Em Caná da Galileia...


A festa na Aldeia e o picante da Terra

Há dois meses que a Aldeia de Caná Nossa Senhora Auxiliadora não reunia, tantos foram os compromissos e as doenças. Mas mal despontou fevereiro, marcámos encontro.

Antes, reuníamos nos primeiros sábados, depois da catequese, às quatro horas. Depressa nos demos conta de que as crianças estavam naturalmente já cansadas, refilando que não conseguiam rezar o terço, e tudo era feito um pouco a correr. Então optámos pelo primeiro domingo, às três da tarde. E que boa decisão essa!

Domingo surgiu luminoso, depois de uma semana de chuva intensa. Às três horas, estávamos no santuário cinco famílias, praticamente completas, e uma mãe que vive o seu compromisso de forma pessoal (embora sempre em nome da família). Podiam estar mais? Muitas mais. Houve famílias que faltaram por causa dos vírus típicos desta época e por causa de acidentes com familiares. Para uma Família de Caná, o compromisso com a sua família natural está sempre à frente de um encontro de Aldeia, e é por isso que só reunimos uma vez por mês. Mas outras faltaram porque o encontro não lhes pareceu prioritário. A maravilha da nossa fé cristã reside também na liberdade de respondermos ao chamamento pois, como diz Jesus no Evangelho,

muitos são chamados, mas poucos são escolhidos (Mt 22, 14).

E sempre que visita a Terra, Maria pergunta aos videntes: “Queres?” Foi assim que começou, em Fátima, o delicioso diálogo entre A Senhora Mais Brilhante do que o Sol e a pequena Lúcia. Lúcia perguntou, com o seu pragmatismo característico:

Vossemecê que me quer?

E a Senhora Mais Brilhante do que o Sol respondeu, não com uma ordem, mas com um pedido e uma pergunta:

Vim para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos, no dia 13, a esta mesma hora (…) Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos…?

É esta delicadeza divina que também procuramos que seja característica das Famílias de Caná: o convite humilde, feito ao maior número possível de famílias, a partilhar a nossa alegria, sem imposições e sem ressentimentos.

Durante uma curta hora, rezámos na capelinha do santuário, cantando, dançando, meditando os mistérios do terço, intercedendo por todo o mundo e agradecendo ao Senhor tudo o que d’Ele temos recebido.

O ensinamento deste mês – já o leram? – fala-nos precisamente da mensagem de Fátima. Como todos conheciam a história de Fátima, que temos tratado abundantemente na catequese, sugeri contar a história de Nossa Senhora de Lourdes, que festejamos dia 11 deste mês. Na verdade, já todos tinham ouvido falar de Lourdes, mas ninguém conhecia os pormenores da história. E que história! Os encontros com Maria são sempre fascinantes, e a pequena Bernardette tem o dom de atrair pequenos e grandes. Até a Sara, com os seus quatro aninhos, veio para casa a falar da menina pobrezinha e da gruta fria e escura, donde jorrou, abundante, a fonte da Vida.

Terminada a oração, viemos para o pátio do colégio salesiano, onde, à boa moda salesiana, somos sempre bem vindos. Que grande animação! Bolas, trotinetes, patins, bicicletas, jogos de escondidas, de agarradas, das cores, partidas de futebol com pais e filhos à mistura, partidas de basquetebol, um lanche fabuloso para partilhar, muita conversa e, sobretudo, uma enorme alegria.

Enquanto a Lena e eu jogávamos às cores e ao “camaleão”, às escondidas e às apanhadas com a Sara e o Xavier, o James, no meio de um campo de futebol em loucura, perguntava aos gritos ao Niall: “What’s the plan?” Que é como quem diz: “Para que lado afinal é que devo chutar a bola?” Mas já o João Teles tinha tudo sob controlo e no final da partida pingava suor e gritava vitória.

 

Cinco e meia, e ninguém queria ir embora. “Meninos, amanhã é dia de escola e de trabalho!” Chamavam os pais, que também já não tinham resistência para mais brincadeira. Por fim, lá regressámos a casa.

O Niall olhou para o nosso jardim, ainda cheio de terra, a precisar de poda e de cuidados urgentes. Mas não olhou como nos outros dias, em que, suspirando, lamenta a falta de tempo e de oportunidades para tratar do que é nosso. Desta vez, encolheu os ombros e sorriu:

“Valeu a pena deixar o jardim em pousio para brincar com a nossa Aldeia! Não há nada que os filhos mais desejem do que brincar em conjunto com os seus pais. Para uma criança, a tarde de hoje foi perfeita: estavam todos entre amigos, todas as crianças conheciam e confiavam nos adultos que as rodeavam, e todos brincámos em conjunto, adultos e crianças, adolescentes e jovens, divertindo-nos a valer.”

Este é, na verdade, o desafio das Famílias de Caná: rezar e brincar em família, dando prioridade ao tempo em que estamos juntos e colocando-o à frente de qualquer outro tempo na nossa vida.

E este é também o desafio das Aldeias de Caná: rezar e brincar em família de famílias, permitindo aos nossos filhos crescer em “aldeia”, confiando nos adultos que os cercam e brincando com as outras crianças com naturalidade. Não sendo condição para que uma família viva o seu compromisso como Família de Caná, as Aldeias são contudo um transbordar natural das nossas “bilhas” cheias.

Será um desafio simples, ser Família de Caná? Não. Um compromisso que implique uma família inteira é sempre mais complicado do que um compromisso pessoal com o Senhor. É este, estou certa, o maior obstáculo que as pessoas encontram em aderir ao Movimento.

Hoje, e digo-o com tristeza, tudo parece sobrepor-se ao tempo de família e ao tempo entre famílias. O domingo dos nossos jovens está demasiado sobrecarregado inclusive com os estudos que, no mundo atual, especialmente para os alunos responsáveis, se tornaram um valor absoluto. Precisamos urgentemente de deixar de olhar para o domingo como o dia de pôr em ordem a casa, a roupa, os estudos. Sim, podemos estudar e trabalhar ao domingo, mas sem que isso nos impeça o encontro e o convívio (duas horas…). O domingo terá de voltar a ser, acima de tudo, o dia da família, da partilha, da amizade, mesmo que isso implique alguma dor e alguma renúncia. E volto a remeter para as Memórias da Irmã Lúcia, sobretudo o segundo volume…

Fica o desafio. Às famílias aqui perto de nós, entre Coimbra e Aveiro, que desejem pertencer à nossa Aldeia de Caná, desafio a enviar-me um mail, para que nós possamos avisar-vos do próximo encontro. Às Famílias de Caná do resto do país, desafio à “santa pressa”: pressa para se reunirem em Aldeia, rezando e brincando, em nome de Jesus.

Dizia o Niall, durante a oração na Aldeia e a propósito do Evangelho deste domingo, que o Senhor nos chama, não só a sermos o sal da Terra, mas também o “picante” da Terra. Todos nos rimos. Sim, sejamos “picante”, picante que tempera com determinação, e picante que “espicaça” e “acorda” os nossos irmãos, mesmo causando algum incómodo. Perdoem-me se este post assim o fez…

 

2 Comments

  1. A mim a publicação não me incomodou. Bem pelo contrário; fez-me rever, recordar (trazer ao coração), reviver como sempre foi na minha família e como é na minha família de famílias – manos e sobrinhos, avós, tios, primos direitos e em tantos graus, padrinhos e amigos que são família. Nem nos lembramos dos 150km em média que nos distam geograficamente de todos.

    Mediante esta publicação só posso afirmar: sim, vale a pena viver assim, é incomensuravelmente fecundo, pessoal e relacionamente (muito eu podia testemunhar a este respeito…).

    Contudo, a publicação deixou-me uma dúvida no que respeita ao como priorizar: o que terá prioridade, a aldeia de Caná (família de famílias de Caná) ou a família das famílias dos avós, tios, primos, padrinhos, sobrinhos, etc.? Prioridade prioridade daquela que dói e pede renúncia, sem tentar estar nos dois lados “roubando” bocadinho a ambos ou tentando equilibrar doses para cada uma das opções.

    Que Deus abençoe todas as Famílias é que as de Caná se mantenham fiéis ao seu chamamento específico.

    • Obrigada pelo comentário! Graças a ele, já adicionei duas frases no post, que ajudam a clarificar ideias 🙂 A Aldeia de Caná reúne apenas mensalmente, porque em primeiro lugar vem a família de cada um. Aliás, é esse o chamamento específico das Famílias de Caná: testemunhar o milagre de Deus na sua casa e na sua família alargada. Ao contrário de muitos movimentos, nós não nos encontramos, como movimento, semanalmente, porque para nós, a prioridade é a família e, logo a seguir, a paróquia. Preferimos ter menos tempo para fazer formação e para o convívio “no Tabor” e ter disponibilidade, aos fins-de-semana, para, por exemplo, dar catequese e visitar a família. É por isso que a Aldeia de Caná é mais um transbordar, não sendo condição para que alguém viva o seu compromisso como Família de Caná. Bj

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