de Caná, e através de métodos muito semelhantes…Conheço experiências parecidas em todas as famílias que crescem connosco, e há várias partilhadas aqui no site em Recursos. Mas se não houver uma família por detrás… funcionará? Eu estou absolutamente convencida de que não. Claro que há sempre exceções e a Deus tudo é possível, mas falamos da generalidade. Aprende-se a amar a Deus em casa, com os pais. Para a grande generalidade das crianças, aprender uma coisa na catequese e outra em casa não resulta. Podemos experimentar todos os modelos que nos fascinarem, trocar de catecismos, trocar de catequistas… sem família, não há vida cristã. Bjs e bem haja!

  6. E, já agora, partilho outro vídeo muito belo sobre ser catequista. E obrigada pela sua partilha, Teresa! Espero que dê muito para falar e muitos frutos para colher!
    https://youtu.be/NkTlZqaSTl8
    Abraço
    Célia

  7. Helena Atalaia

    É realmente, um tema necessário de debate. No Directório Geral da Catequese muitas das questões aqui levantadas estão diagnosticadas. A questão parece-me ser a dificuldade de implementação, ou o tempo que leva a sua implementação. O número de crianças inscritas na catequese está a diminuir, ou não é assim nas vossas paróquias? E a catequese nos primeiros tempos era realizada aos adultos, por isso, essa proposta não choca ninguém, é um retomar às origens da evangelização cristã. No entanto, ao fazer desaparecer este modelo atual, a meu ver, podemos correr um risco maior de perda de oportunidades de evangelizar as famílias. No entanto, a necessidade de um compromisso dos catequistas com Jesus, com a verdade e integridade de vida e com a doutrina é fundamental para o testemunho de fé. Não esquecendo, que o principal catequista é o pároco.

    • Sim, Helena, as questões são amplamente conhecidas. Mas a meu ver, enquanto não mudarmos radicalmente de paradigma, descentralizando a catequese e arriscando tudo, não conseguiremos senão mudanças cosméticas. Há alturas na História em que é precisa esta radicalidade, que no fundo, como dizes, é um regressar às origens do cristianismo, quando se evangelizava família a família, segundo contam os Atos. E ao espírito mais profundo do que é uma paróquia, família de famílias… O estilo moderno de catequese é cópia do escolar, que por sua vez (como bem sabes e sabiamente procuras combater à tua escala com o ensino doméstico) é cópia do modelo fabril industrial, que serviu uma época histórica e agora está claramente ultrapassado. Só perdemos oportunidades de evangelizar as famílias se não oferecermos alternativas concretas e criativas de missão. Assim, não convém, de facto, deixar um modelo e partir para outro que não esteja bem alicerçado e com muitas “saídas de Igreja” bem definidas! Bj

  8. As propostas parecem trazer um sistema bastante interessante. Mas para a geração que agora é pai é necessário algo mais. Falta-lhes acreditar, estão numa crise de Fé e os poucos motivos que lhes dão para vir são coisas do mundo, equivalentes a tantas outras. É porque é bom, é porque te ajuda, o que se escuta nas homilias podia ser escutado noutro local, … Ficam a saber mais deles e do que Deus lhes dá do que o que Deus quer e o que Deus fez.
    Não sairam da crença e não veêm motivos para acreditar e muito menos para se converter, para colocarem o coração em Deus, verem as coisas com o olhar de Deus e amá-lO com todo o coração e todas as forças.

    Nós acreditamos em alguém e no que ele nos diz porque esse alguém é de confiança. Assim é com a Fé, acreditamos em Deus e no que nos revelou porque em Deus podemos confiar. É com a nossa livre vontade, ajudados pela Graça de Deus que acreditamos no que nos foi transmitido. É isto ter Fé, acreditar em Deus e no todo que Deus nos revelou, é este o nosso tesouro.

    A essa geração não deram o tesouro, aos pais deles disseram que era tudo paz e amor! Eles vão-se converter a Quem e salvar de quê? Precisamos de ser salvos, existe salvação universal?
    “Ora, como hão-de invocar aquele em quem não acreditaram? E como hão-de acreditar naquele de quem não ouviram falar? E como hão-de ouvir falar, sem alguém que o anuncie? E como hão-de anunciar, se não forem enviados?” (Rm10,14-15), não lhes podemos pedir o que não lhes deram.

    É isso que temos de fazer, transmitir-lhes a Fé e a Verdade, ajudar a acreditar e a converterem-se.

    • Sim, Francisco, há ali algo que se quebrou na passagem das gerações, que faz com que os pais atuais também não tenham recebido o dom da fé da forma que seria desejável, pelo que não o podem transmitir. Por isso não me canso de repetir: há que sermos mais missionários, há que encontrar formas de chegar aos pais, às famílias, lá fora a todas as periferias. Mas não é para isso a catequese. Não pode. Catequese é outra coisa. A isso chama-se missão, Igreja em saída. É preciso chegar diretamente aos pais, aliás, a todos os adultos, pais ou não. Criatividade na evangelização, precisa-se!

    • Orlando de Carvalho

      Francisco, é um grande problema que levanta: Que é acreditar em Deus?

      • É acreditar no Deus único e verdadeiro que Jesus nos revelou.
        Aqui inclui-se acreditar na Vida que vai para além do mundo, onde Deus nos amou ainda antes de existirmos e que quer que alcancemos essa Vida plena no Seu Reino.
        Inclui-se acreditar na Verdade que nos indica que no mundo somos peregrinos para a nossa verdadeira casa que é o Céu e que no mundo estamos presos ao pecado e à morte eterna, cuja libertação obtemos pela Graça de Deus. Que fomos criados por Deus para O conhecermos, amarmos e servirmos.
        Inclui-se acreditar no Caminho que é o próprio Jesus, Verbo de Deus, nosso Pastor e Guia que nos conduz na Graça de Deus para alcançarmos o Seu Reino, cumprindo a vontade de Deus. Caminho que mais do que nos humanizar e ajudar a formar uma comunidade de irmãos nos inscreve no Livro da Vida.
        Inclui-se compreender o abismo que nos separava de Deus e que só com o Seu auxilio conseguimos alcançar a Salvação, que devemos perserverar na Fé e nas boas obras, amando a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos, permanecer na Igreja por Ele fundada, que é o Corpo Místico de Cristo, começo e semente do Seu Reino na Terra.
        Inclui-se compreender que o pecado para além de nos desumanizar e afastar dos irmãos nos afasta da Graça de Deus e da Salvação.

        • Coloco também aqui a minha resposta à sua questão:
          “O problema não é gramatical. É saber como se acredita na prática, como se reliza isso.”

          Realiza-se da seguinte forma:
          A Fé é acreditar em Deus e no que nos revelou.
          Perante a transmissão do depósito da Fé (o que indiquei na outra resposta) o Homem submete completamente a Deus a inteligência e a vontade; com todo o seu ser, dá assentimento a Deus revelador, auxiliado pela Graça de Deus.
          Mas para ser movido a acreditar e procurar a Fé é necessário primeiro ser movido pela Graça de Deus, o Homem sozinho não o consegue fazer.
          Porque então alguns não acreditam e não procuram, Deus não lhes dá essa Graça?
          Pelo contrário, dá e deu-lhes possívelmente várias vezes, mas o Homem se estiver ocupado e distraído em obras que não são boas não repara na Graça e afasta-a:
          “Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, por não crer no Filho Unigénito de Deus. E a condenação está nisto: a Luz veio ao mundo, e os homens preferiram as trevas à Luz, porque as suas obras eram más. De facto, quem pratica o mal odeia a Luz e não se aproxima da Luz para que as suas acções não sejam desmascaradas. Mas quem pratica a verdade aproxima-se da Luz, de modo a tornar-se claro que os seus actos são feitos segundo Deus.” (Jo 3, 18-21)

          Assim na prática são necessárias duas coisas:
          – Transmitir a Verdade, o depósito da Fé completo e não apenas as coisas boas e humanamente bonitas
          – Proporcionar às pessoas momentos onde a Graça possa agir e elas se possam abrir e descobrir a Graça que lhes está a ser dada para se moverem a caminho da Fé

          Por isso para o primeiro ponto é importante não reduzirmos Jesus a um bom amigo, à alegria do Evangelho, ao amor, esquecendo que somos chamados a ser Filhos de Deus, falar da salvação e do pecado de forma clara, temos de falar do Caminho, da Verdade e da Vida e não apenas numa espécie de salvação no mundo, numa vida melhor, temos de falar na vida na Graça de Deus. Tudo não porque é bom para nós mas porque é o justo e verdadeiro.

          Por isso para o segundo ponto é tão importante não se reduzir a missa a convivio comunitário, celebração da alegria e da fraternidade entre os irmãos mas dar espaço ao oferecimento, ao silêncio, aprender a rezar intimamente, ver o Calvário no Altar, dar espaço à devoção e à piedade, aprender a simplesmente estar na casa de Deus e não estar sempre ocupado num levanta/senta/canta/responde.

          Por isso para o segundo ponto é tão importante aprendermos a fazer as coisas para Deus sem termos de colocar-nos sempre no centro das atenções, a área do santuário da igreja é um bom exemplo onde em vez de se tornar sagradamente um espaço onde tudo é dedicado a Deus como quem abre uma janela para o Céu não faltam ali elementos humanos como faixas com palavras, adornos como se fosse um palco a falar da nossa vida no mundo, onde se retiraram os santos e a beleza, onde se retirou o sacrário, onde o padre se torna o centro da atenção, tudo coisas que tapam a vista da janela para o Céu.

          Por isso para o segundo ponto é tão importante termos igrejas belas onde se entra e se respira logo uma atmosfera diferente. Precisamos de tornar o nosso agir e as nossas comunidades em espaço de devoção e piedade.

          Transformamos tudo de forma a ser humanamente enriquecedor, onde se celebra a alegria e o amor, isto para quem acredita até pode ser bom mas esquecemo-nos dos que não acreditam, colocamo-nos entre eles e a Graça que lhes estava a ser dada. Estamos a dizer-lhes vê-de como é belo acreditar mas eles sem a Graça inicial não vão perceber.

  9. Orlando de Carvalho

    Se a catequese deixasse de ser com catecismos definidos provavelmente entraríamos no caos. Se assim já anda tanta gente a fazer o que não deve em catequese, como seria?
    Se houvesse uma grande variedade de catecismos disponíveis, quem tem competência para fazer a opção? Se anda nos meandros da catequese deve saber que há paróquias onde nem o pároco percebe de catequese.
    A catequese não pode ser entregue às Famílias de Caná, aos Escuteiros, à Opus Dei, às Comunidades Neocatecumenais, nem a qualquer outro grupo. A catequese é a própria Igreja no seu mais puro sentido. Os grupos são particularizações da Igreja, carismas particulares, com perspectivas particulares que não podem ser impostas a ninguém no âmbito eclesial.
    Muitas paróquias oferecem já formações complementares. A questão fundamental que se coloca é porque não vão a esses encontros de formação. A questão é motivar as pessoas, anunciar-lhes que é bom participar e dar-lhes razões para participar. Mas as pessoas vão a esses encontros e na volta não sentem vontade de voltar porque eles foram mal preparados e mal organizados e mal ministrados.
    Depois de tantos ses meus aos seus ses, poder-se-ia pensar que estou aqui apenas a dizer mal. Não. O seu trabalho de reflexão é muito bom. Espero com a minha experiência estar a contribuir para o mesmo fim catequético emissionário.

    • Bem haja, Orlando, pela reflexão. A minha ideia era mesmo conseguir um forum de partilha, pois várias cabeças pensam melhor que uma só! Catecismos variados, sim, como há manuais variados de Inglês, Português, Matemática, sendo todos bons. Movimentos a participar na vida da paróquia, contribuindo, porque muitos vivem para “dentro”… E uma grande vontade de mudança. Somos, em Portugal, muito conservadores. Não nos atrevemos a experimentar, a inovar, mesmo que dê mau resultado, mas sem medo! E se, como concorda, a catequese está mal, por que não experimentar algo diferente em vez de dizer logo à partida “não resultaria”? Eu faço assim na minha casa e não me dou mal com o sistema 🙂 Ab

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