Em Caná da Galileia...


O maior inimigo da Igreja

Na semana passada, as leituras da missa diária trouxeram-nos algumas belas conversas em redor do nosso Canto de Oração Familiar. Uma delas foi a propósito da célebre mãe de João e Tiago, os filhos de Zebedeu:

Aproximou-se então de Jesus a mãe dos filhos de Zebedeu, com os seus filhos, e prostrou-se diante dele para lhe fazer um pedido. “Que queres?” Perguntou-lhe Ele. Ela respondeu: “Ordena que estes meus dois filhos se sentem um à tua direita e o outro à tua esquerda, no teu Reino.” (Mt 20, 20-21)

O mais engraçado desta história é que ela acontece precisamente depois de Jesus perder o seu tempo a explicar aos discípulos que a sua realeza se iria consumar no sofrimento e na morte. Bem podia Jesus pregar! Jesus falava de sofrimento, os discípulos pensavam em poder; Jesus falava de humilhação, os discípulos pensavam em glorificação; Jesus falava de serviço, os discípulos pensavam em prestígio. Que bela equipa Jesus arranjou! Não admira que, de vez em quando, Jesus suspirasse profundamente, como nos relatam os Evangelhos.

Dois mil anos depois, a história repete-se. Não precisamos do mundo lá fora para magoar Jesus: agora como então, basta o círculo restrito dos seus amigos, reunidos, por exemplo, numa paróquia! Já vi várias pessoas perderem a fé por entrarem em contacto com o trabalho paroquial. E já vi várias pessoas recusarem o trabalho paroquial para não terem de entrar em contacto com o que de mais mesquinho existe dentro do ser humano… Ali, onde se deviam viver até ao limite as virtudes do serviço, da humildade, da caridade, do perdão, vive-se tanta e tanta vez o orgulho, a vaidade, a busca das honras e dos elogios. Olhemos para dentro de nós mesmos: por debaixo da capa da missão, esconde-se, sem às vezes nós próprios suspeitarmos, a procura do primeiro lugar. Na verdade, poucas vezes estamos conscientes desta procura! Só nos apercebemos das nossas verdadeiras intenções quando somos destituídos de um cargo, quando nos criticam, quando reagem mal às nossas propostas. Então, o nosso orgulho transforma-se em alfinetadas de inveja com que picamos os irmãos.

Preocupamo-nos com os inimigos da Igreja? O maior inimigo da Igreja está dentro dela mesma: os cristãos. O maior inimigo de cada um de nós vive dentro de nós mesmos: o nosso eu. Jesus não foi traído pelos de fora, mas pelos seus amigos mais íntimos. Um traiu-O por um punhado de moedas de prata, outro negou-O diante de algumas criadas… Se a Igreja, este bando de pecadores como tu e eu, sobreviveu até hoje, é tão somente porque ela é obra de Deus e não nossa.

“Vou-me embora”, pensamos, cansados dos atribulados caminhos destas aldeias de vida cristã. Depois levantamos os olhos e contemplamos o Crucificado: Ele fica. Ele ficará sempre. Cada alfinetada que experimentamos é sofrida na Sua pele, na Sua Carne entregue por nós. Como temos a coragem de O deixar só?

Caminhar na Quaresma a caminho da Páscoa é também isto: descobrir a verdadeira intenção por detrás do nosso serviço apostólico, como catequista, como diácono, como leitor, como cantor, como organista, como mordomo, como membro de um qualquer movimento apostólico. O nosso “eu” quer reinar? Não nos permitamos, nunca, um comentário mesquinho sobre alguém, uma troca de olhares mordaz, um sorriso sarcástico. Não nos permitamos, nunca, desistir como quem amua, ou simplesmente recusar pegar no arado com receio das bofetadas. Ambas as atitudes são formas disfarçadas de orgulho. À morte! À morte com o nosso “eu”! Crucifiquemo-lo na Cruz de Jesus! Alegremo-nos com cada alfinetada recebida, façamos o nosso melhor sorriso perante cada humilhação, e caminhemos nas pegadas do nosso Salvador! Na Cruz, e só na Cruz, havemos de reinar.

À semelhança dos filhos de Zebedeu, também temos um longo caminho a percorrer. Eles percorreram-no. E alcançaram os cumes da santidade. A nós não nos é pedido menos. O importante, para qualquer um de nós, não é o ponto de partida, mas o de chegada.

“Nós, Jesus!” Repetimos. Na Cruz, e só na Cruz, consumar-se-á o Amor que nos une. Quando assim vivermos, profundamente identificados, Amada com Amado, Criatura com Criador, então seremos felizes.

Já sabem cantar este cântico? Aqui fica como lema de quaresma…

 

 

 

4 Comments

  1. Querida Teresa,
    como me revejo nas suas palavras, o apagamento do eu é indiscutivelmente a grande tarefa dos homens, para que mergulhem no amor divino.
    E Jesus, Dele mesmo apenas disse que era Manso e Humilde de coração… não que era o mais disto ou aquilo!
    A Igreja, nós, em bicos de pés, com as hierarquias, explícitas e as inventadas… este é somente o modo imperfeito como procuramos seguir a Jesus… a Fé terá de ser uma outra coisa!
    Que o Senhor nos guie e proteja.

  2. Olívia Batista

    E o pior… é que ao ler este texto começo sempre por pensar que é tudo verdade, que os outros é que estão mal… quando tantas vezes sou eu própria o maior inimigo da Igreja… é sempre mais fácil ver os defeitos dos outros do que “a trave que me cega”…

  3. maria de lurdes

    Olá Teresa
    Ontem estive a ouvir-vos na paroquia da vera cruz. Gostei muito principalmente da vossa alegria a falar da espiritualidade das famílias de caná. Senti-me um bocadinho pequenina porque sempre me queixo da falta de tempo, da correria do dia a dia e quando vos ouvia só me acorria como conseguem? E a resposta do marido foi tão simples, dada de forma tão humilde que só posso dizer obrigada e parabens. Realmente quando damos a prioridade ao Senhor o tempo quase que estica… muito interessante a vossa espiritualidade principalmente no que diz espeito às crianças. É de pequeninos e com a experiência vivida e vivenciada em família que se tornam cristãos completos. Foi muito lindo… parabens pelo testemunho.
    M. Lurdes

    • Caminhe connosco, Maria de Lurdes! Precisamos de Famílias de Caná em Aveiro!!! Bem vinda! Bj

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