Em Caná da Galileia...


Tempo de Família com Nossa Senhora da Boa Estrela

“Vamos à Serra da Estrela?”

Sexta-feira à tarde. Há nove anos que não íamos à neve, por termos sempre um bebé ou criança pequenina em casa, dificultando a aventura. Mas a Sara já não é bebé e está bastante acostumada a viajar, graças às Famílias de Caná… Os meninos não paravam de pedir para ir ver a neve. Os trenós de plástico, comprados há nove anos atrás, pareciam chamar por eles, cada vez que para eles olhavam. A minha sugestão apanhou-os de surpresa.

“Amanhã? Podemos ir amanhã? Ah, que bom!”

Os meninos saltavam de alegria. Fora uma decisão rápida, e por isso foi preciso preparar muita coisa. O Francisco ficou encarregue de procurar gorros, luvas e cachecóis para todos, na gaveta dos agasalhos; a Clarinha foi tratar das camisolas de lã; eu enchi uma mala de viagem com mudas de meias e de calças de fato de treino, pois quando não se tem roupa de neve, é preciso improvisar!

Sábado de manhã foi fácil saltar da cama. Enquanto o Niall preparava o piquenique com o que encontrava no frigorífico, enchendo dois termos com sopa bem quente e fazendo sandes de fiambre, eu ajudava os meninos a vestir várias camadas de roupa, de meias e de calças. Ainda não eram nove horas, e já estávamos a caminho da serra.

Durante a viagem, como costume, rezámos o terço, cantámos, rimos, contámos histórias e refilámos também um bocadinho uns com os outros. Duas horas e meia dá para muita coisa! Até que alguém gritou:

“Olhem para ali! São as montanhas! Já vejo neve lá em cima!”

“Neve! Há neve no cimo da montanha! Tão linda, a brilhar ao sol!”

A montanha estava cada vez mais próxima… Iniciámos a subida, com o coração aos pulos. Neve na montanha! E de repente, depois de uma curva, a neve surgiu à beira da estrada. Primeiro, eram pequenas nuvens brancas sobre a erva castanha, mas depois eram enormes mantos estendidos, cobrindo tudo à volta. Os gritos de excitação deram lugar a um silêncio contemplativo. Ah, como é bela a neve!

Mas ao chegarmos ao cimo, fomos surpreendidos por dezenas e dezenas de carros. Parecia que toda a gente tinha tido a mesma ideia que nós! Na Torre, a GNR orientava o trânsito, e nós procurámos, em vão, um lugar para estacionar. Impossível: todos os parques de estacionamento estavam ocupados, e os carros parados em segunda fila faziam com que os enormes autocarros bloqueassem os que ainda procuravam andar. Que fazer?

“Já sei!” O Niall deu uma gargalhada sozinho. Olhámos para ele, perplexos. Que segredo guardava ele? Eu imaginava-o um pouco nervoso, evitando a GNR, pois viajávamos oito pessoas num carro de sete lugares…

“Já sei onde vamos estacionar. Já sei onde vamos passar o dia! Como não me lembrei disso antes?” Insistia ele. E explicou: “Vamos descer um pouco a serra do outro lado, e estacionamos no miradouro de Nossa Senhora da Boa Estrela. Tenho a certeza de que Ela nos reservou um lugar!”

Sorri. Mas é claro! O parque de estacionamento em frente do monumento de Nossa Senhora da Boa Estrela, escavado na rocha em baixo relevo, é muito pequeno, e pelo que estávamos a ver na Torre, podíamos imaginar que estivesse também completamente lotado. Mas uma certeza interior conduziu-nos até ele. Por que não havia Maria de nos querer junto Dela, neste dia em família? Estamos-Lhe consagrados, amamo-La como se ama uma Mãe, confiamos Nela mais do que em qualquer outra pessoa, pertencemos-Lhe por completo… Claro que Maria nos reservara um lugar!

Sim, Maria reservara-nos um lugar. Saímos do carro, transbordando felicidade. Que sítio maravilhoso! Nossa Senhora sorria-nos, parecendo chamar-nos da sua imagem escavada na rocha.

Foi um dia perfeito em família. Embora a zona da Torre estivesse cheia de pessoas a brincar na neve, ali junto de Maria estávamos quase sozinhos. Na verdade, não era fácil caminhar na neve num terreno tão inclinado, e a maioria das pessoas preferia ficar a ver do miradouro. Nós decidimos descer assim:

E assim:

 

Bem… Quem não sabia fazer melhor, desceu assim:

 

O sol estava quente. Lamentámos não ter trazido chapéus e bonés, em vez de gorros e cachecóis, que não chegámos a tirar da mala. Aos poucos, fomos despindo as camisolas que trazíamos umas por cima das outras. E mudámos várias vezes de calças, até não termos mais roupa seca para usar. As botas ficaram encharcadas e as meias, dentro, escorriam água, mas não fazia mal: na praia, também temos os pés molhados na água gelada o dia inteiro, e não nos queixamos! Enquanto o corpo estiver quente, não há qualquer problema. E não houve!

Houve, sim, doses transbordantes de alegria, diversão infinita, batalhas de bolas de neve e, sobretudo, viagens de trenó, colina abaixo, rindo à gargalhada.

 

O Francisco e a Clarinha tiveram aventuras só deles, escalando rochas e explorando. Até fizeram ginástica e acrobacias no cimo da rocha onde está escavada a imagem de Maria. Não acreditam?

A sopa e o café quentes souberam maravilhosamente bem, as sandes desapareceram num instante, e quando se acabou a água, os mais velhos encheram os cantis de neve pura. Que bem que sabia a água, assim fresquinha!

Quando já não havia mais roupa seca no carro, quando as botas pareciam fontes a jorrar e quando a Clarinha já fazia ginástica descalça na neve, achámos por bem dar o passeio por terminado. Subimos a colina como pudemos, arrastando trenós e crianças, ou melhor, as crianças arrastando os pais montanha acima, e entrámos no carro. Vestimos os pijamas e calçámos as pantufas (sim, que a mãe não brinca em serviço!), e iniciámos a viagem. Mas primeiro, renovámos, cheios de gratidão, a nossa consagração a Nossa Senhora Auxiliadora, Mãe de Caná, que ali no cimo da Serra nos “apareceu” como Senhora da Boa Estrela, Senhora do Tempo de Família, Senhora que providencia para que o vinho da alegria nunca acabe em nossa casa…

Viagem de regresso. Cantamos cânticos de louvor e iniciamos a oração familiar. Escuta, Israel… Todos agradecem ao Senhor o dom da neve, da montanha, do céu azul, do sol quente, da alegria, da família. Depois, meditamos nas leituras do dia, que o Francisco lê a partir do telemóvel.

“Proponho rezarmos de novo o terço, para agradecer a Nossa Senhora o que Ela fez por nós hoje”, digo. Alguns protestos: “Outra vez?” “Bem, eu e o pai vamos rezar. Só precisa de se juntar a nós quem quiser! Os outros podem ficar em silêncio. Não há qualquer problema!”

Começamos o terço. De manhã, rezáramos os mistérios gozosos, mas desta vez, rezamos os mistérios luminosos, porque há no nosso coração uma luminosidade especial. Pouco a pouco, as vozes das crianças juntam-se às nossas, e o carro vibra ao som da Ave Maria.

“Quarto mistério luminoso… A transfiguração”, enuncio. “Naquele dia, Jesus subiu à montanha, e as suas vestes ficaram mais brancas do que a neve… A montanha transfigurou-se também com a sua luz…”

“Como aconteceu hoje, não é, mamã? A montanha parecia transfigurada, cheia de neve!”

“E agora é preciso que a nossa alma também esteja assim…”

“Mais branca que a neve!”

“Pois, mais branca que a neve!”

Ave Maria…

O terço, que afinal todos rezámos, termina, mas eu continuo a passar as contas entre os dedos, enquanto os meninos riem e conversam. A Sara pede para ouvir a canção da Frozen no telemóvel do Francisco, porque pela primeira vez, entende o que é isto da neve.

À noite, já deitados, o Niall e eu conversamos.

“Quando regressamos de um dia em família assim, tenho sempre a sensação de que venho de um retiro”, diz o Niall. “Parece que nestes dias eu rezo mais do que o costume! Primeiro, porque realmente rezamos mais: conversamos mais longamente sobre as leituras na viagem, rezamos mais do que um terço… Mas também porque passo o dia inteiro com o coração cheio de gratidão, contemplando os dons de Deus!”

“Eu sinto o mesmo”, digo. “Não sei pôr por palavras o que acontece… É um dom de Deus, creio. Deus quer que o Tempo de Família seja sagrado para nós e para todas as famílias…”

Cada vez estou mais convencida disto. Enquanto brinco com os meus filhos nos espaços da Criação de Deus, sou atravessada por esta certeza de que, nos nossos dias, e no meio de tantas famílias em ruínas, Deus quer fazer o milagre de Caná. O cuidado que Maria teve connosco, chamando-nos maternalmente para debaixo das suas “asas” de “mãe-galinha” no cimo da serra, não foi um sinal apenas para nós, Família Power: entendemo-lo antes como sinal de predileção da Mãe de Deus por todas as Famílias de Caná e todas as famílias que, hoje, se querem abrir ao amor do Senhor. Deus quer santificar não apenas o nosso trabalho e a nossa oração, mas também a nossa brincadeira, o Tempo de Família, provocando o encontro entre pais e filhos. Sim, o Tempo de Família deverá ter cada vez mais, para nós, o sabor doce de um tempo de retiro, de um tempo de comunhão com o Senhor. Nós, Jesus!

E a Ti, Senhora da Boa Estrela, Mãe de de Caná, o nosso profundo obrigado pelo dia de ontem! Que nenhuma família tenha receio de confiar em Ti, na tua intercessão, no teu amor maternal! Ámen!

 

 

3 Comments

  1. Catarina Silva

    Que maravilha!!!

  2. Teresa, não sei se conhece mas acho que ai em casa a familia vai gostar muito deste blog http://oinsecto.blogspot.pt/ de um padre jesuíta. O percurso de vida dele está aqui http://www.noticiasmagazine.pt/2014/do-ar-para-o-ceu/.

    Um beijinho

  3. Adorei ver-vos! 🙂 Como sempre, uma inspiração. Bjs a todos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *