Em Caná da Galileia...


Religiosidade popular e Fátima

Há uns dias, ouvi gargalhadas estridentes lá fora, no jardim. Depois percebi que se misturavam com o som repetitivo da Ave-Maria, e decidi ir espreitar. Encontrei a Lúcia, de oito anos, a percorrer, de joelhos – bem protegidos com as joelheiras da ginástica da Clarinha – o caminho branco que rodeia a nossa casa. De pé a seu lado, com o terço na mão, o António, de sete anos, orientava a oração dos dois. Pelo meio, muita animação.

“Que estão a fazer?” Perguntei.

“Estamos a brincar a Fátima”, responderam-me. “Imitamos as pessoas de Fátima, que descem de joelhos até à Capelinha. Não é assim, mãe?”

Contive uma gargalhada. Depois lembrei-me do post que escrevera sobre Casas Santas… Não é preciso ir tão longe, pensei. E desejei secretamente que ninguém tivesse passado pela rua e espreitado para o nosso jardim durante esta animada brincadeira.

Ultimamente, tenho ficado triste com a quantidade de publicações sobre Fátima, falando do “fenómeno Fátima” como sendo um fenómeno da religiosidade popular. Que é isto, religiosidade popular? Procurando definições aqui sentada ao computador, encontrei a da Wikipédia, que diz: “Sociologicamente, a religiosidade popular é contrastada com a religião elite.” Uma religião popular e uma religião de elite? Na verdade, são cada vez mais numerosos os intelectuais católicos que se pronunciam como descrentes em Fátima, ou que relegam Fátima para uma expressão “popular” à margem da “verdadeira liturgia” ou da “verdadeira teologia”.

Se Fátima é religiosidade popular, então toda a Bíblia também o é. Da primeira à última página, não encontramos senão Deus relevando-Se aos pequenos e últimos e escolhendo para Si, não uma elite intelectual, mas um povo – o povo de Deus.

Fátima: um anjo (e depois a própria Mãe de Deus) aparece a três crianças pequeninas para lhes transmitir uma mensagem do céu.

Nazaré da Galileia: um anjo aparece a uma jovem pobre e simples para lhe transmitir uma mensagem do céu.

Em que diferem as duas cenas? Será uma popular e a outra erudita? Diferem certamente na grandeza da mensagem e na santidade do seu recetor. De resto… A aldeia de Nazaré não é mencionada uma única vez no Antigo Testamento. Por que é que Deus decidiu chamar para Mãe do seu Filho uma jovem “popular” de uma aldeia perfeitamente anónima, nos confins de Israel, numa zona mal vista como era a Galileia, onde o paganismo e a fé pura judaica conviviam com naturalidade?

Religiosidade popular? Se falamos em crendices, bruxaria, negócios de promessas e na venda de pernas, braços e cabeças de cera, então chamemos-lhe isso mesmo: superstição. Não lhe chamemos religiosidade popular! Mas se religiosidade popular é rezar o terço, é praticar a devoção dos Cinco Primeiros Sábados, é fazer penitência e reparação, é invocar os santos, é fazer procissões, é fazer a Via Sacra, é fazer novenas, é fazer peregrinações a pé ou de joelhos, é agitar o lenço branco no Adeus de Fátima enquanto as lágrimas correm pelas faces, é acender uma vela à oração, é acreditar que Deus Se pode manifestar aqui e agora através de um milagre e que Maria nos continua a visitar na Terra, então eu tenho muito orgulho na minha religiosidade popular. Depois do título de filha de Deus, que me foi conferido pelo batismo, orgulho-me sobretudo no meu título de membro do povo de Deus. Tão bom, ser, saber-se e sentir-se povo!

Eu já desci de joelhos a Cruz Alta à Capelinha das Aparições (ou Visões, como queiram). Foi no ano passado. Aproveitei uma manhã luminosa e azul em Fátima, num dia de semana, quase sem ninguém, para me ajoelhar no início do percurso e rezar ali a oração que está impressa na laje. Tão bonita! Depois, atraída por aquela luz, aquele azul, aquele silêncio, aquela oração humilde e simples, resolvi descer de joelhos. Enquanto o fazia, no santuário ecoavam os mistérios dolorosos do Rosário. Acompanhei-os em silêncio. E num crescendo paralelo ao “descendo” da minha oração, fui tomada por um sentimento de humilhação, de consciência dolorosa e nítida do meu pecado e da minha fragilidade, ao mesmo tempo que a misericórdia de Deus se entornava a jorros sobre mim. As lágrimas caíam-me pelo rosto, porque ajoelhar e caminhar assim ajoelhado suscita em nós uma sensação de fragilidade e de pequenez inexplicável.

De joelhos na laje branca – tão parecida como a do meu jardim, onde o António e a Lúcia “brincaram a Fátima” – experimentei o que é ser povo, o que é reparar pelo meu pecado e pelo pecado dos outros, o que é identificar-me com o sofrimento, a dor, a fome, a angústia da humanidade. Não chegaram a vinte minutos, mas tive tempo para rezar por todas as intenções possíveis, e tive tempo de dizer a Jesus Crucificado o quanto O amo e o quanto O quero amar. Os meus joelhos sofreram bastante menos do que sofreram, por exemplo, ontem, quando decidi fazer limpeza a fundo às gavetas e estantes baixas cá de casa. Descer de joelhos na laje lisa de Fátima não custa o que dizem por aí que custa. Não se tratou, portanto, de uma experiência de dor física, mas interior. Até hoje, ainda não fiz experiência de oração mais profunda que aquela peregrinação de joelhos.

Religiosidade popular? Naturalmente que a catequese passa por aprofundar e explicitar a verdade por detrás de cada gesto, evangelizando todas as expressões da fé. Não faz sentido ir a Fátima a pé e faltar à missa ao domingo, ou rezar o terço e não se confessar.

Religiosidade popular? Tomo-o como elogio. Com santo orgulho. Com a certeza de pertencer a um povo pobre e humilde, o único que é capaz – oráculo do Senhor! – de acolher Jesus, o Salvador. Ámen!

7 Comments

  1. Pilar Pereira

    Que bom ler este post! Um abrir de olhos, uma chamada de atenção, seja o que for, foi bom lê-lo.

  2. Olá Teresa.
    Tenho ouvido, tenho lido…o que se vai escrevendo nestes dias.
    Uma frase me vem ao pensamento ouvida hoje no Evangelho: Homens de pouca fé! será isso? lentos em acreditar …

    Bom Domingo

  3. Rogério Ribeiro

    ” Eu Te bendigo ó Pai porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. “

  4. Maria do Rosário Leitão

    Depois de alguns anos já a ler o que escreve , hoje senti que tinha mesmo dizer que estas suas palavras estavam mesmo a fazer falta. .. Bem -haja por estas e por muitas outras 🙂
    Rosário

  5. Maria Amélia Castel-Branco

    Também já fiz esse percurso de joelhos e foi uma experiência muito forte e profunda.
    Foi há muitos anos quando o meu marido e pai da Teresa estava a fazer tratamentos e quis agradecer ao Senhor dessa maneira. A Teresa e irmãs acompanharam-me de pé.

  6. Olá ! Curiosamente, tenho pensado muito sobre essa divisão da religiosidade popular e da “outra”…..é uma divisão que sinto, mas preciso desses dois mundo, e saltito entre os dois. Ou seja, se por um lado é na minha comunidade muito popular e simples, que me sinto em casa, também é verdade que sinto o desejo de periodicamente ir beber a outras fontes, ditas mais “eruditas”. Se gosto de ir a procissão do Senhor dos passos, uma dita manifestação popular, a verdade é que também gosto de participar numa Eucarística com “estética”, em que o leitor vai saber ler, o salmista e o coro vão cantar bem, e eu vou conseguir mais facilmente estar em oração; ou também gosto de ouvir um teólogo falar….

    Em relação a Fátima…..sou uma convertida. Sempre olhei para Fátima com desdém, mas desde que tive a oportunidade de ir lendo sobre o assunto e desde que cantei na Capelinha das Aparições….inesquecível.
    Nunca me esqueço as palavras de um amigo: o Senhor guarda o seu Evangelho junto dos simples!
    Abraço

  7. Fátima não é dogma de Fé… inquestionavelmente! Mas será, como há uns anos em Medjugoria me dizia um confessor, o elevador ou a escada que nos pode ajudar a chegar a Deus… Sim, os pobres mortais humanos, intelectuais ou não, busacm o maravilhoso e todos somos tão Tomés… ver para crer… obrigada Maria… obrigada Mãe! por se dar ao trabalho de vir pelo Céu abaixo socorrer estes tontos que fecham o coração com tanta força!

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