Em Caná da Galileia...


Fermento na massa

Há momentos em que tenho uma vontade enorme de me lançar de cabeça em cada uma das numerosas batalhas que nós, cristãos, precisamos de travar, neste nosso cantinho do mundo. Depois, com a ajuda preciosa do Niall, recobro a lucidez e decido manter-me na minha missão, sem me desviar um milímetro daquele que é o meu chamamento particular.

No entanto, mesmo sem organizar ações, recolher assinaturas, solicitar reuniões políticas, ou fazer greve de fome, tenho a obrigação de testemunhar a minha fé diariamente, de forma simples e à minha humilde escala. E tenho para mim que, se todos os cristãos assim fizessem, já teríamos recuperado os hectares de terreno que estamos a ceder, hora a hora, ao inimigo. E não teríamos necessidade de ações grandiosas.

Por exemplo, em relação à ideologia de género, que de forma tão insidiosa se está a impôr a professores e a alunos, através dos programas de Cidadania do ministério da educação. Já espreitaram o texto? Ao contrário dos outros textos do programa, que dizem por exemplo: “Lecionar equações de grau três”, deixando depois o professor decidir o que são equações de grau três, em relação à ideologia de género o programa apresenta um extenso tratado, com referências bibliográficas, nomes, etc, de forma a não deixar ao professor qualquer margem para dúvida sobre qual a posição do Estado relativamente ao assunto. Ou seja, o Estado está ativamente a lecionar a disciplina aos professores, para que estes a lecionem aos alunos sem se afastarem um milímetro da sua proposta.

Já assinei várias petições dirigidas à Assembleia da República, questionando a pertinência de tal ideologia em contexto escolar. Assinar petições é a parte mais fácil. Mas onde estão os pais cristãos, proibindo os filhos de assistir a sessões escolares organizadas por movimentos LGBT, ou marcando reuniões com as direções das escolas, questionando sobre a imposição transversal de uma ideologia que não tem qualquer fundamento científico? Como entre o quinto e o nono ano, os meus filhos frequentam uma escola católica, não tenho como fazer minha esta luta. Mas se vislumbrar algum sinal de alarme no primeiro ciclo, estarei na escola no dia seguinte, como já estive por questões menores. E naturalmente, se vier a lecionar a disciplina, atuarei à minha escala.

Semana santa, a Semana Maior dos cristãos. Os jovens que se preparam para o crisma não podem participar em atividades, porque têm ensaios gerais de ballet, explicações na manhã de domingo de ramos, concertos na noite de quinta-feira santa, competições e saraus na noite da vigília pascal. “Não podes faltar a esse sarau, a esse concerto, a essa competição?” Pergunta ingenuamente o Niall, catequista do crisma. “Claro que não! Impensável!” Respondem. E se respondêssemos ao contrário? E se os pais cristãos – são vários em cada grupo certamente! – dissessem ao professor de ballet, ao treinador de rugby, ao maestro ou ao explicador que nesse dia, nem pensar, porque um cristão não falta às cerimónias pascais, ponto?

Escravos do mundo e dos seus valores, os nossos jovens de hoje. Irão todos seguir carreiras nas artes e nos desportos? Quando é que as atividades de enriquecimento pessoal se tornaram incontornáveis? E de quem recebem os professores de todas elas a legitimidade para marcarem ensaios fora de horário e atuações nos dias santos? Não será que a recebem de nós, pais e mães cristãos? “Professor, nesse dia não posso vir ao ensaio porque é o Dia Mundial da Juventude e vou participar.” O programa da catequese foi apresentado no início do ano letivo, tal como foram ou deviam os ensaios e os saraus das diversas artes…

(No retiro, falei bastante sobre o que é isto de educar para o Céu, e se estamos realmente decididos a fazê-lo. O vídeo está aqui no nosso canal…)

Uma luta pequenina, à minha escala, feita de escolhas e testemunho cristão. Não precisava de ser pequenina esta luta, porque certamente não há só um cristão no grupo de ballet, na equipa de futebol ou na orquestra, nem só um cristão na sala de aula onde o professor fala de género como “categoria social diferente do sexo com que se nasce”, seja lá o que isso for.

Mas mesmo um só pai a ir à escola, mesmo um só jovem a faltar a um concerto ou a um ensaio por coincidir com as cerimónias pascais, já faz a diferença. É o Evangelho que no-lo diz:

O Reino de Deus é semelhante ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha, até que tudo fique fermentado. (Mt 13, 32)

Vamos a isso?

13 Comments

  1. MARÍA ANGÉLICA AMÉZCUA

    Tristemente não é só o ministério da educação….A semana passada o meu menino de 4 anos teve a sua consulta regular no centro de saúde. E a enfermeira, entre todas as perguntas que fazem às crianças para confirmar que o seu desenvolvimento é adequado à sua idade, perguntou: “tu és menino ou menina?” Depois de ouvir a resposta, insistiu duas vezes mais: “de certeza que és menino???” Eu fiquei a pensar o que poderá acontecer se alguma criança não responde o esperado….Fiquei mesmo incomodada e sem saber como reagir, porque não estava à espera de alguma coisa assim. Já o meu filho também anda numa escola católica para fugir à ideologia de género, entre outras coisas; mas agora não é só através da educação, mas também a saúde….Acho mesmo que os pais de família devemos unir forças nesta luta. Estas coisas ganham terreno também por ficarmos calados. (Desculpe o meu português. Sou estrangeira).

  2. Catarina Silva

    Teresa,
    Eu li este post e fiquei confusa…Devo andar completamente a leste…Já tinha ouvido que, em alguns países, o Cartão de Cidadão já não fazia referencia ao género da pessoa e na altura pensei: “Mas está tudo doido, ou quê? Como assim acabar com o género? Será que somos todos hermafroditas?”
    Não tinha noção que as coisas estavam neste ponto. A minha filha do meio está no 7º ano, tem cidadania e nunca dei conta que fossem abordados estes temas, pois só têm andado em “campanha” para angariar fundos para uma associação de ajuda animal.
    Teresa, isto é completamente assustador. Eu sinto-me assustada com tanto disparate…É claro que podemos (e devemos) agir todos à nossa escala e fazer o que estiver ao nosso alcance…mas não me parece de todo suficiente. Parece que a cada dia que passa tudo caminha para o descalabro. E isso é deveras assustador!

  3. Catarina Ramos Tomás

    Sou uma defensora da escola pública, por várias razões que não importam agora. Todos os meus filhos frequentam a escola pública por opção nossa, mesmo havendo capacidade e possibilidade de frequentarem uma escola privada.
    Mas essa opção faz de mim uma mãe muito atenta e muito presente e muito desassossegada.
    Partilharei, por sugestão da Teresa, a situação que estamos a viver, que diz respeito à temática da ideologia de género, defendida numa aula de cidadania de um 5 ano.
    Acredito, como a Teresa, nesta capacidade do fermento, mas é importante estar muito atento à farinha. É preciso ler todos os sumários, fazer todas as perguntas e ter tempo para ouvir todas as respostas. São os nossos filhos que estão dentro das salas de aula.
    E acima de tudo é preciso estar informado ou ir à procura da informação.
    E preparem-se para se sentirem estranhos num mundo que parece falar outra língua…

  4. Dois dos nossos filhos, um no 5º e outro no 7º, os que teriam Cidadania, não estão a frequentar esta disciplina. É a nossa forma de fazer “guerra”, já não frequentaram educação sexual anteriormente. Entendemos que todas estas matérias, ed. sexual e todas as temáticas abordadas em cidadania competem aos pais e não nos queremos demitir desse papel. Já recebemos avisos de limite de faltas ultrapassado, convocatórias para provas de recuperação, ameaças de retenção e exclusão, nada aceitámos. Queremos que nos dêem a liberdade de educar os nossos filhos, como nos dá direito a Constituição. Estamos nesta “guerra” até ao fim, Deus nos dê forças.

    • Parabéns, Paula. Há anos, fui professora de uma Adventista que durante a hora de inverno faltava à minha aula de Inglês de sexta-feira, por ser depois do sol posto, e sempre teve as faltas justificadas. E já fui professora de um Geová que não tinha autorização para festejar aniversários, pelo que saía da sala quando cantávamos os parabéns. Tudo é permitido a todos, exceto aos católicos… Vamos à luta!

    • Catarina Ramos Tomás

      Desculpem-me a frontalidade e não me interpretem mal, mas não me revejo nesta posição. Olhando os conteúdos da disciplina de cidadania (direitos humanos, igualdade de género, desenvolvimento sustentável, educação ambiental, saúde…) não tenho nada contra que estes temas sejam apresentados e debatidos em contexto escolar, nomeadamente na disciplina de cidadania.
      Acho que o nosso fermento tem mesmo que ser deitado também nesta farinha.
      O que acontece, e nomeadamente na minha situação aconteceu, foi uma deturpação das temáticas. Que por acaso aconteceu em cidadania, mas podia ter acontecido em ciências naturais (sexualidade) ou história (direitos humanos e escravatura) .
      Fiz ver à Diretora de turma a minha atenção e posição. E conversando com os nossos filhos, passar-lhes a nossa visão e perspectiva.
      E só por isso já valeu a pena…
      Desculpem-me, mas não estou em guerra…

      • Catarina Silva

        Por aqui ( e estamos a falar de uma escola pública perto de Lisboa), a disciplina de cidadania não abordou essa temática. Por isso fiquei admirada quando referiram que nas escolas dos vossos filhos se abordava o tema da ideologia de género. Por aqui passaram o 1o e o 2o período a elaborar um projecto e a fabricar e a vender objectos para angariarem fundos de forma a ajudar uma associação de recolha de a animais abandonados. Ao ponto de os pais questionarem se era só o tema dos animais abandonados que a disciplina de cidadania abordava… Não fazia ideia que os temas abordados na disciplina de cidadania pudessem ser tão discrepantes e muito menos relacionados com a ideologia de género…

      • Catarina, e eu concordo com ambas 🙂 Acho que, em situações limite – e para mim, limite é mesmo a ideologia de género – não permitiria que os meus filhos frequentassem as aulas, e admiro a Paula pela coragem. Mas nas restantes situações, acho importante que o façam, e não os retiraria.
        Eu sou favorável a que as escolas façam alguma educação sexual, porque como professora, estou bem consciente (muitas histórias, quem por aqui anda) de que a família, em demasiados casos (e as estatísticas estão aí para todos consultarem), é culpada de abusos que precisam de ser denunciados, e as crianças precisam de tomar consciência deles. Acho que a escola deve ensinar as crianças, por exemplo, a não deixar que os adultos lhes toquem. Não sou, de todo, a favor de que o tema da sexualidade deve ser exclusivo da família. Nem qualquer outro tema. Isso seria considerar que as famílias são todas bem intencionadas, e sabemos que não é verdade! Por isso não tenho qualquer problema em que o assunto seja tratado pelos professores dos meus filhos (embora discorde de muita coisa), e cabe-nos a nós, pais, acertar depois de acordo com a nossa religião ou o nosso sistema de valores. Como já disse aqui explicitamente, não sou favorável a que os pais optem por ensino doméstico por medo do tema da sexualidade (aceito, claro, que o façam por se identificarem mais com esse tipo de ensino).
        Agora a ideologia de género é isso mesmo, uma ideologia, que não devia nunca perturbar as nossas crianças. E que nada tem a ver com o respeito absoluto que qualquer ser humano nos merece, claro! Continuemos então o debate, que é preciso acordar o nosso país! Não estamos em guerra, Catarina, estamos todos, todos do mesmo lado 🙂 Bj

  5. Não é só nas escolas que há estas “confusões”… Há uns tempos apercebi-me desta situação: alunos de várias faculdades (pelo menos dentro da minha universidade) criaram páginas no Instagram para mostrar e defender os valores LGBT. Em resposta a estas iniciativas, outros alunos decidiram criar as suas páginas com o mesmo propósito, mas em relação aos heterossexuais. Resultado? Os das páginas LGBT vieram cair em cima dos heterossexuais.
    Para as eleições da Associação de Estudantes da minha faculdade, uma das listas afirmava-se como defensora do LGBT. Quando um aluno heterossexual lhes disse “não me vejo representado em vocês, não votarei a vosso favor” eles não tiveram resposta… Lá está, são só eles as vítimas de descriminação, não é? E ainda se fazem vítimas de descriminação! Tanto o são que acabam por usar a descriminação como defesa/arma…

    • Catarina Ramos Tomás

      Sofia acho que o fermento a que a Teresa se refere é justamente essas tomadas de posição que descreves.
      Eu própria estive envolvida (apesar de não ter perfil nenhum para isso 😊) na minha altura na Associação de estudantes. Fiz a minha parte e deixei a minha posição.
      Não foi das melhores experiências da minha vida, mas fiz dela um testemunho…

  6. Lamento muito, que até numa aula de Historia do 7ano,um dos meus filhos me contou que um Rei (nao me recordo qual Rei era)o professor disse que esse rei devia ter alcunha de gay!!!!e ja foi há dois anos,de imediato tive reuniao com a Diretora de turma,que achou inoportuna a minha indignaçao,porque muitos alunos eram assumidamente homessexuais,e que era natural.Até porque o bulling que havia na escola nunca era contra esses meninos….Sim mudei o meu filho de escola,radical?nao, apenas acho que fui sensata.Alias no meu proprio local de trabalho (há 20 anos)nao acharam bem que tivesse um terço discreto,ao lado do meu computador na minha secretaria.Mas pode se ter papeis colados nas paredes sobre a legalizacao do aborto,etc.Ai uma vez mais questionei superiormente,sim os papeis foram retirados,mas tambem tive que retirar o meu terço discreto…e a partir daí sou olhada por muitos como fundamentalista e retrógada….

  7. Helena Atalaia

    http://www.familiaesociedade.org/PTC/index.htm

    Um excelente programa com ótimos formadores para desenvolverem questões inerentes à sexualidade e formação de carácter nas nossas escolas, grupos, etc do 5º ao 12º ano. Vale a pena divulgar com os diretores de turma nas escolas e turmas dos nossos filhos.

  8. Helena Atalaia

    https://www.cig.gov.pt/documentacao-de-referencia/doc/cidadania-e-igualdade-de-genero/guioes-de-educacao-genero-e-cidadania/

    https://www.cig.gov.pt/documentacao-de-referencia/doc/cidadania-e-igualdade-de-genero/materiais-formativos/

    https://www.cig.gov.pt/pdf/2014/Education_Guide_Pre_school.pdf

    Aqui temos acesso a muitos conteúdos dados em cidadania. A questão que se coloca com esta disciplina é que em relação ao género (anteriormente denominado sexo) é premissa que o mesmo é uma construção social e que este é alvo de uma possível e frequente alteração. Como a ideia de base é errada e contrária a todo o conhecimento genético, biológico, científico, social, etc os estragos e erros são previsíveis e nalguns países já muito significativos. Não tem faltado dinheiro para a formação de professores para esta temática. Mesmo sem qualquer fundamento. Acho fundamental a família continuar a ter a liberdade educativa consagrada na C.R. E nessa liberdade autorizar ou não a formação da escola com estas temáticas.

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