Testemunhos


A família e a abertura à vida

Testemunho da família Miranda Santos

Vivemos esta semana a Semana da Vida e por isso resolvemos partilhar aqui como se desenrolou na nossa família a abertura à vida.
Embora possa parecer o contrário, o essencial desta partilha não é sobre o número de filhos, porque isso diz respeito à realidade muito concreta de cada família, mas sim sobre como Deus consegue conduzir a nossa vida quando lhe damos esse espaço, de uma forma que não podemos prever. É a partilha de um caminho de discernimento trilhado em casal fruto da oração e da iluminação do Espírito.

Para começar é preciso esclarecer que nunca pensámos em ser fechados à vida. Quando pensámos em casar, formando família, era naturalmente com o objectivo de ter filhos, como aliás é bem claro nos pressupostos do sacramento do matrimónio. Mas apesar disso não tínhamos nenhum objectivo definido quanto ao número de filhos, se bem que penso que estávamos mais inclinados para o “razoável” dos dois ou três filhos. Por um lado porque ter um irmão é muito importante, e por outro lado porque é o número que ficava dentro do mais comum e socialmente bem aceite.

Pouco tempo depois de casarmos nasceu o nosso primeiro filho, e após o nascimento tomámos as devidas medidas contracetivas para adiar a segunda gravidez. Olhando para trás não deixa de ser curioso observar como, tendo nós uma caminhada católica em Igreja tão sólida, não nos pareceu nunca estranho o estarmos a ir contra as indicações pastorais da Igreja relativamente à contraceção. Penso que seja isso o que acontece com a maioria dos casais católicos que usam métodos contracetivos: é tão comum que nem se sentem incomodados por o fazerem.

Entretanto, nos primeiros anos de casamento e de paternidade fui começando a tropeçar na realidade das famílias (atualmente consideradas) numerosas. Testemunhos, entrevistas, conhecimentos mais ou menos próximos, ora 3, ora 4, 6, 12. E aquilo que antes era uma realidade estranha vai começando a parecer mais normal, mais possível, e até mais interessante. E, lentamente, esta realidade passa de interessante a atrativa, e começa a surgir como um chamamento particular a trazê-la para a nossa família. Até que se torna suficientemente claro para nós que Deus nos pede isto para a nossa família, passar a barreira dos dois filhos…
Mas isto ainda não era abertura à vida, era um pequeno passo paralelo.

Ao mesmo tempo, durante este período, o tema da contraceção também se foi cruzando no nosso caminho. Em diversas discussões eu conseguia argumentar com toda a racionalidade e lógica que a encíclica Humanae Vitae, ao defender que o recurso aos ciclos naturais para espaçar os nascimentos é objectivamente diferente da utilização de contracetivos, está a ser completamente incoerente, porque se o objectivo final é o mesmo de espaçar os filhos, tanto faz usar métodos artificiais como naturais.
Mas também aqui se foi dando uma fascinante iluminação. Aos poucos as certezas da razão foram começando a ser esmagadas pela vontade do espírito, que, sem se poder explicar como, foi começando a tornar claro que a fertilidade era um dom a acolher e não uma doença a combater, que a verdade e a totalidade da comunhão sexual não é compatível com qualquer limitação voluntária, e que existe uma diferença total entre querermos substituir o papel de Deus criador ou estarmos disponíveis para sermos, com Ele, co-criadores.

Esta foi a primeira etapa da abertura à vida, chegar a este entendimento de que, relativamente à geração de vida no nosso matrimónio, devemos opinar mas não limitar, ou seja, somos chamados a ter vontade, a planear, mas nunca a bloquear ou impedir que a última decisão seja a de Deus. Se o fizermos, estaremos a colocar a nossa vontade acima da vontade de Deus, o que não queremos de todo para nós. Assim, depois do nascimento do segundo filho, que foi muito bem planeado e nasceu quatro anos depois do primeiro, fizemos uma formação de planeamento familiar natural para podermos pôr em prática o entendimento da abertura à vida a que tínhamos chegado. E seguros de que a eficácia dos métodos naturais de planeamento familiar nos iria permitir continuar a espaçar os filhos como nós bem quiséssemos, logo os passámos a utilizar.

No entanto, iniciar a utilização de métodos naturais no período pós-parto não foi totalmente simples e a verdade é que passados seis meses do nascimento do segundo filho estávamos novamente “grávidos”. Isto não estava nos nossos planos nem foi tranquilamente aceite. E ajudou-nos a perceber como ainda era frágil a nossa conversão na abertura à vida, como ainda estávamos presos à nossa vontade e aos nossos planos. Mas acabámos por aceitar como uma antecipação dos planos.
Foi o primeiro passo da segunda etapa. E a prova de que foi um passo em frente é que, apesar dos planos furados, não desistimos mas reforçámos a nossa convicção neste caminho de abertura à vida. Apesar de voltarmos às validações novamente em período de pós-parto. Desta vez com propósito de ter um bocadinho mais de disciplina e seriedade na aplicação do método, porque efetivamente o método não tinha falhado, nós é que não o tinhamos aplicado com a rigidez necessária para assegurar a sua eficácia.

Mas o “bocadinho mais” ainda não foi o suficiente, e ao fim de seis meses uma nova gravidez bate à porta. Desta vez já sabíamos o que era ter dois filhos com quinze meses de diferença e por isso já podíamos prever o quanto exigente poderia ser ter três com o mesmo intervalo. Por isso foi um novo abanão à nossa vontade, e talvez mais forte do que da gravidez anterior. Custou um bocado a aceitar, mas o interessante é que foi através deste custo que completámos esta segunda etapa da abertura à vida. Passámos da aceitação teórica da abertura à vida para a aceitação concreta, a viver no nosso dia-a-dia. Com o anúncio deste quarto filho perdemos a prisão à nossa vontade para nos entregar à vontade de Deus. Ou melhor, mais do que entregar à vontade de Deus, que não sabemos se é esta ou se isto é fruto das nossas acções, é entregarmo-nos na sua confiança. É chegar ao ponto em que a abertura à vida é uma abertura franca da nossa vida à confiança em Deus.

E assim, através de um caminho que nós não imaginávamos que íamos trilhar, Deus concedeu-nos a graça de alcançar um novo patamar na fé, concretizado na vida. E chegados aqui já seremos capazes de decidir o “espaçamento dos nascimentos” mais em liberdade do que por razões caprichosas. Talvez por isso já não precisámos do quinto filho tão próximo do anterior 🙂

No final das contas, a abertura à vida é o crescer na consciência de que a vida não está nas nossas mãos. Alguns casais ganham essa consciência através dos filhos que não conseguem ter, ou através dos filhos que perdem. Nós tivemos a Graça de o descobrir através da fertilidade, e com a iluminação da oração, porque nenhuma elaboração racional nos faria lá chegar. E hoje, quando apreciamos os nossos quatro filhos a brincar, só conseguimos agradecer a Deus por nos ter conduzido neste caminho de forma tão acompanhada, pondo-nos tudo a jeito para lá chegarmos.

One Comment

  1. Rogério Tavares Ribeiro

    “Que a fertilidade é um dom a acolher e não uma doença a combater!”

    Está tudo dito!

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