Em Caná da Galileia...


Quem pode então casar-se?

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Assim perguntaram os discípulos a Jesus, depois da sua explicação sobre a indissolubilidade do matrimónio, segundo Mateus 19, 10.

Felizmente que a Lei de Deus não é democrática, isto é, não muda por votação da maioria. Ao contrário do que muitos católicos pensam, a Lei de Deus sobre a fidelidade no matrimónio, a abertura dos cônjuges à vida sempre, a recusa do aborto sempre também, a ilegitimidade de uniões homossexuais, etc não mudam porque a lei civil muda.

Quando o Papa Francisco fala, nas suas homilias e na sua Carta A Alegria do Amor, em abertura aos recasados e na infinita misericórdia de Deus, ele não está a legalizar o divórcio, mas a apresentar a Igreja como um “hospital de campanha”, como tem feito desde o início do seu Pontificado.

No domingo, as leituras da missa não deixavam margem para dúvidas: o matrimónio une homem e mulher numa só carne, para sempre. Os textos são tão lindos, que comovem e nos fazem aspirar àquela felicidade que só o amor verdadeiro pode trazer. Faria bem escutar uma homilia em que se exaltasse este amor fiel até ao fim, em que se apresentassem caminhos de santificação para as famílias cristãs, em que se anunciassem os santos casais da História da Igreja, ou em que se dessem a conhecer os exemplos de superação a toda a prova de muitas famílias dos dias de hoje. Graças a Deus que muitas paróquias, certamente por todo o país, puderam escutar ou ler algo assim, pois temos muitos padres corajosos e ousados.

No entanto, muitas homilias deste domingo, um pouco por todo o lado – e chegaram-me testemunhos de vários pontos do país – e muitas palavras dos diversos párocos nos seus jornalinhos ou folhas paroquiais foram mais acanhados, preferindo ignorar o tema da beleza e a santidade do matrimónio, para se centrarem na frase de Jesus sobre a dureza do nosso coração e para reforçarem a abertura da Igreja a todos.

Será que é contra a misericórdia de Deus acentuar a santidade do matrimónio? Será que é ofensivo para os que viram a sua família ser destruída pelo vírus do divórcio ouvir pregar sobre a maravilha de um casamento feliz? Ou será que, por viverem o celibato, os nossos sacerdotes se sentem desautorizados a pregar sobre o tema, com receio de serem apontados como idealistas? Afinal, perguntaram os discípulos e perguntamos nós, valerá a pena casar-se?

Os casais que lutam pela fidelidade do seu amor precisam que se lhes diga que estão no caminho da santidade e que sim, que é possível alcançar a felicidade no casamento. Os casais que aceitam com alegria e muita coragem um ou vários filhos com deficiência, ou a incapacidade repentina e sem regresso de um dos cônjuges, precisam de ouvir do ambão que a sua generosidade será recompensada a cem por um. Os casais felizes, abertos à vida, fiéis aos ensinamentos da Igreja, precisam que se lhes diga que Deus está contente com eles, essa expressão tão linda que Nossa Senhora usou com os pastorinhos em Fátima numa aparição. Há tanto, tanto a aplaudir, a admirar, a contemplar numa família que vive de acordo com o projeto de Deus, e tão pouco espaço nas homilias das nossas missas para o fazer!

Hoje, quando se fala em família, fala-se em superação de problemas, em dificuldades, em luta, em trabalho. Mas Jesus diz:

O meu jugo é suave e o meu fardo é leve. (Mt 11, 30)

O sacramento do matrimónio não é um passaporte para um conjunto de problemas: é um passaporte para o céu, como canta o padre Zezinho no magnífico cântico Oração pela Família:

Que no seu firmamento a estrela que tem maior brilho seja a firme esperança de um céu aqui mesmo e depois!

E num outro cântico, que cresci a escutar, porque era o preferido dos meus pais, o padre Zezinho descrevia a beleza da vida de família a partir da experiência da sua própria infância, e terminava com um desafio ousado:

Se os pais se amassem, o divórcio não viria.

Chame a isso de utopia! Eu a isso chamo… Paz!

Grande e corajoso padre Zezinho! Deixo-vos os dois cânticos – cantados por um padre Zezinho envelhecido e de voz mais cansada, mas com o mesmo entusiasmo – para vos trazer de volta o sonho…

9 Comments

  1. Catarina Silva

    Querida Teresa,
    Hoje compreendo perfeitamente o que quer dizer e concordo.
    Mas, nunca podemos esquecer os que vivem realidades diferentes e que chegam ao matrimónio sem nunca ter conhecido o amor entre os seus pais, por exemplo. Ou que cresceram a ver os seus pais ofenderem-se e desrespeitarem-se mutuamente. Cada um de nós chega à idade adulta com a sua própria bagagem, porque todos nós vivemos realidades diferentes. É muito fácil, apontar ou julgar os outros, não conhecendo as suas realidades. Quantas mulheres que se afirmam como cristãs, vi eu apontarem o dedo, do alto do seu irrepreensível matrimónio, a uma mulher divorciada? Quantas olharam de lado com desprezo e humilharam uma sua semelhante?
    E quantas delas, que se julgavam superiores, estão agora a passar pelo divorcio enquanto aquelas a quem humilharam estão agora felizes a viver o seu segundo casamento, num amor verdadeiro e puro que acredito sinceramente, agradar ao Senhor?
    O vírus do divorcio, como a Teresa chama, muitas vezes entra num casamento, porque as pessoas pensam-se intocáveis, perfeitas e a viverem matrimónios perfeitos. Mas a partir do momento em que te sentes superior, abres a porta ao vírus. E se humilhas e rebaixas um teu semelhante, então provavelmente vais passar pelo mesmo, para estares do outro lado e sentires na tua pele o que fizeste os outros sentir….Este tema é muito complexo, e só Deus tem capacidade para conhecem o intimo de cada um de nós. Os padres de cada paróquia também podem ter um conhecimento mais profundo de cada casal e de cada realidade, e fazer um acompanhamento adequado.
    Mas, aquilo que eu gostaria que cada mulher (e também cada homem…), que têm a infelicidade de passar por um divorcio fizesse, era um exame e consciência…E perguntasse a si mesmo e a Deus, quantos irmãos seus tinha julgado, quantos tinha desprezado e apontado por se sentir superior? E depois desse exame percebesse, que não é de facto superior a ninguém, que tudo é dom de Deus e que só Ele nos pode proteger e curar dos vírus do mundo!
    Desculpe este desabafo, Teresa. Mas é que vejo tanta injustiça…Não publique este comentário, se assim entender, porque eu não fico magoada. Bjinho

    • Catarina, tudo isso nós sabemos e já muito tenho escrito aqui sobre o tema. Não se trata de exaltar os casamentos irrepreensíveis, como diz. Simplesmente estamos a cair no extremo de, por causa dos doentes, abandonarmos os sãos. Por exemplo, há infantários que já não celebram o dia do pai ou da mãe, para não ofender os que não vivem em famílias unidas, e eu falo com conhecimento de causa… Não podemos cair no extremo de deixar de celebrar a maravilha de um casamento feliz para não ofender os que vivem realidades diferentes, e até porque a maior parte destes casamentos felizes têm consigo uma boa dose de heroicidade que precisa de ser acarinhada para se manter. A leitura deste domingo que passou só é lida uma vez no ano, e mesmo assim, não se aproveita a oportunidade para falar dos casamentos felizes, que vão ao “princípio”. Bj

  2. Catarina Silva

    Teresa,
    Acho que não me expressei bem, sou completamente a favor da exaltação do casamento (entenda-se, a exaltação do sacramento do matrimónio) e acho completamente absurdo que se deixe de celebrar o dia do pai ou da mãe, porque os casais estão separados… Todas as crianças precisaram de um pai e de uma mãe para nascer, porque é que ofenderia celebrar a paternidade e a maternidade só porque as famílias não estão unidas? Não faz sentido…só magoaria as crianças. E mesmo os casais que estão a passar por uma situação de separação, pode ser uma situação pontual e passageira que só os fará perceber que não podem ser felizes um sem o outro. A reconciliação e a superação dos problemas é sempre possível e os casais podem até sair dessa situação mais unidos e fortes, celebrando a maravilha de mais uma dificuldade (uma grande dificuldade!) ultrapassada.
    Não pretendia de todo que se deixe de celebrar a maravilha do matrimonio! Pelo contrário! O matrimónio deveria ser cada vez mais celebrado, e os casamentos felizes, aqueles que vão ao “principio” como diz, deveriam ser cada vez mais exemplo, sobretudo para os jovens que estão a contrair matrimónio agora…
    O que eu queria dizer, também com conhecimento de causa, é que o facto de vivermos um matrimonio feliz, não nos dá o direito de julgar aqueles que o não vivem. Porque esse matrimonio não é só mérito nosso, é sobretudo dom de Deus, que tudo cuidou para que a nossa vida chegasse até ali…
    Não me expresso muito bem por palavras, mas era só isto que queria dizer… Bjinho

    • Querida Catarina, eu entendi muito bem e a Catarina expressou-se muito bem! Por isso é que eu disse que estávamos a falar de coisas diferentes. Eu sou a primeira a detestar – é mesmo a palavra – a situação das pessoas “certinhas” que passam a vida a dar conselhos às outras e que olham com superioridade para os que fracassam, e olhe que conheço várias! Mas não se tratava disso neste post, senão do que agora a Catarina expressou tão bem neste segundo comentário! É que a maior parte dos casais “certinhos” não se sentem superiores a ninguém, antes reconhecem humildemente o dom de Deus e esforçam-se por lhe corresponder o melhor possível. Só isso! E é só isso que precisa de ser revalorizado. Bj

      • Catarina Silva

        Os casais genuinamente felizes, como eu vos vejo e sinto (Teresa e Niall), são humildes e são de facto um exemplo de profundo amor. Um amor imenso, capaz de superar tantas e tão duras dificuldades diárias. Mas vocês praticam aquilo que professam (e como isso é exigente!) e nunca senti um pingo que fosse de superioridade em relação ao que quer que seja da vossa parte. E eu até vos considero “superiores”, no sentido de vos considerar um exemplo a seguir…
        Mas como vocês, conheço poucos… Que bom que seria mais casais dispostos a praticar o amor verdadeiro do matrimónio (cheio de dificuldades, obstáculos e superações…), com a entrega com que o fazem. E que bom que era que todos os casais casados, divorciados, recasados, com mais ou menos dificuldades quisessem seguir o vosso exemplo… com certeza tudo estaria melhor 🙂

  3. Já aqui partilhei o meu sentimento de tristeza/espanto, ou escândalo mesmo, ao sair da missa este Domingo.
    Voltando ao tema do post, não sei realmente o que é que inibe os sacerdotes no que respeita a falar do matrimónio em domingo de liturgia do matrimónio, ou não fosse esta uma das sequências mais escolhidas pelos noivos e sugerida pela própria Igreja para as celebrações deste sacramento.
    Indo de encontro ao que dizes, até me dá a impressão que um casal a passar dificuldades, num tipo de celebrações como, pelos vistos, ocorreram em mais sítios do que aquele a que fui, se sentem mais depressa apelados à tentação do divórcio (afinal as segundas uniões são sempre vendidas como muito mais perfeitas) do que à heroicidade do “todos os dias da nossa vida”. Não se fala dela …
    E essas dificuldades sejam de que categoria forem, só quem é casado sabe quantas dificuldades se vão atravessando, por razões diferentes e ao longo do tempo, seja por menor comunhão no sentido para a vida, seja na não comunhão dos gostos simples do quotidiano que só se descobrem depois, seja pelo egoísmo, pela falta de cuidado, pela diferença de valores fundamentais (cito os que em maior quantidade me são referidos como razões para a separação).
    Julgo que é preciso ter cuidado, cuidar para que não ocorra um grande mal deste grande bem de misericórdia que a Igreja sempre desejou.
    Não passemos do horror de barrar a entrada na igreja a pessoas divorciadas, como sei que acontece por aí (e coisas piores), ao “apelo” (não declarado, claro, mas por omissão e até inconsciente e silencioso, como o Diabo gosta) a uma vida melhor em segunda união.

  4. cristina duarte

    Queridos amigos
    Sem a mínima intenção de ofender ou criticar não posso deixar de reparar que a seguir a um post fantástico a apelar a unidade da igreja, aparece outro a dizer mal dos padres que não fazem as homilias como nós queremos.

    • Querida amiga, criticar uma homilia, graças a Deus, não é dizer mal do padre, tal como criticar um post neste site não é dizer mal de mim 🙂 Ab

  5. Isabel Guimaraes

    Concordando um pouco com todos os comentários, penso que realmente o ser humano tem alguma dificuldade em encontrar o equilíbrio no que refere aos grandes temas da sociedade, não só em relação aos tema dos recasados…passámos em tantos assuntos de uma intolerância nada cristã, para quase um medo de falarmos do bem e da verdade… é realmente difícil para nós chegarmos ao ponto de equilibrio, que é a verdadeira caridade…
    Mas, aqui pelo Canadá, a homilia foi mesmo sobre o matrimónio, onde o sacerdote falou dessa maravilhosa vocação, dessa difícil vocação… falou do Amor entre os cônjuges como Vontade, mais do que sentimento…E disse que era bastante fácil as coisas correrem mal…não fosse a graça de Deus que recebemos nesse sacramento. Como sugestão, apelou, a todos os casais presentes, e sobretudo porque estamos em Outubro, que rezássem o terço juntos (foi Maria que o pediu!), e garantiu-lhes graças imensas com esse momento de oração conjunta. Depois disse que melhor, melhor era mesmo se toda a família rezásse junta o terço, ao que a minha filha Leonor com uma piscadela de olho me disse: “Nas Famílias de Caná esta é fácil, não é mamã?” 😉
    Duas pessoas tornarem-se numa só é um trabalho de uma vida que não é fácil para ninguém e, tal como se disse nos comentários, as circunstâncias de cada um obviamente que só Deus sabe…Rezemos, por isso, ao Arcanjo S. Miguel, para que proteja a nossa família, todas as famílias, a família…Pois penso que é mesmo no seio de cada família que se forja o tal equilíbrio, a que chamamos caridade.

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