Testemunhos


“Se eu perder, ficas triste ao meu lado?”

Testemunho da Isabel Marantes:

Há algum tempo, aqui no Canadá, houve um concurso literário, ao qual a Leonor e a sua amiga Maddy decidiram concorrer. Há poucos dias, a Leonor recebeu uma carta a dizer que o seu texto tinha sido um dos escolhidos. Cheia de alegria, a Leonor foi no dia seguinte perguntar à sua amiga se também já tinha recebido a carta, para juntas comemorarem. Mas a amiga ainda não tinha recebido a carta… Como elas sabem que as cartas das crianças vencedoras são enviadas todas ao mesmo tempo e elas vivem perto uma da outra, a Maddy ficou com pouca esperança e fez à Leonor uma pergunta que ecoou nos dias seguintes no meu coração e que queria partilhar convosco.

A Maddy perguntou: “Leonor, se eu perder, ficas triste ao meu lado?”

Seriam tantas as coisas que a Maddy podia ter dito naquele momento: “Tiveste sorte, porque gostaram mais do teu texto”, “os juízes do concurso foram mesmo injustos”, “eu realmente não escrevo nada de jeito” ou “eu fico contente por ti, mas neste momento quero ficar sozinha, porque estou triste”…

Não é maravilhoso que uma criança tenha dito a outra que, na possibilidade de perder um concurso que para ela era naturalmente importante, aquilo que a fazia feliz era que a sua amiga ficasse triste ao seu lado?

Tanta humildade e tanta verdade nesta pergunta…

Pois não é isto mesmo que nós adultos, se pensarmos bem, também sentimos lá no fundo? Quando algo de bom ou algo de menos bom acontece, aquilo que verdadeiramente nos conforta é quem fica contente ao nosso lado ou triste ao nosso lado? Não é isso que importa, muito mais do que ficarmos contentes por termos ganho ou tristes por termos perdido?

Não é este o nosso maior desejo: o de nos sentirmos amados, na tristeza e na alegria?

Mas não sei bem o que é mais difícil encontrar actualmente: se a empatia de ficar triste ao lado de quem está triste, ou a humildade de ficarmos contentes ao lado de alguém que está feliz porque algo lhe correu muito bem, melhor do que a nós, sobretudo nesta sociedade que parece que está em constante corrida, não sei bem para que meta…

Penso que talvez seja mais difícil encontrar a humildade de ficarmos contentes quando algo corre melhor aos outros do que a nós, porque o orgulho é, de facto, uma erva daninha que está sempre à espreita e que precisamos  de tirar do campo da nossa vida, para que os frutos das amizades plantadas sejam sempre tão saudáveis como são os frutos da amizade entre duas crianças.

Os próprios discípulos não escaparam às comparações e invejas entre si:

 E entraram em Cafarnaum. Então, quando estava dentro da casa, Ele lhes perguntou: “Sobre o que vocês estavam discutindo na estrada?”Eles ficaram calados, pois na estrada tinham discutido entre si sobre quem era o maior.  (Marcos 9:33, 34)

De volta ao concurso literário…

No dia seguinte, a Maddy recebeu a carta e o seu texto também foi um dos escolhidos! As duas amigas abraçaram-se com muita alegria. 

Mas penso que a maior vitória foi mesmo a da sua Amizade!

Tal como escreveu Henry Nouwen, um importante padre, teólogo e escritor sobre vida espiritual e que viveu no séc. XX:

Quando nos perguntamos honestamente quais as pessoas nas nossas vidas que significam mais para nós, descobrimos que frequentemente são as que, em vez de dar conselhos, soluções ou curas, escolheram compartilhar a nossa dor e tocar nas nossas feridas com uma mão quente e gentil. O amigo que fica quieto connosco num momento de desespero ou confusão, que pode ficar connosco na hora do luto e da perda, que tolera não saber, não curar, e encara connosco a realidade da nossa impotência, esse é um amigo que se importa.

Vamos então fazer o propósito de ficarmos tristes ou contentes ao lado de quem precisa?

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3 Comments

  1. Catarina Silva

    Sim, vamos! 🙂

  2. Tenho gostado muito dos seus textos e partilhas! Obrigada!

  3. Que texto tão bonito. 🙂

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