Em Caná da Galileia...


O comboio da educação

Share on FacebookTweet about this on TwitterEmail this to someonePrint this page

“Outro dia tive uma conversa interessante com os meus colegas na universidade”, dizia-me o Francisco, quando nos sentámos para almoçar os dois. A estudar para exames, o Francisco passa o dia em casa, e posso desfrutar da sua companhia à hora de almoço.

“Então? Sobre o quê?”

“Sobre as crianças de hoje. Todos reparámos já que os miúdos de hoje são muito menos inocentes e muito mais atrevidos do que no nosso tempo.”

“Ena, vocês já falam em ‘nosso tempo’, com a vossa idade?”

“Claro! Esqueces-te de que nascemos no milénio passado?”

“É verdade, sim… 1998…”

“Pois. Quando nós andávamos na primária, os mais velhos metiam-nos, se não medo, pelo menos respeito. Nunca nos atrevíamos a dirigir palavra a um aluno mais velho. E se eles nos corrigiam – quando, por exemplo, a bola ia parar à cabeça de algum – nós fugíamos a sete pés. Hoje, mesmo na universidade, passamos por um puto de seis anos e ele é capaz de nos dar uma resposta torta. Já no 12º ano o senti: os miúdos do 5º ano eram capazes de nos passar à frente na fila da cantina sem qualquer vergonha. Não achas isto estranho? Uma mudança de atitude tão grande, em tão poucos anos?”

A surpresa do Francisco recordou-me uma afirmação que há tempos escutei. Algumas gerações atrás, os pais educavam os filhos nos valores em que tinham sido educados, segundo os moldes que tinham sido usados para com eles. A mudança em termos educativos notava-se saltando uma geração, ou seja, a mudança evidente acontecia apenas quando se comparavam avós e netos. Hoje, os pais não podem educar o terceiro ou quarto filho da mesma forma que educaram o primeiro… Os tempos mudam a um ritmo alucinante, e se não estivermos atentos, quando chegarmos à estação já não apanhamos o Alfa ou o Intercidades da educação.

Não nos iludamos: o mundo de hoje não é o mundo de há vinte anos atrás. De uma sociedade maioritariamente crente, passámos a uma sociedade maioritariamente ateia. De uma sociedade maioritariamente alicerçada em valores, passámos a uma sociedade do “salve-se quem puder”.

Se queremos que os nossos filhos cresçam nos valores morais que nos moldaram, temos de os ensinar de forma bem mais deliberada agora do que foi necessário connosco. Precisamos de usar toda a nossa criatividade, inteligência e habilidade para o fazer. Sobretudo, precisamos de tempo. Tempo de Família e Tempo de Deus.

É por isso que o Espírito Santo suscitou, para os dias de hoje, a Hora de Oração Familiar.  Conversando sobre as leituras da missa diária, ensinamos valores, ao mesmo tempo que, escutando os nossos filhos, descobrimos as “estações” por onde os seus “comboios” vão passando. Quantas revelações, quantos pensamentos partilhados, nestes minutos diários…

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *