Em Caná da Galileia...


O dom mais precioso

O Daniel já faz parte das brincadeiras familiares. Ora vejam como ele – quase – brinca com o António e a Sara na sala:

E vejam também como ele – quase – aprende a fazer o cubo mágico com os outros nossos três rapazes:

Pensei que ao fim de mês e meio, a novidade se tivesse esgotado e o Daniel deixasse de ser a prioridade dos irmãos. Enganei-me. A primeira coisa que os manos fazem, ao chegar da escola, é lavar as mãos para poderem pegar-lhe ao colo. E a primeira coisa que fazem, ao acordar, é correr ao nosso quarto para ver se o Daniel já acordou também. Em caso afirmativo, disputam-no entre eles, e o que vence pega-lhe ao colo:

Se a mãe tem de sair – e tem de sair tantas vezes no dia, para recolher e distribuir os seus irmãos! – há sempre quem cuide do Daniel. Ora vejam:

Uma vez por semana, quem se consola com o Daniel é a avó, que vem de Aveiro para o abraçar. Traz-nos jantar feito, chocolates para os meninos e doses de carinho para todos. Depois pega no Daniel, esteja ele a dormir ou acordado (de nada adianta dizer que faz bem ao bebé estar um bocadinho deitado no berço…), e já sabemos: no resto da tarde, o Daniel é todo seu!

É raro não ser eu a dar o leitinho ao Daniel, tarefa que adoro, tanto quanto adorei amamentar o Francisco, a Clarinha e o Tomás. Ao peito ou ao biberão (como foram alimentados os meus filhos a partir da morte do Tomás), é a nossa hora, o nosso momento de intimidade, porque nem só de leite se alimenta um bebé: alimenta-se sobretudo do carinho e do amor com que o envolvemos, e esses não são produzidos por nenhuma hormona, antes descem diretamente do coração para o olhar, o toque, o sorriso.

Mas nem sempre é possível ser eu a alimentá-lo. De noite, o pai e eu partilhamos a tarefa, porque o cansaço já se acumula. E às vezes preciso de deixar o Daniel entregue ao Francisco ou à Clarinha para me deslocar à escola dos meninos. Foi assim que descobri que partilhar o aleitamento do nosso bebé também pode ser belo!

Num destes finais de tarde, vi-me um bocadinho mais aflita do que o costume com tanto trabalho. No exato momento em que me preparava para sair a buscar a Clarinha, o Daniel acordou a gritar de fome. Que fazer? Preparei o biberão e estava para chamar o Francisco, quando a Lúcia se ofereceu: “Mamã, eu também sou capaz de dar o leitinho ao Daniel! Não confias em mim?” Hesitei um segundo, depois decidi aceitar. Coloquei o bebé ao colo da maninha de dez anos, avisei o David para chamarem o Francisco caso o Daniel se engasgasse ou chorasse, e saí. Lembram-se do livro Anita Mamã? 🙂

Cheguei a casa a tempo de pôr o Daniel a arrotar, e tudo correu bem!

“Como era a nossa vida antes da chegada do Daniel? Nem me consigo lembrar!” Exclamava a Clarinha ontem à tarde, enquanto ajudava no banho do seu maninho. “É difícil imaginar que houve um tempo pré-Daniel!” Concluiu. E continuou: “As minhas amigas perguntam-me como consigo concentrar-me a estudar com um bebé em casa. Não consigo, respondo. É demasiado excitante!”

Olho para o meu bebé, assim tão amado, e penso que toda a gente merece ser o centro das atenções uma vez na vida. Afinal, somos continuamente o centro das atenções de Deus, não é verdade?

Neste fim-de-semana chorei, ao pensar no bebé Julen, que se tornou o centro das atenções de parte do mundo por estar preso naquele maldito poço. Experimentei, como todos os que seguiram as notícias à distância, a angústia daqueles pobres pais, privados da companhia de ambos os seus filhos; e experimentei aquela corrente de solidariedade que percorreu Espanha e que uniu engenheiros, mineiros, bombeiros e tantos mais no resgate de uma única criança, como se mais nenhuma existisse na Terra. Arrepiei-me ao ver as imagens daquela montanha destruída pela maquinaria pesada, esburacada por todo o lado porque uma única criança estava presa no fundo de um poço e era preciso resgatá-la. Pensei na história da ovelha perdida, que Jesus contou:

Qual é o homem entre vós que, possuindo cem ovelhas e tendo perdido uma delas, não deixa as noventa e nove no deserto e vai à procura da que se tinha perdido, até a encontrar? (Lc 15, 4)

Um único bebé preso no fundo de um poço justifica que se arrisquem as vidas de todos nós para o salvar.  Somos tão valiosos! Contemplo o Daniel, adormecido nos meus braços enquanto escrevo este texto, a cabeça apoiada na almofada sobre as minhas pernas para que as minhas mãos estejam livres e possa escrever. E dou graças a Deus pelo dom da vida, tão preciosa, tão infinitamente preciosa, que faz qualquer sacrifício valer a pena…

 

 

 

3 Comments

  1. Catarina Silva

    Lá estou eu a chorar outra vez… Não há nada que possa ser acrescentado a um texto destes… Nada. Foi tudo perfeitamente dito, sobretudo no que ao dom da vida diz respeito.
    Que Deus vos abençoe sempre!
    Obrigada! Muito obrigada por partilharem momentos (e pensamentos, Teresa!), tão vossos e tão lindos!

  2. Que lindo que está o Daniel, Teresa! Obrigada mais uma vez pela partilha das fotos. Que lindo o amor entre os irmãos! Ao ler a Palavra hoje de manhã aos mais pequenos mostrei-lhes o post: a Clarinha, o Gabriel e a Sofia ficaram maravilhados com o testemunho. Um grande abraço para todos, com muitas saudades e sempre unidos em oração.

  3. ❤️ Somos todos tão preciosos❤️

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