Em Caná da Galileia...


A caravana de Jacob

Jacob e o seu irmão Esaú acabavam de se reconciliar, no deserto, a caminho de Canaã. Solícito, Esaú pede a Jacob que continuem o que falta do caminho juntos, para pôr a conversa em dia e reatar a amizade. A resposta de Jacob é surpreendente pelo seu realismo e pelo seu amor:

O meu senhor sabe que as crianças são delicadas e que o gado miúdo e graúdo, que ainda mama, exige os meus cuidados; se os apressarem, ainda que só por um dia, todo o gado novo perecerá. Que o meu senhor queira passar adiante do seu servo; eu caminharei devagar, ao passo da caravana que me precede e ao passo dos meninos… (Gn 33, 13-14)

Quando caminhamos em família, precisamos de esperar uns pelos outros; precisamos de nos ajudar uns aos outros; precisamos de respeitar os diferentes ritmos de caminhada, sem fazer sentir ao outro que ele é um estorvo para nós.

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Uma das questões mais dolorosas e frequentes para as Famílias de Caná que desejam comprometer-se é precisamente a questão dos diversos ritmos de conversão e de caminhada dentro da sua família. A mãe, ou o pai, gostariam imenso de rezar o terço em família todos os dias, mas o filho, o cônjuge, o irmão não o permitem. Poderá alguém na família impor, pela força, a sua vontade? Naturalmente que não, sob o risco de pecar gravemente contra o amor. Que fazer?

Rezará o terço, meditará na Palavra de Deus, frequentará os sacramentos, servirá os outros e cuidará do Canto de Oração familiar, sozinho; mas fa-lo-á sempre, sempre em nome da sua família, como o pai que abre um enorme guarda-chuva sobre os filhos e a esposa, protegendo-os da tempestade, e o segura sozinho.

Claro que todo este trabalho de evangelização silenciosa, quando se trata do cônjuge, pode ser feito com amargura, com rancor, refilando e respondendo mal a toda a hora, descurando a relação conjugal, evitando o encontro sexual, impondo regras e inventando problemas; ou pode ser feito com humildade, com paciência, com mansidão, com um sorriso permanente no rosto, com uma procura sincera do outro, com uma abertura de vida, de corpo, de alma, de pensamento ao outro, fazendo-o sentir-se amado. Que imagem e semelhança de Deus quero eu ser para o meu cônjuge? A primeira opção é mais frequente e mais fácil, mas redunda em completo fracasso, porque é totalmente contrária ao evangelho; a segunda opção –  quantas vezes heróica – é a opção dos santos…

Devagar, ao ritmo da sua caravana, ao longo de dias, semanas, meses, anos ou até décadas, o milagre irá acontecer, e a paciência de quem assim soube esperar será recompensada a cem por um. Lembra o Papa Francisco:

Um pequeno passo, no meio de grandes limitações humanas, pode ser mais agradável a Deus do que a vida externamente correta de quem transcorre os seus dias sem enfrentar sérias dificuldades. (A Alegria do Evangelho, nº 44)

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6 Comments

  1. Obrigada.

  2. Pilar Pereira

    Também eu agradeço este texto, de que muito gostei e que me deu uma ajuda!

  3. Rogėrio Ribeiro

    Tenho esperança que devagar devarinho lá chegarei…Quando? Não sei, só Deus o sabe!

  4. Catarina Silva

    Texto maravilhoso…..tão difícil fazer isto, tão difícil entender isto, tão difícil conseguir fazer isto todos os dias, um após outro sem perder a força e sem vacilar na fé, durante semanas, meses, anos, décadas…
    Tão, mas tão difícil, caminhar devagar quando se tem tanta pressa de chegar. E no entanto, de que serve chegar depressa se os nossos amores ficaram para trás?

  5. Muito obrigada por este texto de encorajamento, Teresa.

  6. Não deixo de me rever neste texto… e em vinte e dois anos de caminhada, de fato é devagar, muito devagar e quantas vezes após desafios sérios e profundos… desertos em que a caravana quase fenece, que sentimos o colo misericordioso de Deus. No maravilhoso e pleno respeito pela liberdade de cada um… Um Pai, sem dúvida, que não quer ser amado por imposição e que espera que lhe queiramos falar, todos… porque somos família… a consagração e resposta mais humana ao Seu projecto

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