Em Caná da Galileia...


A confissão, a rede de malha larga, as nódoas e a veste nupcial

Na véspera da celebração do Crisma deste ano, o Niall, catequista responsável pelo grupo de preparação para o Crisma, encontrava-se com os crismandos no Santuário para as confissões. Entre os crismandos estava uma senhora jovem adulta que, com toda a naturalidade, perguntou ao Niall: “Confessei-me a semana passada. Não preciso de me confessar outra vez, pois não?” O Niall sorriu e disse: “Essa resposta, não lha posso dar. Só a senhora é que a conhece! Mas posso ajudar: o Papa João Paulo II confessava-se uma vez por semana. E é santo… ”

Não sei se a senhora foi confessar-se ou não. Mas sei que a sua questão é comum a muitos cristãos. Um dos mais graves problemas dos cristãos atualmente é não se darem conta dos seus pecados. “Não roubo, não mato, não cometo adultério, que pecados posso eu ter?”

As Famílias de Caná confessam-se com muita frequência. Algumas fazem-no uma vez por mês, outras todas as semanas. Cá em casa não temos dia fixo, mas confessamo-nos muito. Quando tenho oportunidade de me confessar uma vez por semana, faço-o. É que é bem mais simples lembrar-me dos meus pecados se os confessar todas as semanas, do que se me confessar de dois em dois meses.

A confissão, na verdade, não é para enumerarmos os nossos defeitos – falta de paciência, falta de caridade, falta de oração – mas para enumerarmos os nossos pecados. E estes não são categorias; são pensamentos, palavras, atos e omissões. Quem se confessa apenas duas ou três vezes por ano irá certamente lembrar-se dos grandes pecados, os pecados mortais, e enumerá-los, se não forem muitos – e se tiver consciência do que é ou não um pecado mortal, consciência essa que, nos dias de hoje, está bastante adormecida. Mas, como uma rede de malha larga lançada ao mar, deixará passar todos os pecados ditos veniais, quais peixinhos pequenos.

Assim, quem se confessa anualmente pode, por exemplo, confessar: “De vez em quando falto à missa sem motivo. De vez em quando perco a paciência. Quando posso, fujo aos impostos. Tenho tendência para falar mal das pessoas.” Mas quem se confessa semanalmente pode, por exemplo, confessar: “Ontem menti a um colega de trabalho, na terça-feira ralhei excessivamente com os meus filhos, há três dias gritei com o meu marido, durante toda a semana deixei o terço para o fim de todos os meus trabalhos, e por isso adormeci a rezá-lo. Falei mal de dois colegas e não fui pontual quatro vezes, deixando todos à minha espera. Menti ao meu filho e respondi torto à minha mãe…” Vêem a diferença?

E por que é preciso confessar mesmo tudo, tudo, tudo? Porque ninguém entra na Sala do Banquete sem a veste nupcial:

Amigo, como entraste aqui sem traje nupcial? (Mt 22, 12)

Uma nódoa na roupa que trago por casa não faz nenhuma diferença. Geralmente, deixamos que o avental velho que usamos quando cuidamos do jardim se suje bastante antes de o lavarmos, e mesmo que fique com nódoas, não nos importamos. Mas uma nódoa pequenina no vestido de noiva, a caminho do altar, é intolerável.

A vida é o nosso cortejo nupcial a caminho do altar onde Jesus, o Noivo, espera por nós para nos desposar eternamente…

2 Comments

  1. Rogério Ribeiro

    Obrigado Teresa pela partilha, gostei muito e como eu tenho alguma dificuldade na confissão a partilha elucidou-me nalguns aspectos da confissão!

  2. Sim, não posso deixar de concordar… mas não esqueço que Deus está comigo no quintal, quando as nódoas são negras e as mãos sangram… E o manto da Nossa mãe não deixa de nos fazer a bemfazeja sombra! É muito importante este sacramento sim, e ocorreu-me que… mas se mais praticado, talvez tivessemos mais sacerdotes, talvez…

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