Carisma

As Famílias de Caná aspiram à santidade, não apenas enquanto pessoas individuais, não apenas enquanto casais, mas sobretudo enquanto família. Este desejo de santidade familiar acontece em clima de Bodas, que no Evangelho de S. João representam o Banquete do Reino de Deus, a grande celebração do amor esponsal de Deus-connosco.

A vida familiar e o Banquete do Reino

Ao longo de todo o Antigo Testamento, Deus celebra a sua aliança com o povo através de uma refeição festiva. Assim acontece com Abraão, Moisés e os profetas, e assim aparece descrito no Livro da Sabedoria. Quando chega Jesus, Deus torna-Se tão próximo, que esta refeição pode acontecer na casa de cada família. A primeira casa onde acontece é, naturalmente, a casa de Nazaré, onde Jesus partilha a sua refeição com Maria e José durante trinta longos anos. Em seguida, os evangelhos contam-nos como o Banquete do Reino acontece na casa dos noivos de Caná, na casa de Mateus, na casa de Zaqueu, na casa de Maria, Marta e Lázaro, na casa de Simão Pedro, na casa de Simão, o fariseu, torna-se Eucaristia na casa de Marcos, chamada de Cenáculo, e finalmente, na Casa de Emaús. Também os primeiros cristãos celebram a fé nas suas casas, ao ponto de S. Paulo, nas suas cartas, se dirigir “à igreja que se reúne em casa” (Rm 16, 5; 1Cor 16, 19; Col 4, 15; Fl 2) de determinadas famílias, igreja que partilha a refeição fraterna e a refeição eucarística.
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As Famílias de Caná querem recuperar o sentido profundamente celebrativo da vida familiar, como sinal da aliança esponsal entre Deus e o seu povo. Assim, as Bodas de Caná acontecem na casa familiar, diariamente, e na igreja, ao domingo, na celebração da Eucaristia.

A vida familiar e a unidade

Ao longo de todo o Antigo Testamento, a Aliança de Deus com o seu povo torna-se possível através do “sim” de diferentes famílias. De facto, na origem do povo de Deus não está apenas Abraão enquanto indivíduo, mas Abraão enquanto chefe de uma família, pois é com Sara, sua esposa, que ele parte para Canaã e é nela que se cumpre a promessa de um descendente. Séculos mais tarde, ao chegar a Canaã, Josué não proclamou a sua fé pessoal, mas a fé de toda a sua família, em cujo nome falou: “Eu e a minha família serviremos o Senhor” (Jos 24, 15). O “sim” de Maria precisou do “sim” de José para que Jesus vivesse, em família, entre nós. Os Atos dos Apóstolos descrevem a conversão de famílias inteiras, que recebem o batismo numa única celebração (cf. At 16, 33).

No mundo atual, a fé não parece ser geralmente capaz de congregar famílias inteiras. Acredita-se que cada membro deve ter o seu próprio sistema de crenças e escolhas sem interferir nos dos restantes membros da família e até o batismo dos bebés é adiado para que possam ser eles a escolher a sua fé mais tarde. A resposta de Josué, falando em nome da sua casa, ou a decisão dos primeiros convertidos ao cristianismo de fazer batizar toda a sua família de uma só vez, surgem aos olhos do mundo moderno como antiquadas e autoritárias.

As Famílias de Caná querem inserir-se na grande tradição bíblica e contrariar, assim, a dispersão familiar moderna. De acordo com o Concílio Vaticano II, elas querem ser pequenas Igrejas Domésticas (Lumen Gentium, 11: AAS 57), onde os filhos sejam educados desde o berço na fé católica, onde educar seja desafiar para a santidade e crescer seja uma aventura rumo ao Céu.DSC01554

Frutos do Espírito Santo

Neste contexto de Aliança, o Espírito Santo faz brotar alguns frutos específicos:

A alegria: as Famílias de Caná são muito alegres, exprimindo-se com cânticos e danças festivos, rezando com todo o corpo, celebrando a vida, a amizade, o amor, procurando multiplicar momentos de convívio familiar, de conversas amenas e de brincadeiras felizes. Quando o Senhor lhes permite partilhar a sua cruz, a alegria mistura-se com dor, mas não se transforma em desespero ou lamúria, antes se deixa impregnar de serenidade, pois o jugo do Senhor é suave e a sua carga leve (cf. Mt 11, 30)

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A partilha familiar: nas Famílias de Caná, a família procura partilhar o mais possível o espaço e o tempo familiares, contrariando aquilo a que o Papa Francisco chamou de “individualismo pós-moderno e globalizado” (Evangelii gaudium, nº67). Assim, as Famílias de Caná encontram tempo e lugar, na sua casa, para partilhar conversas, brincadeiras e atividades, não permitindo que a televisão silencie a partilha da vida, nem que as atividades extracurriculares, de trabalho ou, inclusive, de apostolado impeçam o convívio familiar e a interajuda dos irmãos. Partindo do próprio significado da palavra Bodas, ou Banquete, e de toda a tradição bíblica, que culmina nas refeições festivas de Jesus, a hora da refeição familiar é absolutamente central, ocupando, a par da oração familiar, o “horário nobre” da família.

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Simplicidade: as Bodas de Caná foram certamente bem diferentes da grande maioria das bodas atuais. O Papa Francisco refere-se a estas bodas modernas, na sua exortação Amoris laetitia, e faz um apelo aos noivos: “A preparação próxima do matrimónio tende a concentrar-se nos convites, na roupa, na festa com os seus inumeráveis detalhes que consomem tanto os recursos económicos como as energias e a alegria. Os noivos chegam desfalecidos e exaustos ao casamento, em vez de dedicarem o melhor das suas forças a preparar-se como casal para o grande passo que, juntos, vão dar. (…) Queridos noivos, tende a coragem de ser diferentes, não vos deixeis devorar pela sociedade do consumo e da aparência. O que importa é o amor que vos une, fortalecido e santificado pela graça. Vós sois capazes de optar por uma festa austera e simples, para colocar o amor acima de tudo.” (nº 212) As Famílias de Caná procuram recuperar o sentido bíblico das bodas, não apenas no início da sua vida familiar, como ao longo de todo o caminho, vivendo o seu amor familiar com muita simplicidade e, inclusive, austeridade, longe da mundanidade que infecta o mundo atual.

Generosidade: As Famílias de Caná procuram ser generosas com o Senhor, como Ele é generoso com elas, não permitindo que lhes falte o vinho novo na sua casa. Esta generosidade exprime-se, em primeiro lugar, no seio da própria família, que se abre à vida de acordo com a doutrina da Igreja expressa nas encíclicas e exortações  papais Humanae vitae, Familiaris consortio e Amoris laetitia; mas também se exprime na sua disponibilidade para servir, à imitação de Maria, a família alargada, a comunidade e a paróquia, os pobres, os abandonados, os excluídos, os amigos e os vizinhos, vivendo de portas e janelas abertas a todos e fazendo-se próxima de todos.

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