Em Caná da Galileia...


Pedras Vivas

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No muro exterior de uma igreja que visitei recentemente, estava um letreiro gravado com a seguinte inscrição: “À memória feliz do nosso antigo pároco, o padre…, com profunda gratidão pela obra maravilhosa que nos deixou: a restauração da casa paroquial e o monumento a Nossa Senhora.”

Há algum tempo, em conversa com um amigo, recordei algumas das Madres Superioras do antigo colégio dos meus filhos, e referi uma que me marcou especialmente, ao que ele respondeu: “Sim, essa irmã era simpática, mas não deixou obra. A que a seguiu, essa sim, deixou obra feita.” Referia-se, como depois me explicou, à ampliação do Centro Social com um ginásio e novos espaços de brincadeira.

Não tenho absolutamente nada contra as obras materiais da Igreja, e acho muito bonito e sinal de gratidão o letreiro dos paroquianos na dita igreja, ou o comentário do meu amigo sobre a dita Irmã. Não me interpretem mal! Mas será que a obra de Deus se pode medir pelo número ou pela qualidade de obras materiais? Numa altura em que o Papa Francisco tanto tem apelado à “desclericalização” da Igreja, não poderiam estes trabalhos necessários e importantes ser entregues a leigos, permitindo aos sacerdotes concentrarem-se no que realmente importa? Não estamos propriamente em tempos de excesso de sacerdotes, pelo que cada um já tem obra espiritual suficiente para edificar! Lembro-me sempre do discernimento dos Apóstolos, quando se viram obrigados a escolher a obra que mais se adequava à sua vocação, diante de todas as obras boas que a missão lhes exigia:

Os Doze convocaram então a assembleia dos discípulos e disseram: “Não convém deixarmos a palavra de Deus, para servirmos às mesas. Irmãos, é melhor procurardes entre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria; confiar-lhes-emos essa tarefa. Quanto a nós, entregar-nos-emos assiduamente à oração e ao serviço da Palavra.” (At 6, 1-4)

A purificação da Igreja passa também por aqui. E cabe-nos a nós, leigos, famílias, oferecermos aos nossos sacerdotes a nossa disponibilidade para as obras materiais da Igreja, para que os nossos sacerdotes possam celebrar os sacramentos e estar ali quando for preciso confessar, batizar, aconselhar, pregar. Porque a sua grande vocação é semelhante à de Maria: dar-nos Jesus.

Neste início de ano pastoral, e enquanto rezamos para que o Senhor nos dê muitas e santas vocações, recordemos todos – sacerdotes e leigos – as palavras do nosso primeiro papa, S. Pedro:

Também vós, como pedras vivas, entrais na construção de um edifício espiritual, em função de um sacerdócio santo, cujo fim é oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus, por Jesus Cristo. (1Pe 2, 4-5)

Ámen!

3 Comments

  1. João Miranda Santos

    Também acho que este é um passo urgente para a nossa Igreja, os sacerdotes focaram-se na sua missão e vocação. É grande a tentação que sentem de se dedicarem prioritariamente às coisas materias e organizacionais. Por um lado por necessidade de controlarem as coisas e pela falta de leigos disponíveis para o fazerem e em quem elea confiem. Por outro lado também será porque o retorno das obras materiais é muito mais visível e imediato do que o retorno das obras pastorais. É semelhante ao que acontece aos pais que se ocupam mais prioritariamente ao trabalho do que à família. E, claro, em ambos os casos é mais reconhecido pelo “mundo”, o que está bem retratado nestes exemplos que dás. A verdade é que também lhes são exigidas mais responsabilidades no campo material do que espiritual. Ainda recentemente foi noticiado o afastamento de dois sacerdotes das suas funções por má gestão. Não me recordo de ver padres retirados das suas funções por não terem conduzido almas para o céu, por não terem disponibilidade suficiente para estarem no confessionário, ou por não garantirem um bom nível de qualidade da catequese.
    Rezemos pelos sacerdotes e não tenhamos também receio de os ajudar a focarem-se na sua missão.

  2. O comentário anterior deixou-me a pensar: o curso de teologia e a formação sacerdotal antes da ordenação inclui alguma cadeira de finanças, economia ou “gestão religiosa”? E de construção e obras públicas?
    De facto, parece-me inacreditável o afastamento dos padres por má gestão.
    É também verdade que eles próprios se devem afastar dessas matérias, que nem sempre acontece. Mas também é verdade que, por inerência de cargo, o padre é sempre o presidente de qualquer comissão ou conselho paroquial. Talvez a igreja devesse começar por aí, e libertar os padres dessa responsabilidade e, muitas vezes do abuso de poder que ela conduz.
    A César o que é de César, a Deus o que é de Deus. Vamos rezar para que a igreja comece a dar a Deus o que é de Deus e deixar o que é de César aos que podem servir.

  3. Cristo não formou uma Igreja de pedras e casas… e cada vez mais se confunde Igreja com intervenção social, geradora de IPSS.
    Triste confusão, quando se apela à partilha fraternal entre todos e não à organização solidária de recursos. Que estes sejam tutelados pelo espírito cristão, mas não decorrentes do sacerdócio!
    Confundimos noções e geramos equívocos. Que Deus nos guie!

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