Em Caná da Galileia...


Festa do Batismo do Senhor, ano C

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Reflexão semanal, escrita pela Teresa, sobre as leituras da missa do domingo seguinte, publicada no jornal diocesano Correio do Vouga

JESUS VEIO HABITAR TODAS AS NOSSAS REALIDADES

Vivemos, durante três domingos, a epifania – revelação – do Senhor. No primeiro, contemplámos a visita dos Reis Magos; no terceiro, contemplaremos o milagre das Bodas de Caná; hoje, contemplamos o Batismo do Senhor. Deixemos que Ele Se revele então diante dos nossos olhos, manifestando, aqui e agora também, a sua glória!

João batizava nas margens do Jordão, convidando o povo ao arrependimento e anunciando, iminente, a chegada do Messias. E eis que de repente, sem que ninguém imaginasse, na fila dos pecadores aparece Jesus. Num gesto de humildade como só Deus é capaz, ajoelha-Se na água fria, no meio da multidão que, chorando, confessa os seus pecados em voz alta, e recebe, também Ele, o batismo de João. Séculos antes, Isaías profetizara sobre esta humildade e mansidão do Servo de Deus: “Não gritará, nem levantará a voz, nem se fará ouvir nas praças…” E depois da ressurreição, também Pedro descreverá Jesus como Alguém que gosta de se misturar com o povo, Alguém que “não faz aceção de pessoas” e de todos Se faz próximo.

Pela incarnação, Jesus veio habitar todas as nossas realidades. E habitando-as, também as transfigurou. Nada nem ninguém fica indiferente à sua passagem! Assim também a água do Jordão que, ao acolher Jesus, ficou de imediato abençoada. E assim também o batismo de João que, ao ser recebido por Jesus, antecipou de imediato o batismo cristão. “Eu batizo-vos com água”, explicou João ao povo. “Ele batizar-vos-á com o Espírito Santo e com o fogo.”

E foi então que o Céu se abriu “e o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma corporal, como uma pomba. E do Céu fez-se ouvir uma voz: «Tu és o meu Filho muito amado.»” O que é que nesta descrição é simbólico, e o que é que João e os seus discípulos realmente contemplaram? Não sabemos. Mas sabemos, com toda a certeza, que algo de grandioso ali aconteceu, levantando a ponta do véu que oculta e revela – numa belíssima epifania – pela primeira vez na História, o mistério da Santíssima Trindade: O Pai, o Filho e o Espírito Santo. Foi tão forte a experiência desta epifania, que os Apóstolos a irão sempre relacionar com a unção de Jesus como Messias. Assim o explica Pedro à multidão: “depois do batismo que João pregou, Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré.”

Como é belo, o mistério do batismo! Quantas graças a dar a Deus, por nos revelar na vida de Jesus o poder transfigurante deste sacramento! Pois ao mergulhar nas águas do Jordão, Filho do Homem manifestando-Se como Filho de Deus, Jesus quis que cada um de nós, filhos de homem, pudéssemos contemplar a nossa vocação de filhos de Deus.

No Natal, com catorze dias de vida, foi a vez do meu oitavo filho receber este dom. Uma bilha de barro, uma vela, uma veste branca, um pouco de óleo perfumado. Por fim, o momento divino: a água derramada sobre a sua cabecinha, segura entre as minhas mãos.

O salmo diz que “a voz do Senhor ressoa sobre as nuvens, a voz do Senhor é poderosa, a voz do Senhor é majestosa.” E ainda: “A majestade de Deus faz ecoar o seu trovão.” Contudo, diante do mistério de um recém-nascido que é batizado, a única voz que escutamos é o seu choro de bebé bruscamente acordado do sono… Na verdade, a voz – a Palavra – que criou o Universo e que se fez ouvir no batismo de Jesus para que acreditássemos, ressoa agora, não na matéria, mas no mais profundo da alma de cada ser humano – o lugar preferido de Deus. É aí, nesse trono mais majestoso que qualquer estrela ou flor, montanha ou rio, que o Pai repete: “Tu és o meu filho muito amado!” E acrescenta, nas palavras de Isaías: “Eis o meu servo, a quem Eu protejo, o meu eleito, enlevo da minha alma!” “Fui Eu, o Senhor, que te chamei; tomei-te pela mão, formei-te…”

O meu pequeno Daniel, embora não o saiba, escutou esta Palavra e, misteriosamente, acolheu-a dentro de si, e assim fizemos todos nós, embora não o saibamos, no dia do nosso batismo. Durante o resto da vida, iremos procurar trazê-la à superfície da alma, para que ela nos conduza, seguros, a Casa.

Porque esta Palavra que nos identifica com Cristo também nos convoca a trilhar o caminho que Ele trilhou, a cumprir a missão que Ele cumpriu: “Fiz de ti a aliança do povo e a luz das nações, para abrires os olhos aos cegos, tirares do cárcere os prisioneiros e da prisão os que habitam nas trevas.” Pedro resume na perfeição esta missão: “Jesus de Nazaré passou fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo demónio, porque Deus estava com Ele” – e está connosco.

Hora da missa. Viemos à casa do Pai, a casa da família de Deus. Estamos aqui por direito próprio, porque esta é, também, a nossa casa, desde o dia longínquo do nosso batismo. Aqui nesta casa, rodeados de irmãos, iremos escutar de novo, no mais profundo da nossa alma, a Palavra que, um dia, nos salvou pela água e pelo fogo. Deixemos que ressoe, que nos emocione, que nos salve de novo: “Tu és o meu filho muito amado!” Depois, regressemos à nossa vida e, como Jesus, façamos o bem por onde passarmos…

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