Em Caná da Galileia...


Ociosidade

Quando as férias acabarem e eu regressar à minha profissão como professora de Inglês, irei naturalmente perguntar aos meus alunos de doze, treze, catorze anos o que fizeram nas férias. Mas já conheço de antemão a resposta mais frequente: “Nada”. Outros dirão: “Comi e dormi”, ao que eu, como costume, ripostarei: “Não preciso que menciones as atividades fisiológicas a que todos estamos obrigados!”

Sempre me surpreendi com a falta de imaginação destas respostas, mas nestas férias tive a oportunidade de constatar a sua veracidade. De facto, os dois adolescentes que acolhemos temporariamente têm uma enorme dificuldade em encontrar formas de ocupar o seu tempo livre que não incluam um entorpecimento do corpo e da mente em frente do computador ou do telemóvel (objetos pessoais que trouxeram consigo, e que permitimos que utilizem livremente, embora com auscultadores, para não interferir com as brincadeiras, longe das tecnologias, dos nossos filhos). Por muito que nos esforcemos por lhes oferecer alternativas, a sua resposta é um encolher de ombros desinteressado.

Em contrapartida, os nossos filhos, ensinados desde o berço a procurar ocupações por si mesmos, sem recurso constante nem às tecnologias, nem às atividades organizadas por adultos (como campos de férias ou ATLs), acham sempre que o verão é demasiado curto para realizar todos os projetos a que se propõem. Lembro-me do Francisco adolescente, suspirando todos os anos no regresso às aulas: “Tinha tantas coisas ainda para construir nas férias!” E alegro-me ao ver os irmãos mais novos a trilhar o mesmo caminho.

Assim, neste verão já se construíram muitas coisas cá em casa. O Francisco até desistiu de chamar sua à oficina que montou num cantinho da garagem. Aí todos mexem com tudo, desde cola quente a martelos:

E aí nasceram já muitas obras de arte:

Quadro de conchas do António

Robots e outras figurinhas com pacotes de leite fresco e paus de gelado, pelo António e o David

Coração de lã numa estrutura de pregos e madeira, feito pela Clarinha

Casinha para algum animal perdido, feita pelo António

Zarabatanas, feitas pelo David e pelo António com alguma ajuda do Francisco

A cozinha é outro lugar de experimentação, e não só para meninas! O António, com oito anos, é capaz de fazer um bolo inteiro sozinho, seguindo o livro de receitas. Quando digo “sozinho”, é mesmo isso que quero dizer!

E nos quartos a atividade continua:

Muita costura, para a Clarinha e a Lúcia

Somam-se ainda horas e horas de leitura, com viagens à biblioteca todas as semanas para um reforço de livros:

Na semana passada, encontrei a minha família assim:

E, claro, horas e horas de brincadeira livre, passeios de bicicleta, explorações um pouco por toda a nossa aldeia.

Vemos televisão e usamos os computadores? Sim, naturalmente. Mas com objetivos bem definidos: um filme familiar escolhido previamente, uma pesquisa para uma atividade… Quando os filhos pequeninos, assim educados, se tornam jovens, já são capazes de fazer as suas escolhas com segurança, e as tecnologias podem até ajudar a construir hobbies saudáveis, como a fotografia e o vídeo no caso do Francisco!

O Niall e eu temos conversado muito sobre esta tendência para a ociosidade dos adolescentes modernos, e questionamo-nos como é possível os pais permitirem tanta perda de tempo e de talentos. O tempo é um dom de Deus, e a vida na Terra é tão curta, que não nos podemos dar ao luxo de a desperdiçar. Se há, nos dias de hoje, um “ópio do povo”, como Marx afirmava, são sem dúvida as redes sociais e a televisão, que permitem aos jovens passar horas seguidas a julgar que fazem alguma coisa, quando simplesmente mergulham no vazio. E se há um vício a que podemos chamar a mãe de todos os vícios, esse vício é a preguiça. Cortá-lo pela raiz parece-nos, a nós, uma das mais importantes funções da educação.

Num destes dias, enquanto relia os livros que tenho sobre a família de Santa Teresinha, para preparar o retiro de que vos falei e que em breve anunciarei, encontrei este parágrafo:

(Na casa da família Martin) a ociosidade era implacavelmente banida.  O estudo, os lavores femininos e as artes decorativas absorviam todos os momentos livres do dia. (História de uma Família, Piat)

Como desejava ver-nos sempre ocupadas, o papá esforçava-se por desenvolver as nossas capacidades e, com este objetivo, procurava fornecer-nos o necessário e o supérfluo para os nossos trabalhos de costura e de pintura: fios especiais para as rendas, conchas de ouro, folhas de marfim ou de pergaminho, para as miniaturas da Paulina. (Testemunho de Maria Martin, citado em Um Amor Escrito no Céu)

Afinal, a nossa intuição levou-nos a imitar as intuições dos santos… Não devemos estar muito errados! 🙂

3 Comments

  1. Eles são mesmo capazes de tudo, basta terem esse espaço. Tantos exemplos aqui por casa graças a Deus e à televisão desligada.
    No outro dia uma vizinha espantava-se com a agilidade fisica dos rapazes cá de casa, no António que já nao usa rodinhas na bicicleta, no Gaspar que acabava de saltar o seu muro para abrir o portão por dentro, porque, coitada, tinha deixado bater o portão e ficado trancada do lado de fora, etc… Disse-lhe: “Não há nada de espantoso nisso, eles passam o dia sobre rodas para trás e para frente, de rampa em rampa. Andam sempre a treinar-se. Não usamos a televisão, sobra-lhes muito tempo.”
    Sou quase absolutamente contra a brincadeira organizada. Desde sempre. Toda a minha infância foi por campos sem fim e pais à vista! E o engraçado é que só muito de vez em quando dava conta, através de conversas passageiras, que afinal sempre tinha vigilância. E os meus pais não o faziam por consciência do bem pedagógico porque nao sabiam nada da pedagogia dos livros. Faziam-no porque era assim, naturalmente era assim.
    Não havia pais, tios, avós especialistas em brincadeiras, não havia uma panóplia de ofertas empresariais ou online, tínhamos que “puxar pela cabeça” e toda a liberdade (a sóbria, claro).
    Quantas vezes quando vejo o Gaspar sem saber com que ocupar o tempo (acontece quando os irmãos vão dormir a sesta e ele fica sozinho) lhe ponho, sem ele dar conta, um lego à vista, um saco de tralhas para construções. Às vezes é preciso sermos os “animadores” de serviço, mas eu opto por fazê-lo assim, muito discretamente. E resulta! Julgo que a maior missão de uma mãe é apenas esta, estar sempre muito, muito atenta e ser muito, muito discreta.
    Ui… E tanto que há a dizer sobre este tema!!

  2. Teresa,
    Obrigada por mais esta excelente partilha.
    Concordo plenamente com o que refere quanto aos benefícios de adiar as distrações eletrônicas para uma idade mais madura – sem dúvida que são demasiado absorventes para deixar espaço para a criatividade e livre iniciativa em potência que existem em cada criança! É até assustador pensar que adultos teremos no futuro…

    Mas quanto aos tempos programados e supervisionados por adultos, muitas vezes os ATLs são a única saída para quem tem 23 dias de férias no ano contra os 66 dos nossos filhos no período do verão.

    • Bom dia, Margarida! Como sempre, um comentário interessante! Claro que a grande maioria dos pais não tem férias de professor 🙂 Mas a Margarida sabe certamente que há muitas crianças que até esses 23 dias de férias passam nos ATLs… São as professoras dos infantários que repetidamente mo têm dito! Porquê este cansaço dos próprios filhos? Não estará nessa dificuldade em educar várias áreas das suas vidas?
      Outro ponto muito importante a realçar é a falta de luta das mães portuguesas ou dos seus representantes partidários por horários compatíveis com os dos filhos, trabalho a meio tempo, etc, como eu vejo que acontece, por exemplo, na terra do Niall, na Irlanda, onde ainda não conheci uma mãe que trabalhasse a tempo inteiro… Nós acomodamo-nos muito como povo! Enfim, antes de dizermos “para mim isto é impossível” é preciso explorar todas as possibilidades, e é preciso lutar muito. Palavras, eu sei, fáceis para quem tem emprego garantido, mas gostaria tanto de ver o meu povo mais “amigo da maternidade”! Um beijinho

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