Em Caná da Galileia...


Se me saísse o totoloto?

Há muitos anos atrás, o Niall e eu tivemos uma grande discussão. Começou com uma brincadeira: “O que fazias se ganhássemos o totoloto?” E tornou-se séria quando descobrimos que não conseguíamos chegar a um único consenso, nem sequer sobre as instituições que iríamos ajudar com o nosso dinheiro. Quando nos apercebemos de que ganhar o totoloto podia ser realmente motivo de divisão entre nós, tomámos ali mesmo uma decisão: nunca mais iríamos jogar. E nunca mais jogámos. A nossa família é um tesouro demasiado valioso para arriscarmos.

Lembrei-me desta história quando, ontem de manhã, o Niall chegou a casa depois de comprar o pão para o pequeno-almoço: “Teresa, como todas as manhãs, na padaria a fila maior não é a das pessoas que vão comprar pão, mas a das pessoas que vão comprar raspadinhas e todo o tipo de apostas. Incrível! Como se pode perder tanto dinheiro todas as manhãs no jogo…” E acrescentou: “Jesus ensinou-nos a pedir o pão de cada dia, não a raspadinha de cada dia!”

O Papa Francisco chama ao dinheiro “a caca do diabo”, e tem toda a razão. São muitas as histórias que ultimamente me têm chegado aos ouvidos de famílias destruídas por causa de dinheiro. Custa acreditar que as pessoas o permitam. Não é o tesouro da nossa família infinitamente mais valioso?

Todos precisamos de dinheiro, sim. E é importante que cada família faça tudo o que estiver ao seu alcance para se tornar financeiramente independente. Não é bom que um casal continue a depender dos pais depois de casar. Diz a Escritura:

O homem deixará o pai e a mãe, para se unir à sua mulher; e os dois serão uma só carne (Gn 2, 24)

e isto também em relação ao dinheiro. Também não é bom que o casal dependa do subsídio de desemprego durante demasiado tempo (bem alerta o Papa para o problema grave da falta de trabalho dos jovens!). S. Paulo é claro:

Quem não quer trabalhar, também não coma. (2 Ts 3, 10)

E o mandamento do Senhor depois do pecado original também:

Comerás o pão com o suor do teu rosto. (Gn 3, 19)

Assim, é desejável que pelo menos um dos elementos do casal trabalhe para sustentar a sua família, mesmo que não seja no trabalho ideal. Mas não para se tornar escravo do dinheiro, porque como diz Jesus:

Não podeis servir a Deus e ao dinheiro. (Lc 16, 13)

E ainda:

Como é difícil para os que têm riquezas entrar no Reino de Deus! (Lc 18, 24)

Ensinar aos filhos o justo valor do dinheiro passa por os ajudar a, também eles, renunciar ao supérfluo, a fazer escolhas e a economizar para comprar aquele brinquedo há muito desejado.

Mas passa também por não os enfiar nos centros comerciais nos passeios de fim-de-semana. Ver montras, comparar preços, experimentar “só um bocadinho” o último smartphone que saiu ou “namorar” mais uma vez aqueles ténis caríssimos é estimular o materialismo latente em cada um de nós.

Olhai os lírios do campo e as aves do céu

diz Jesus em Mt 6, 25-34, esse magnífico Hino à Providência que todas as famílias deviam conhecer de cor. Contemplemos então a Criação, espelho da bondade divina. Que pena as famílias não encherem os montes, os lagos, as florestas, os campos e as praias com a fidelidade com que enchem os centros comerciais! É que a gratuitidade aprende-se contemplando a obra de Deus.

No sábado passado, o dia amanheceu tão luminoso, que deixámos a casa por limpar, as compras por fazer e o estudo por organizar para corrermos para a praia. Que bem que soube! Patins, fatos-de-banho, bolas, um belo piquenique, e lá fomos nós.

Para o Daniel, foi a primeira vez na praia. Embalado pelo som das ondas, dormiu quase o dia todo.

Regressámos a casa de forças retemperadas, coração cheio, laços familiares fortalecidos pela partilha sem pressa e pela brincadeira em conjunto. E, claro, mais rosadinhos, desde o tom rosa-pálido das bochechinhas do Daniel, ao rosa-vivo das costas da Lúcia e do meu nariz (ups!)

Se me saísse o totoloto? Continuava simplesmente a levar a minha família à praia, à montanha e à floresta mais perto da nossa casa, nos dias de sol. Haverá melhor?…

One Comment

  1. João Miranda Santos

    Discussões de totoloto nunca houve nem haverá cá em casa porque simplesmente nunca jogámos! Costumo dizer que não acredito que vá ganhar portanto não adianta jogar. Mas na verdade não acredito, não faz parte da nossa fé, é em dinheiro fácil, proveito sem trabalho. Já para não falar do ponto de vista matemático e estatístico, que a probabilidade de ganhar um prémio é mínima e é preciso que muita gente o pague para nós o ganharmos.

    Mas ser católico é realmente complicado porque exige coisas de nós a tantos níveis que temos de estar muito atentos. Tenho me apercebido nos últimos anos, ao gerir as finanças familiares que, com um certo número de filhos, em termos de rendimento líquido, compensa mais ter um ordenado mais baixinho do que ganhar mais. Porque recebe-se mais abono, porque paga-se menos impostos, porque a creche fica mais barata, porque tem-se redução na fatura da luz… um conjunto de benefícios que felizmente o nosso estado social prevê para quem precisa, ou para quando precisa. Mas se numa fase da vida precisarmos, na fase em que já não precisarmos e podermos estar do lado dos que contribuem e não dos que beneficiam é nossa obrigação moral fazê-lo, mesmo que isso não corresponda à melhor otimização do nosso orçamento familiar. Não podemos descurar a nossa responsabilidade social. E o Papa Francisco também já disse que cristão testa-se quando isso lhe entra na carteira…

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