Em Caná da Galileia...


Quanto vale uma medalha

Num dos últimos fins-de-semana, fomos em família a Braga assistir à primeira competição internacional de ginástica artística de segunda divisão em Portugal. A Clarinha iria participar nos quatro aparelhos de ginástica: trave, salto, barras assimétricas e solo.

A Clarinha pratica ginástica quase desde que aprendeu a andar. Em casa, claro! Habituámo-nos a vê-la a fazer rodas e pinos, sozinha no jardim, com quatro, cinco, seis anos. Vimo-la crescer de roda em roda, aprender pelo Youtube a fazer a roda sem mãos, aprender com o professor de Educação Física (que já tinha sido treinador de ginástica) a fazer o flick e depois treinar sozinha no jardim. Mas porque na nossa zona não havia nenhum clube de ginástica, cresceu sem ter acesso a treinos específicos, para além de algumas aulas extra com o professor no Colégio.

Um dia descobri que tinha aberto no recém-construído Velódromo Nacional de Sangalhos, a dez minutos de casa, uma classe de ginástica. Fiquei em êxtase: finalmente, a Clarinha iria poder concretizar o seu sonho e ter aulas de ginástica rítmica ou artística a sério! Inscrevi-a nesse mesmo dia, duas horas e meia duas vezes por semana. E aos treze anos, a Clarinha começou a treinar com um grupo.

Começou pela ginástica rítmica, com muitas fitas e bolas, arcos e cordas, e a sua felicidade era imensa. Mas depois de quatro ou cinco competições, a Clarinha pediu para desistir: a treinadora só gritava, não aceitava erros, irritava-se se as meninas não davam tudo. E as meninas que competiam estavam ali para ganhar medalhas e não para fazerem amigas e para se divertirem. A Clarinha, para quem a ginástica era sobretudo uma forma de saborear a vida e agradecer o dom do movimento e do corpo, não aguentou a pressão. Saiu.

À mesma hora e no mesmo local, treinavam as meninas da artística. Algum tempo depois, e embora a medo, a Clarinha decidiu experimentar. E adorou. Deixando as bolas e os arcos, dedicou-se às traves e às barras, e em pouco tempo estava a par do grupo mais avançado da classe. Hesitou um ano antes de entrar em competições, e só decidiu competir quando observou com os seus próprios olhos o que o novo treinador e as novas amigas lhe asseguravam: que naquela equipa competiam para se divertir, para brincar e crescer na amizade e na aprendizagem, que o treinador não gritava nem se zangava e estava sempre tudo bem. E que nem por isso deixavam de dar o seu máximo e evoluir a valer!

E foi assim que em Braga, aos dezassete anos, a Clarinha ganhou duas medalhas de bronze, uma em trave e outra em solo. As lágrimas enchiam-me os olhos, quando a contemplava, feliz, discreta, bonita, no pódio, ao lado de ginastas de percurso linear, que praticam desde crianças. É simplesmente justo, pensei, que a Clarinha ganhe uma medalha, depois de passar mais tempo com os pés no ar do que no chão desde a infância. Simplesmente justo…

Saímos do ginásio e fomos festejar. E continuámos a festejar até hoje, saboreando esta vitória esforçada e merecida.

Ontem à tarde, de guitarra na mão, a Clarinha cantarolava no jardim. Estava a aprender a tocar Amar pelos Dois, cantado por Salvador Sobral, com a ajuda do Youtube. O som saía já quase perfeito. Sentei-me para a escutar.

“Ainda bem que nunca tive oportunidade de me tornar ginasta de alta competição”, disse num tom despreocupado. “As ginastas da primeira divisão praticam cinco a sete horas por dia, todos os dias, e sábados inteiros… Não têm tempo para mais nada. Eu tenho tempo para cantar, tocar, compor, para cozinhar e fazer bolos, para costurar alguma coisa, para brincar com os meus irmãos, para ir à igreja e rezar. Adoro ginástica, mas ainda mais, adoro viver.”

Escutei, sorrindo, sem comentar. A Clarinha continuou: “Receber uma medalha é bom. Fiquei muito feliz, mas… Pensei que fosse uma sensação diferente… Esperei tantos anos por este momento. E afinal, passou. Não é assim tão especial…”

Ficou em silêncio um instante, e comentou: “Outro dia, vi no Youtube um vídeo de uma ginasta profissional que, nos Olímpicos, ficou em segundo lugar e desde então caiu em depressão profunda. Ela dizia que a pior coisa para uma ginasta que chega aos Olímpicos é ficar em segundo lugar. Tão próximo do primeiro, e não conseguir! A sua vida como que terminou ali, quando o próprio júri que lhe colocou a medalha no pescoço em vez de dizer “Parabéns” disse: “Lamento muito”. É mesmo assim, mãe. Quando se chega a esse nível de ambição, fica-se cego, e tudo deixa de fazer sentido.”

“Viste o que dizia S. Paulo, na leitura dos Atos que fizemos ontem?” Perguntei.

“Sim”, continuou ela. “Dizia:

Não faço caso da minha vida, contando que termine a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus, de anunciar a boa-nova da graça de Deus. (At 20, 24)

Quanto vale uma medalha? Quanto vale o reconhecimento que podemos receber da parte dos homens? Quanto valem as recompensas humanas? É chocante a resposta, mas é pura verdade: nada.

Eduquemos os nossos filhos fazendo uso de tudo o que estiver ao nosso alcance – escola, arte, desporto, grupos de Igreja, natureza, sem esquecer o tempo realmente livre – para que aproveitem ao máximo os dons que receberam de Deus e os ponham a render; para que cresçam saudáveis, com interesses diversificados, com curiosidade sadia; para que se deixem maravilhar pela Criação; para que levantem as cabeças dos ecrãs e vivam, vivam em abundância.

Mas não nos esqueçamos de, acima de tudo, os educar para o Céu. Que importa se não conseguirem os resultados escolares, artísticos ou desportivos que desenhámos para eles? Que importa até (desculpem a franqueza) se nenhum dos seus sonhos se realizar? Importa que sejam santos. E a santidade também se conquista com alguma dose de desilusão, especialmente desilusão deste mundo. Porque a única medalha que verdadeiramente importa conquistar é a que o Senhor nos irá colocar sobre o peito, quando nos receber no pódio da eternidade…

4 Comments

  1. ❤️

  2. Parabéns! Parabéns! Que bom… voa sempre graciosamente acima do solo… enquanto caminhas connosco!!!
    Clarinha, ficamos todos tão contentes, quando, ontem, juntos, no nosso momento de oração, aquando da leitura diária da palavra, lemos também a notícia!!! Beijinhos.

  3. Fátima Nogueira

    Como é belo ver uma família crescendo em santidade nos pequenas e grandes acontecimentos da vida familiar. Sede Santos em todo tempo e lugar.

  4. Parabéns pela medalha, Clarinha, e também pela tua maturidade!!

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