Testemunhos


Filhos a 3 dimensões!

Testemunho da Isabel Marantes:

Há poucas semanas, a mãe de um colega da turma do Miguel (2º ano da escola primária) dizia-me que estava muito preocupada porque o seu filho era muito distraído.

Já me tinha dito isso algumas vezes. Então, eu resolvi perguntar: “Mas porque é que diz que ele é distraído?”

A mãe explicou prontamente: “Olhe, eu vou-lhe dar um exemplo que aconteceu ainda ontem: saímos da escola, fomos ao programa de Matemática extra-curricular que dura hora e meia e depois quando chegámos a casa eu disse-lhe para ir treinar piano – só 10 minutos! Tem de treinar piano todos os dias, não é?… Quando dou conta, em vez de tocar piano, estava distraído, a fazer “palhaçadas” com o irmão mais novo”…

Eu, só consegui responder: “Ah, mas também tem de colocar as “palhaçadas” com o irmão no calendário…

Ao comentar esta história, queria começar por dizer que esta mãe é uma mãe muito bem intencionada, preocupada com os desafios do mundo actual e que, como todos nós, quer que o seu filho seja o melhor que pode ser, é uma mãe que quer que o seu filho seja feliz.

Mas temos de nos perguntar: o que faz os nossos filhos  verdadeiramente felizes? E, nesse sentido, quais os deveres que, nós pais, temos para com os nossos filhos?

Vamos ao Catecismo da Igreja Católica (CIC), onde há uma secção dedicada aos deveres dos pais para com os filhos (não se preocupem, porque também há uma secção sobre os deveres dos filhos para com os pais!).

Vou só aqui citar dois dos pontos para depois reflectirmos sobre o seu conteúdo:

O «papel dos pais na educação é de tal importância que é impossível substituí-los». CIC 2221

Durante a infância, o respeito e o carinho dos pais traduzem-se, primeiro, no cuidado e na atenção que consagram à educação dos filhos, para prover as suas necessidades, físicas e espirituais. À medida que vão crescendo, o mesmo respeito e dedicação levam os pais a educar os filhos no sentido dum uso correcto da sua razão e da sua liberdade. CIC 2228

Então, que componentes, que dimensões devemos – queremos! – cuidar nos nossos filhos?

Nós, como pais, temos o dever de trabalhar a sua dimensão física. Tentamos prevenir que estejam doentes, se estão doentes tratamo-los o melhor que conseguimos, insistimos vezes sem conta para não se esquecerem de lavar os dentes, estimulamos o exercício físico e o desporto, para que desenvolvam as suas capacidades motoras.

Nós pais, também nos empenhamos imenso na sua dimensão psíquica (e aqui incluo a parte intelectual e emocional). Neste mundo cada vez mais competitivo queremos que sejam o melhor que podem ser nos seus estudos. Também queremos que sejam equilibrados do ponto de vista emocional, com capacidade de empatia e com aptidões sociais.

Mas com que intenção fazemos tudo isto? Para que queremos preparar tão bem os nossos filhos física, intelectual e emocionalmente?…

É que existe outra dimensão, que deve orientar todas as outras dimensões que falámos até agora. Trata-se da sua dimensão espiritual.

A dimensão espiritual trata da nossa relação com aquilo que nos transcende, trata das grandes perguntas de todo o ser humano: Porque estou aqui? Qual o sentido da vida? Para onde vou?

A dimensão espiritual trata da busca da Verdade, da Beleza e do Sagrado.

E como estimulamos esta dimensão espiritual dos nossos filhos?

Em primeiro lugar, amando-os e mostrando que amamos o nosso próximo… é difícil sentir o Amor de Deus quando nunca se foi amado ou nunca se viu alguém amar…nós, pais, temos de ser o primeiro sinal do Seu Amor para os nossos filhos…

Depois, para nós católicos, dando a conhecer Jesus Cristo e a História da Salvação, para que eles possam ter uma relação com Jesus. Não se pode amar Aquele que não se conhece.

Nessa relação e durante as nossas conversas diárias podemos ainda ajudá-los a criar o hábito de ouvir a voz da sua consciência, na qual o Espírito Santo frequentemente se manifesta. E aqui incluo o desenvolvimento das várias virtudes, que fortalecem a vontade e a verdadeira liberdade.

Por outro lado, também podemos dar a conhecer o Criador ensinando-os a contemplar a harmonia e a beleza da Criação nas suas mais variadas vertentes, como a natureza, a arte e o conhecimento.

Assim, estas três dimensões fazem parte do ser humano e, quando amamos os nossos filhos, devemos cuidar deles nestas três dimensões.

Mas a dimensão espiritual deve ser o motor para as outras dimensões, deve ser a pedra no charco que faz as “ondas” de todas as outras dimensões.

Eu sei que não é fácil…vivemos numa correria e, mesmo com boas intenções, sentimos que não temos tempo para nada.

O Papa Francisco diz na sua Exortação Apostólica “A Alegria do Amor”:

A educação dos filhos deve estar marcada por um percurso de transmissão de fé, que se vê dificultado pelo estilo de vida actual, pelos horários de trabalho, pela complexidade do mundo hodierno, onde muitos têm um ritmo frenético para poder sobreviver. Apesar disso, a família deve continuar a ser lugar onde se ensina a perceber as razões e a beleza da fé, a rezar e a servir o próximo.(ponto 287)

E como a Teresa e o Niall costumam dizer: nós arranjamos sempre tempo para aquilo que achamos que é realmente importante! E não é verdade? E acreditem que vale a pena!

É que se não trabalharmos a dimensão espiritual dos nossos filhos, teremos crianças, jovens, adultos a duas dimensões que, como simples folhas de papel, abanam e voam ao sabor de qualquer vento, sem saberem onde querem chegar e, por isso, inseguros e infelizes…

E não tenhamos ilusões: se não formos nós a trabalhar esta dimensão dos nossos filhos, outros o farão… E é preciso perguntarmo-nos se queremos que seja a sociedade, as redes sociais ou o mundo a formar a Alma dos nossos filhos…

3 Comments

  1. Helena Atalaia

    Muito pertinente! Gostei tanto da imagem do charco! Um beijinho e obrigada pela reflexão.

  2. Catarina Silva

    Muito bom!
    É tão difícil sair desta rodinha de hamster onde andamos… Mas também é tão verdade que, se não formos nós a trabalhar a dimensão espiritual dos nossos filhos, outros o farão. E não é nada bom que isso aconteça!
    Obrigada Isabel por esta reflexão tão cheia de sentido e tão importante nos dias de hoje!

  3. Bom dia Isabel… continuo a perguntar-me isso mesmo, porque queremos nós “fabricar” a excelência… o amor a Deus, a partilha fraterna, o profundo respeito pela essência de cada um deveriam nortear-nos… O melhor de cada um deveria bastar,e nos das piores, a beleza do sorriso! Penso em Maria… que Ela nos guie, como pais e educadores! Um beijinho

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