Em Caná da Galileia...


Perfeita imperfeição

O Daniel fez um mês dia 11, e que crescido está! Mas quanto mais bonito ele, mais cansados nós, seus pais. Numa destas noites, pela uma da manhã, o Daniel acordou com fome, depois os seus intestinos trabalharam, e trabalharam com tanto entusiasmo, que a fralda não foi suficiente para os conter. E assim, pela uma e meia da manhã eu estava a dar um belo banho ao meu bebé no lavatório, pois não havia tempo nem condições para preparar a sua banheira. Claro que, com o banho em cima do leite, vieram os soluços, depois as cólicas, e às duas da manhã, o Daniel procurava acalmar pendurado a mim, no pano. Sentei-me aqui ao computador, trabalhei um bom bocado, e eram três horas quando fomos, finalmente, os dois dormir, bem abraçados um ao outro. Às cinco da manhã, foi a vez do pai cuidar do Daniel, novamente com fome, novamente acordado e pronto para brincar… E às sete, o despertador tocou: mais um dia de trabalho e de escola que começa! Graças a Deus, a aventura noturna chegou ao fim!

Geralmente, é por esta altura, quando os bebés chegam ao mês de idade, que as mães atingem o pico máximo do cansaço. É pois conveniente olhar para estas aventuras com uma pitada de humor, cobrindo o desalento com gargalhadas. Nós temos bastante prática e algum jeito para o fazer. Temos também um acordo, o Niall e eu, desde o nosso primeiro bebé: durante os meses em que é preciso acordar de noite para cuidar do bebé, as palavras que trocamos entre a hora de deitar e a manhã não valem. Ou seja: ao acordar, estamos proibidos de nos acusarmos mutuamente por qualquer mal-entendido durante a noite, quando o sono nos fez dizer o que não queríamos ou usar um tom mais agressivo um para com o outro. Um acordo que nunca quebrámos e que aconselho vivamente a todos os casais 🙂

Tenho tido a oportunidade, neste mês, de me cruzar com outras mães e de trocar algumas histórias com elas, bem como de ler alguns mails que me chegaram. E apercebo-me da angústia que pode acompanhar a imperfeição da vida: umas lamentam não terem tido partos naturais, outras não conseguir amamentar. Umas têm pena que os seus bebés tenham nascido com problemas respiratórios ou alérgicos, outras contam como os seus bebés choravam inconsolavelmente noite após noite. Tenho uma vizinha enfermeira que trabalha em obstetrícia e está, portanto, habituada a colocar diariamente bebés à mama das mães, como todas as enfermeiras das maternidades. Mas quando chegou a sua hora de ser mãe, não foi capaz de amamentar o seu filho. Que sentimento terrível de culpa a assolou então! Uma outra mãe confessou-me que adoraria ter tantos filhos como eu, mas os partos dos dois filhos foram tão difíceis, com complicações de saúde tão graves, a ponto de quase lhe destruírem a bexiga e o útero, que não se atreveu a arriscar novamente. Eu escuto, e todas estas histórias fazem eco em mim, na experiência da imperfeição que também acompanha a minha vivência da maternidade.

Com quem nos comparamos todas, na nossa angústia e nos nossos lamentos sussurrados? Possivelmente com as histórias perfeitas de algumas mães que conhecemos pessoalmente ou via internet, mães que tiveram partos perfeitos, amamentações perfeitas, bebés perfeitos. Mas acima de tudo, comparamo-nos com a mãe que sonhávamos ser e não somos, e comparamos o nosso bebé com o “bebé de sonho” que também não tivemos.

A vida destrói os nossos sonhos, e ainda bem. O que seria de nós, se todos os nossos sonhos se realizassem? O que seria de nós, se a nossa experiência de maternidade fosse perfeita, sem angústias, sem erros, sem mácula? Quanta vaidade, quanto orgulho pode trazer a perfeição humana!

Estava eu a pensar nisto outro dia, o pensamento enevoado com a falta de sono, quando, ao entrar na cozinha onde o Niall fazia o jantar, a canção que ele escutava me fez estremecer. Era uma conhecida canção de Leonard Cohen, cantada naquela sua voz única, e dizia assim:

Forget your perfect offering

There is a crack in everything,

that’s how the light gets in.

(Esquece a tua oferta perfeita

Em tudo há uma fenda

é por aí que entra a luz.) (Anthem)

Então é isto, pensei. A autêntica perfeição humana está no facto de sermos imperfeitos, de tomarmos decisões erradas, de nos enganarmos tantas e tantas vezes, de não sermos capazes de alcançar o que almejamos. Não tenhamos ilusões: nunca teremos a oferta perfeita para fazer ao Senhor! O Papa Francisco assim o diz, quando fala dos santos:

Para identificar qual seja essa palavra que o Senhor quer dizer através de um santo, não convém deter-se nos detalhes, porque nisso também pode haver erros e quedas. Nem tudo o que um santo diz é plenamente fiel ao Evangelho, nem tudo o que faz é autêntico ou perfeito. (Gaudate et Exsultate nº 22)

A imperfeição da vida não é necessariamente pecado. O pecado é outra coisa, implica malícia, enquanto esta imperfeição é simplesmente isso mesmo, imperfeição (ainda que possa ser resultado indireto do pecado, pois o pecado obscurece a mente e dificulta o pensamento). Enquanto vivermos neste mundo, sabemos que em tudo há uma brecha, uma pequena rachadela. Mesmo na mais perfeita das mães.

Mas como Cohen, também eu sei, por experiência e por observação, que é por essas fendas, humildemente aceites e oferecidas, com suspiros, lágrimas e – também – humor, que entra a Luz…

 

 

 

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8 Comments

  1. Wow, que lindo artigo. Obrigado Teresa.

  2. Lindo mesmo! Beijinhos para todos

  3. Apesar de a minha vida não ter nada a ver com o dom da maternidade (por enquanto ;P) – este teu texto maravilhoso falou-me bem fundo e directo ao coração. Obrigado querida Teresa! Beijinhos grandes para todos

  4. Muito bonita, esta reflexão!

  5. Catarina Ramos Tomás

    É preciso ter percorrido algum caminho para ter esse entendimento. É preciso acreditar muito nisso e não deixar esquecer.

    Preciso de me lembrar disso todos os dias pois continuo a acreditar que “hoje é que vai ser o dia perfeito em que tudo vai correr como eu planeei.”

    Obrigada por me lembrar que não tem que ser perfeito e que é na nossa imperfeição que a luz se manifesta. Vou à procura da luz na fenda…

  6. Alexandra Vieira

    Bonito artigo!
    E gostei muito do acordo noturno :-). Pessoas sábias!

  7. O cansaço, as noites mal dormidas…não lhe tiram o bom humor, nem o sorriso dos lábios…sinto uma imensa admiração por vós e pela vossa família. Que o Senhor vos continue a acompanhar e abençoar…

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