Em Caná da Galileia...


O fogo e a luz em dia de S. Valentim

Estou há uma semana a procurar encontrar uns minutos para me sentar aqui a escrever, mas o tempo – mesmo o meu – não estica o suficiente. Tenho aproveitado estes dias verdadeiramente primaveris para fazer uma grande limpeza à casa e, claro, para passear com o Daniel pelos campos em redor. Assim, vou tentar escrever agora… Bem, vou tentar daqui a uns minutos, que o Daniel está a chorar. Volto já 🙂

Pode um casal viver apaixonado oito filhos depois daquele primeiro “Sim”? Ainda há tempo para o romance, quando há fraldas para mudar, trabalhos de casa para vigiar, crianças a recolher em três ou quatro escolas diferentes, dois carrinhos de compras para encher no hipermercado a cada semana e duas máquinas de roupa por dia para tratar?

E se o amor acontecesse, não apesar de tudo isso, mas por causa de tudo isso?

Gostaria de poder transmitir-vos tudo o que me vai na alma sobre o tema, mas o pudor natural que estes temas implicam, pelo seu carácter tão íntimo, não mo permite. Porque, como diz S. Paulo,

é grande este mistério! (Ef 5, 32)

Com o passar dos anos, aprendi a contemplar o Niall e a maravilhar-me diante da obra que Deus nele vai realizando, e sei – porque ele mo disse – que o mesmo acontece com ele. A cada recém-nascido que Deus nos oferece, cresce este espanto, perante o mistério que transforma um homem num pai, uma mulher numa mãe. Recordo-me do Niall no dia do nascimento de um dos nossos filhos quando, a pedido da enfermeira, lhe coube a ele vesti-lo ainda ali, na sala de partos. “Um dedo, dois dedos… Tem cinco dedos em cada mão”, dizia, enquanto lhe vestia o babygrow. “Um nariz, duas orelhas, dois olhos… Teresa, ele está completo!” Concluiu, e eu ri-me através dos pontos e dos soros, apaixonada por ambos – o meu bebé e aquele que o meu bebé transformou em pai.

Nos primeiros tempos de casamento, quando saíamos para jantares românticos em dias especiais, eu não sabia que iria haver algo mais importante que os jantares românticos para alimentar o namoro e a paixão entre nós: o cuidado com os filhos. Cada vez que vejo o Niall fazer caretas divertidas e barulhinhos especiais ao mudar a fralda ao Daniel, sentar-se sem pressa ao lado do David para o ensinar a estudar com sucesso, parar tudo para se debruçar sobre a construção de madeira que o António está a fazer, levantar-se de madrugada ao domingo para fazer panquecas, ou simplesmente ler Little House on the Prairie em voz alta para todos eles (como, há vinte e dois anos atrás, me lia a mim), disfarçando o cansaço, sinto redobrar a ternura e o amor que partilhamos há tanto tempo.

Naqueles momentos em que, exausta depois de tentar adormecer o nosso bebé durante duas longas horas sem sucesso, me deixo cair no sofá da sala à beira das lágrimas, não há nada mais reconfortante do que um abraço e um beijo do Niall, acompanhados das palavras mágicas: “És a melhor mãe do mundo! Os nossos filhos têm cá uma sorte!”

Os jantares a dois ainda são importantes, naturalmente, mas muito menos frequentes. Mais frequentes são os jantares a nove, cheios de desafios, gargalhadas, gritos, amuos, sorrisos, conversas e brigas infantis. E por entre a confusão, o Niall e eu trocamos olhares cúmplices: a que horas é que vão todos para a cama?

E é também a nove que mais gostamos de “gozar a vida”, como se diz por aí. É a nove que os piqueniques sabem melhor, na montanha ou na praia, e que os passeios ao fim da tarde apetecem. É a nove que as férias se enchem de aventuras e que os fins-de-semana permitem restaurar as forças para o embate com o mundo.

Mas é a dois que adormecemos, nos braços um do outro. E é para que isso seja possível que nos esforçamos por ensinar os nossos filhos a dormir desde os primeiros meses de vida, nas suas camas e antes das nove e meia da noite, até à idade em que gerem os seus próprios horários.
Porque depois, no silêncio da noite, quando até o bebé já dorme, o momento é nosso. Nunca adormecemos sem conversarmos, muito ou pouco, sobre temas leves e temas sérios, sobre o que nos atrai e o que nos afasta um no outro, sobre o que correu bem e o que correu mal, sobre o trabalho e sobre a vida na casa, sobre aquele grito desproporcionado que magoou o outro ou aquele mal-entendido que agora nos faz rir. Os conselhos que falam em “dever de sentar” uma vez por mês soam-nos a estranhos: uma vez por mês?

Vinte e dois anos depois do primeiro “Sim” – quantos “sins” são necessários ao longo da vida! – estamos mais apaixonados do que nunca. E se Deus nos permitir viver mais vinte e dois anos em conjunto, certamente que mais apaixonados estaremos ainda…

No dia do Batismo do Daniel, Natal 2018

Feliz Dia de S. Valentim!

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4 Comments

  1. Meus queridos amigos… embala-me a alma pensar no vosso quotidiano – mesmo quando estremeço ao pensar nos inevitáveis “tropeções” de sete!!! mudas de roupa, pratos, talheres…

    Porque é de Amor que se trata.
    Mútuo e recíproco, com uma linguagem comum, sob um Manto de Fé!

    Privilégio de Deus, amar e ser amado em tão serena plenitude!
    É muito bom estarmos próximos!

    Feliz dia de S. Valentim!

  2. Que belo e inspirador testemunho, Teresa!
    Um beijinho

  3. Licínia Maria Rodrigues Martins Vieira

    Procurei saber notícias tuas pois os teus textos foram diminuindo. Fazem muita falta, acredita! Hoje, li o resultado da demora: um texto lindo, inspirador e que nos faz acreditar nas coisas boas da vida quando são cuidadosamente trabalhadas ao longo dos tempos. E tu, tu sabes cuidar!
    Um beijo amigo.

  4. Catarina Silva

    Teresa,
    Se não transmitiu tudo o que lhe vai na alma por uma questão de pudor, não faz mal. Porque aquilo que transmitiu, foi belíssimo, claríssimo e mais que suficiente! Esse Amor são duas almas a fundirem-se numa só! E a mostrarem, a quem quiser ver, como o verdadeiro Amor pode crescer de forma inimaginável até nas tribulações (sobretudo nas tribulações!), como o vosso tem crescido.
    Vocês têm um testemunho precioso. Deviam pensar em dar apoio conjugal a casais (até me custa escrever isto, dada a quantidade de coisas que vocês já fazem – parece-me até desumano…desculpem). É que existem tantos casais “perdidos”, visivelmente a afundar, que precisavam tanto de um testemunho de luz como o vosso!
    Obrigada!
    PS – O vosso Super-Bebé está mesmo lindo. Ri-me aqui sozinha ao computador ao ver a foto com o fatinho de super-homem 🙂

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